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Ao lermos os capítulos (26 a 29) do Esmeraldo de Situ Orbis ficamos imediatamente com a ideia de estarmos a ler um roteiro de viagem. Isto porque o seu autor, Duarte Pacheco Pereira, cuidou em nos dar através do seu texto pormenorizado, as indicações para seguirmos como navegadores, os «rios da Guiné» e um pouco todo o ocidente e oriente africano. Afinal, quem não chegaria hoje ao Reyno de Jalofo e ao de Mandingua através deste tratado de geografia ? Se puderia enganar com o número de milhas a navegar? Não estaria prevenido para os obstáculos e perigos a ultrapassar? Se enganaria com os ventos a aproveitar, a época do ano e as correntes mais favoráveis? E as encruzilhadas do comércio, quem as precisava procurar? Portanto, o que recolhemos deste texto são
os seus conhecimentos cosmográficos e a sua experiência naval.. Duarte
Pacheco Pereira apresentou a sua obra consubstanciada
num discurso sobre a natureza que se apoia no ver e no ouvir, numa vertente
eminentemente geográfica. Contudo o seu livro não é só um relato das
suas viagens, um roteiro náutico, mas também uma "memória" escrita
de um navegador e guerreiro, ao serviço de um Estado em expansão, onde está
patente essa avultada experiência pessoal no campo das navegações. Depreendemos
contudo, que esta palavra «experiência» toma um significado que é sinónimo de
«prática», apresentando-se por vezes de forma instável, em virtude do autor
descrever factos irreais. A exemplo disso, temos a afirmação de ter
comprovado a existência na costa africana de cobras com várias cabeças e que
se desfaziam na água ao entrarem no mar. A experiência pela pratica das
coisas, fê-lo ver por vezes uma «realidade» que não correspondia ao
«real». Deste exemplo percebemos ainda existir uma justaposição entre o plano
da geografia do maravilhoso medieval e o da observação. Significa também
estarmos numa idade em que se confrontam dos tipos de saberes, o antigo e o
moderno. Contudo essa coexistência entre: o
maravilhoso e fantástico, e o saber objetivo baseado na observação,
apresenta-se no texto de diversas formas A maravilhosa geografia medieval e a observação do facto,
interpenetram-se na referida questão das cobras, vejamos : “cobras tam grandes que tem hum quarto de
leguoa de longuo, e ha grossura e olhos, boca e dentes respondem á sua
grandeza [...] e tanto que entram no mar todas se desfazem em auguoa”. È
importante observar que no texto o autor não afirma que efetivamente as viu,
mas ele é efeito do mito, aceitando essa realidade, dizendo: “isto he duro de crer a quem nam tem a
pratica d’estas cousas como a nós teemos”. Noutro caso, o autor faz referência aos
habitantes de Toom, descrevendo-os como tendo “rostro e dentes como cae0s e rabos como de cam e sam negros e de esquiua
conversaçam”. Aqui prevalece não a questão do testemunho ou da
observação, facto que não acontece, mas sim o repetir do fabuloso pela boca
de outros : “e eu faley com home0s que isto viram”. A questão de um mundo mitológico ligado à Etiópia, ao Nilo, e ao
lendário Preste João, representa outra coexistência, que este texto apresenta
e a qual abordaremos mais adiante. No entanto, é importante compreender que
essa forma de «experiência», não é ainda formada na experimentação ou
observação sistemática mas por um conhecimento prático e empírico. Não
podemos contudo esquecer que Pacheco Pereira, foi beber muitos dos
conhecimentos geográficos da Antiguidade, como é o caso da citação a uma obra
de Plínio. Nem tão pouco, que o seu texto se trata ainda de uma
"verdadeira" ruptura frente aos paradigmas da tradição. Mas,
marca o colapso de algumas ideias e teorias erróneas acerca da geografia e do
mundo natural, que circulavam nos manuais dos autores clássicos e medievais. Mas neste texto
pormenorizado, onde a herança das crónicas medievais se faz sentir através de uma certa mentalidade
conquistadora aliada a uma escrita panegírica, toma lugar a importância do
numero, da quantificação. Nesta minúcia, o autor procurava a exatidão das
descrições, o sentido das distâncias. A obra de forma geral, não se tratava ainda de uma leitura quantitativa e
geométrica do universo, mas refletia de sobremaneira uma lenta transformação
de hábitos mentais e de utensilagem aritmética, que se afirmava
progressivamente como condição para a emergência de uma nova leitura do
mundo. Preocupemo-nos
agora de analisar não a forma, porque já o fizemos, mas o conteúdo destes
