23/08/23

Comentário a um excerto de Esmeraldo de Situ Orbis, de Duarte Pacheco Pereira - Um roteiro náutico

 

 


Ao lermos os capítulos (26 a 29) do Esmeraldo de Situ Orbis ficamos imediatamente com a ideia de estarmos a ler um roteiro de viagem. Isto porque o seu autor, Duarte Pacheco Pereira, cuidou em nos dar através do seu texto pormenorizado, as indicações para seguirmos como navegadores, os «rios da Guiné» e um pouco todo o ocidente e oriente africano. Afinal, quem não chegaria hoje ao Reyno de Jalofo e ao de Mandingua através deste tratado de geografia ? Se puderia enganar com o número de milhas a navegar? Não estaria prevenido para os obstáculos e perigos a ultrapassar? Se enganaria com os ventos a aproveitar, a época do ano e as correntes mais favoráveis? E as encruzilhadas do comércio, quem as precisava procurar?

  Portanto, o que recolhemos deste texto são os seus conhecimentos cosmográficos e a sua experiência naval.. Duarte Pacheco Pereira apresentou a sua obra consubstanciada num discurso sobre a natureza que se apoia no ver e no ouvir, numa vertente eminentemente geográfica.

  Contudo o seu livro não é só um relato das suas viagens, um roteiro náutico, mas também uma "memória" escrita de um navegador e guerreiro, ao serviço de um Estado em expansão, onde está patente essa avultada experiência pessoal no campo das navegações.

  Depreendemos contudo, que esta palavra «experiência» toma um significado que é sinónimo de «prática», apresentando-se por vezes de forma instável, em virtude do autor descrever factos irreais. A exemplo disso, temos a afirmação de ter comprovado a existência na costa africana de cobras com várias cabeças e que se desfaziam na água ao entrarem no mar. A experiência pela pratica das coisas, fê-lo ver por vezes uma «realidade» que não correspondia ao «real». Deste exemplo percebemos ainda existir uma justaposição entre o plano da geografia do maravilhoso medieval e o da observação. Significa também estarmos numa idade em que se confrontam dos tipos de saberes, o antigo e o moderno.

  Contudo essa coexistência entre: o maravilhoso e fantástico, e o saber objetivo baseado na observação, apresenta-se no texto de diversas formas

A maravilhosa geografia medieval e a observação do facto, interpenetram-se na referida questão das cobras, vejamos : “cobras tam grandes que tem hum quarto de leguoa de longuo, e ha grossura e olhos, boca e dentes respondem á sua grandeza [...] e tanto que entram no mar todas se desfazem em auguoa”. È importante observar que no texto o autor não afirma que efetivamente as viu, mas ele é efeito do mito, aceitando essa realidade, dizendo: “isto he duro de crer a quem nam tem a pratica d’estas cousas como a nós teemos”.

  Noutro caso, o autor faz referência aos habitantes de Toom, descrevendo-os como tendo “rostro e dentes como cae0s e rabos como de cam e sam negros e de esquiua conversaçam”. Aqui prevalece não a questão do testemunho ou da observação, facto que não acontece, mas sim o repetir do fabuloso pela boca de outros : “e eu faley com home0s que isto viram”.

A questão de um mundo mitológico ligado à Etiópia, ao Nilo, e ao lendário Preste João, representa outra coexistência, que este texto apresenta e a qual abordaremos mais adiante.

  No entanto, é importante compreender que essa forma de «experiência», não é ainda formada na experimentação ou observação sistemática mas por um conhecimento prático e empírico. Não podemos contudo esquecer que Pacheco Pereira, foi beber muitos dos conhecimentos geográficos da Antiguidade, como é o caso da citação a uma obra de Plínio. Nem tão pouco, que o seu texto se trata ainda de uma "verdadeira" ruptura frente aos paradigmas da tradição. Mas, marca o colapso de algumas ideias e teorias erróneas acerca da geografia e do mundo natural, que circulavam nos manuais dos autores clássicos e medievais.

  Mas neste texto pormenorizado, onde a herança das crónicas medievais se faz sentir  através de uma certa mentalidade conquistadora aliada a uma escrita panegírica, toma lugar a importância do numero, da quantificação. Nesta minúcia, o autor procurava a exatidão das descrições, o sentido das distâncias. A obra de forma geral, não se tratava ainda de uma leitura quantitativa e geométrica do universo, mas refletia de sobremaneira uma lenta transformação de hábitos mentais e de utensilagem aritmética, que se afirmava progressivamente como condição para a emergência de uma nova leitura do mundo.

  Preocupemo-nos agora de analisar não a forma, porque já o fizemos, mas o conteúdo destes breves capítulos, fazendo também nós a viagem. Duarte Pacheco propõe-nos um roteiro desde a Ilha d’ Arguim, a sul do Cabo Branco, até ao Rio da Gambea.