breves capítulos, fazendo também nós a viagem. Duarte Pacheco propõe-nos um
roteiro desde a Ilha d’ Arguim, a
sul do Cabo Branco, até ao Rio da
Gambea. Os locais e as questões abordadas, leva-nos ao
período a que correspondem ás segunda e terceira fases do período henriquino
da expansão portuguesa. A primeira destas, entre 1446 e 1460,
comporta a fase em que se os portugueses tentaram estabelecer contatos mais
pacíficos em virtude da resistência
das populações locais. Procura-se dessa forma o desenvolvimento de relações
comerciais com as populações autóctones. Na fase seguinte, entre 1446 e 1460, a política
ultramarina é bastante dominada pela preocupação de tirar proveito do espaço
atlântico, já explorado através de expedições comerciais sistemáticas ao
sertão. Ou seja, uma fase onde os portugueses se obrigam a uma mudança de
ritmo, pois as características do terreno, um abundante povoamento, as
diferenças linguísticas, e a existência de mercados já estabelecidos,
obrigaram a uma outra cadência na atitude expansionista. Para melhor entendermos este roteiro convenhamos
entender os seus principais lugares,
porque subjaze no texto uma necessidade de os bem informar, conhecer e
dominar. O arquipélago de
Arguim foi descoberto por Nuno Tristão, em 1443, ao prosseguir as explorações
em direção ao Sul para além do Cabo Branco. Estas ilhas e o litoral
do banco de Arguim, eram já há muito frequentadas pelas caravanas dos
mercadores (sobretudo de sal). Mas inicialmente este tornou-se o ponto
privilegiado para numerosas expedições
esclavagistas portuguesas. Estas
alimentaram durante anos, frequentes e numerosas viagens de navios de Lagos e
Lisboa. É neste período que a feitoria de Arguim é fundada. A riqueza em
água doce e peixe, permitia ás ilhas de Arguim as condições ideias para a
construção de armazéns e instalações comerciais. Assim, do ponto de vista
comercial, Arguim revestia-se de uma extrema importância para os Portugueses.
Tratava-se pois, do primeiro entreposto
comercial permanente na costa africana, onde, regularmente e durante
numerosos anos, os portugueses obtiveram ouro e escravos, contra tecidos,
cavalos e trigo do qual as populações autóctones estavam sempre ávidas. Mas chegados ao
rio de Çanaguá, encontramos uma
descrição que nos leva a todo um mundo
mitológico, ligado ao Nilo, á Etiópia e ao reino do lendário Prestes João.
Temos aqui, também implícito, o espirito de cruzada, pois a procura desse
lendário reino constituía uma demanda: “E
este riomandou descobrir ho virtuoso Infante Dom Anrique por Denis Diaz,
[...] e por Joham seu Padre, e por Lançarote de Freytas [...] e quando este
rio de Çanaguá foy descuberto e nouamente sabido, disse o Infante que este
era o braço do Nylo que corre pella Ethiopia contra oucidente “. Até ao final do
século XV, os geógrafos em virtude de um mau conhecimento do interior
africano e perante uma convicção enraizada desde a Antiguidade, admitiam que
o Nilo se dividia em dois braços: um correndo para o Mediterrâneo; e outro
dirigindo-se para oeste. Se deste fosse descoberta a embocadura, seria fácil
de rumar até ao país de Prestes João, a Etiópia, muito próxima, pensavam
eles, da terra dos negros. Duarte Pacheco diz-nos ainda, “parece que este he o braço que o Nilo
lança pelle Ethiopia inferior contra oucidente” e que “aquy he o principio dos Ethiopios e homeẽs negros; e por que sam duas
Ethiopias, bom he que se sayba como esta primeira se chama Inferior ou
Ethiopia Bauixa oucidental”. Desta forma, o
autor faz referência geográfica a duas Etiópias, que nos descreve assim: “a esta primeira Ethiopia corre e se
estende per costa do dito rio Çanaguá atee o cabo de Boa Esperança [...] a
qual por outro nome Guiné lhe chamamos [...] A outra Ethiopia superior começa
no Rio Indo, aleem do grande Reyno de Persia “. Saindo do Rio
Negro, o rumo seguinte é agora Cabo Verde, onde para além das habituais
informações de navegação vamos encontrar os locais para o tráfico de escravos
e outros produtos. No que diz
respeito ás relações comerciais, em que são várias as referências ao longo do
texto, permite-nos observar que, nada têm a ver com uma lógica colonial,
nesta cronologia. Não é o capitão negreiro a capturar negros na floresta
africana, mas sim os autóctones a impor as formas de obter escravos e
produtos com regras de comercio definidas. Portanto, os
portugueses limitaram a incluir-se numa dinâmica que não podiam contrariar.
Sobre estas, se queixa no seu texto Duarte Pereira: “E em nossos dias se resguatauam aqui escrauos negros dez e doze por
hum caualo posto que bõo nom fosse, e polla maa governança que se nisto teue,
até seys nam podem aguora auer”. Ou ainda, “mas seja por uontade dos negros, por que de outra maneira receberam
dapno” ou “mas há mester que
comtentem os negros” ou ainda “e o
capitam que a este resguate for, guarde-se d’estes negros, por que sam muito
maa gente”. Destas linhas percebemos a existência de uma inflação de
preços, e sobretudo quem os fixava. Mas é ainda
interessante observar, que o «outro» não é visto de forma inferior, mas
diferente. Estávamos ainda longe das avaliações pejorativas que mais tarde a
mentalidade etnocentrista e a sociedade escravocrata iriam impor. Ainda sobre o
comércio de escravos o texto fala-nos dos Jalopos,
que oriundos da zona da Guiné, eram exímios navegadores que haviam sido
convertidos ao Maometismo sendo muitos
inteligentes e empreendedores. Por fim chegamos
ao Reino dos Barbacis, junto ao rio de seu nome. E daí para o reino da Gâmbia
que constituía um dos principais pontos de resgate de escravos. O rio do
mesmo nome era de grande trato, o melhor que havia na Guiné, de mais resgate
que todos. Conseguia-se comprar com cinco ou seis cousas diferentes um
escravo que não se obtinha por cinco cruzados de bom dinheiro. Os escravos
vendidos eram muitas vezes cativados em guerras ou obtidos em julgamentos que
faziam. Também eram vendidos os considerados feiticeiros, com toda a sua
geração. O texto mostra-nos a existência de diversos reinos neste
espaço geográfico que ia desde o Cabo Branco até ao Rio da Gâmbia, sendo
disso exemplo o dos Barbacins,
Jalolos e Mandinguas. Este último, de grande importância, ocupava
o espaço que ia do rio Senegal ao da Gâmbia. Este texto completa-se ainda com uma
descrição da fauna existente por aquelas paragens e que o autor não poupou
esforços para nos apresentar e descrever, aquilo que no fundo, o mundo
ocidental desconhecia. Fala-nos dos crocodilos, descrevendo-os como “grandes laguartos [...] nociuos e comem
os home0s e boys e vacas” e dos hipopótamos
chamando-lhes de “grandes cauallos
marinhos, mayores que boys [...] e tem dous corninhos ou dentes de dous
palmos cada hum, de grossura de hum braço de home0 pelo colo”. Em jeito
de conclusão, podemos dizer que durante esta viagem pelo texto de Duarte
Pacheco Pereira, fomos levados a África, percorrendo milha a milha toda a
costa e territórios a sul do Cabo Branco até á Gâmbia. Mas também navegamos
no maravilhoso medieval, numa mentalidade ainda dominada pelo medo, pelo
mágico e pelo fantástico. Contudo, a nossa nau já transportava uma nova
atitude crítica e racional perante um mundo que se abria ao conhecimento dos
homens. Afinal a experiência «é a madre das coisas» Vitor Hugo |
Bibliografia :
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