Os locais e as questões abordadas, leva-nos ao período a que correspondem ás segunda e terceira fases do período henriquino da expansão portuguesa. A primeira destas, entre 1446 e 1460, comporta a fase em que se os portugueses tentaram estabelecer contatos mais pacíficos em virtude da  resistência das populações locais. Procura-se dessa forma o desenvolvimento de relações comerciais com as populações autóctones.

Na fase seguinte, entre 1446 e 1460, a política ultramarina é bastante dominada pela preocupação de tirar proveito do espaço atlântico, já explorado através de expedições comerciais sistemáticas ao sertão. Ou seja, uma fase onde os portugueses se obrigam a uma mudança de ritmo, pois as características do terreno, um abundante povoamento, as diferenças linguísticas, e a existência de mercados já estabelecidos, obrigaram a uma outra cadência na atitude expansionista.

Para melhor entendermos este roteiro convenhamos entender os seus principais  lugares, porque subjaze no texto uma necessidade de os bem informar, conhecer e dominar.

  O arquipélago de Arguim foi descoberto por Nuno Tristão, em 1443, ao prosseguir as explorações em direção ao Sul para além do Cabo Branco. Estas  ilhas e o litoral do banco de Arguim, eram já há muito frequentadas pelas caravanas dos mercadores (sobretudo de sal). Mas inicialmente este tornou-se o ponto privilegiado para  numerosas expedições esclavagistas portuguesas. Estas alimentaram durante anos, frequentes e numerosas viagens de navios de Lagos e Lisboa. É neste período que a feitoria de Arguim é fundada.

  A riqueza em água doce e peixe, permitia ás ilhas de Arguim as condições ideias para a construção de armazéns e instalações comerciais. Assim, do ponto de vista comercial, Arguim revestia-se de uma extrema importância para os Portugueses. Tratava-se pois, do primeiro entreposto  comercial permanente na costa africana, onde, regularmente e durante numerosos anos, os portugueses obtiveram ouro e escravos, contra tecidos, cavalos e trigo do qual as populações autóctones estavam sempre ávidas.

  Mas chegados ao rio de Çanaguá, encontramos uma descrição  que nos leva a todo um mundo mitológico, ligado ao Nilo, á Etiópia e ao reino do lendário Prestes João. Temos aqui, também implícito, o espirito de cruzada, pois a procura desse lendário reino constituía uma demanda: “E este riomandou descobrir ho virtuoso Infante Dom Anrique por Denis Diaz, [...] e por Joham seu Padre, e por Lançarote de Freytas [...] e quando este rio de Çanaguá foy descuberto e nouamente sabido, disse o Infante que este era o braço do Nylo que corre pella Ethiopia contra oucidente “.

  Até ao final do século XV, os geógrafos em virtude de um mau conhecimento do interior africano e perante uma convicção enraizada desde a Antiguidade, admitiam que o Nilo se dividia em dois braços: um correndo para o Mediterrâneo; e outro dirigindo-se para oeste. Se deste fosse descoberta a embocadura, seria fácil de rumar até ao país de Prestes João, a Etiópia, muito próxima, pensavam eles, da terra dos negros. Duarte Pacheco diz-nos ainda, “parece que este he o braço que o Nilo lança pelle Ethiopia inferior contra oucidente” e que “aquy he o principio dos Ethiopios e homeẽs negros; e por que sam duas Ethiopias, bom he que se sayba como esta primeira se chama Inferior ou Ethiopia Bauixa oucidental”.  

  Desta forma, o autor faz referência geográfica a duas Etiópias, que nos descreve assim: “a esta primeira Ethiopia corre e se estende per costa do dito rio Çanaguá atee o cabo de Boa Esperança [...] a qual por outro nome Guiné lhe chamamos [...] A outra Ethiopia superior começa no Rio Indo, aleem do grande Reyno de Persia “.

  Saindo do Rio Negro, o rumo seguinte é agora Cabo Verde, onde para além das habituais informações de navegação vamos encontrar os locais para o tráfico de escravos e outros produtos.

  No que diz respeito ás relações comerciais, em que são várias as referências ao longo do texto, permite-nos observar que, nada têm a ver com uma lógica colonial, nesta cronologia. Não é o capitão negreiro a capturar negros na floresta africana, mas sim os autóctones a impor as formas de obter escravos e produtos com regras de comercio definidas.

  Portanto, os portugueses limitaram a incluir-se numa dinâmica que não podiam contrariar. Sobre estas, se queixa no seu texto Duarte Pereira: “E em nossos dias se resguatauam aqui escrauos negros dez e doze por hum caualo posto que bõo nom fosse, e polla maa governança que se nisto teue, até seys nam podem aguora auer”. Ou ainda, “mas seja por uontade dos negros, por que de outra maneira receberam dapno” ou “mas há mester que comtentem os negros” ou ainda “e o capitam que a este resguate for, guarde-se d’estes negros, por que sam muito maa gente”. Destas linhas percebemos a existência de uma inflação de preços, e sobretudo quem os fixava.

  Mas é ainda interessante observar, que o «outro» não é visto de forma inferior, mas diferente. Estávamos ainda longe das avaliações pejorativas que mais tarde a mentalidade etnocentrista e a sociedade escravocrata iriam impor.

 Ainda sobre o comércio de escravos o texto fala-nos dos Jalopos, que oriundos da zona da Guiné, eram exímios navegadores que haviam sido convertidos ao Maometismo sendo muitos inteligentes e empreendedores.

  Por fim chegamos ao Reino dos Barbacis, junto ao rio de seu nome. E daí para o reino da Gâmbia que constituía um dos principais pontos de resgate de escravos. O rio do mesmo nome era de grande trato, o melhor que havia na Guiné, de mais resgate que todos. Conseguia-se comprar com cinco ou seis cousas diferentes um escravo que não se obtinha por cinco cruzados de bom dinheiro.

 Os escravos vendidos eram muitas vezes cativados em guerras ou obtidos em julgamentos que faziam. Também eram vendidos os considerados feiticeiros, com toda a sua geração.

 O texto mostra-nos a existência de diversos reinos neste espaço geográfico que ia desde o Cabo Branco até ao Rio da Gâmbia, sendo disso exemplo o dos  Barbacins,  Jalolos e Mandinguas. Este último, de grande importância, ocupava o espaço que ia do rio Senegal ao da Gâmbia.

  Este texto completa-se ainda com uma descrição da fauna existente por aquelas paragens e que o autor não poupou esforços para nos apresentar e descrever, aquilo que no fundo, o mundo ocidental desconhecia. Fala-nos dos crocodilos, descrevendo-os como “grandes laguartos [...] nociuos e comem os home0s e boys e vacas” e dos hipopótamos chamando-lhes de “grandes cauallos marinhos, mayores que boys [...] e tem dous corninhos ou dentes de dous palmos cada hum, de grossura de hum braço de home0 pelo colo”.

  Em jeito de conclusão, podemos dizer que durante esta viagem pelo texto de Duarte Pacheco Pereira, fomos levados a África, percorrendo milha a milha toda a costa e territórios a sul do Cabo Branco até á Gâmbia. Mas também navegamos no maravilhoso medieval, numa mentalidade ainda dominada pelo medo, pelo mágico e pelo fantástico. Contudo, a nossa nau já transportava uma nova atitude crítica e racional perante um mundo que se abria ao conhecimento dos homens.

  Afinal a experiência «é a madre das coisas»

Vitor Hugo

Bibliografia :

-        ALBUQUERQUE, Luís de,  Duarte Pacheco Pereira – O saber de experiência feito. Navegadores, Viajantes e Aventureiros Portugueses Sécs. XV e XVI, Lisboa, Circulo dos Leitores, 1987.

-        ALBUQUERQUE, Luís, Rio Senegal In Dicionário de História de Portugal, coord. de Joel Serrão, Vol. 5, Porto, Livraria Figueirinhas, p. 531.

-        AZEVEDO, Maria Antonieta Soares de, Etiópia, Relações com, In Dicionário de História de Portugal, coord. de Joel Serrão, Vol. 2, Porto, Livraria Figueirinhas, pp. 477-481.

-        BALLONG-WEN-MEWUDA, J. B. A Instalação de Fortalezas na Costa Africana. Os Casos de Arguim e da Mina. Comércio e Contactos Culturais In Portugal no mundo, dir. por Luís de Albuquerque, vol. II, As Zonas de Influência do Ocidente. Origem e desenvolvimento da colonização. Lisboa, Alfa, 1989.

-        BARRETO, Luís Filipe, Os Descobrimentos e a Ordem do Saber, Uma análise sociocultural, Lisboa, Gradiva, 1987.

-        CARVALHO, Joaquim Barradas de, Duarte Pacheco Pereira, In Dicionário de História de Portugal, coord. de Joel Serrão, Vol. 5, Porto, Livraria Figueirinhas, pp. 52-54.

-        IDEM, Esmeraldo de Situ Orbis, In Dicionário de História de Portugal, coord. de Joel Serrão, Vol. 2, Porto, Livraria Figueirinhas, pp. 438-442.

-        IDEM, Esmeraldo de Situ Orbis de Duarte Pacheco Pereira, Lisboa, F.C.G., 1991

-        GODINHO, Vitorino Magalhães, Mito e Mercadoria, Utopia e Prática de Navegar, séculos XIII-XVIII, Lisboa, Difel, 1990.


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