30/01/26

PARQUES ARQUEOLÓGICOS - A interpretação do património

 Resumo

  O presente ensaio visa abordar a questão da interpretação nos parques arqueológicos principalmente no que dizes respeito á forma de transmitir a informação histórica (em que incluímos, a arquitectura e a arte), que permita ao visitante ter a melhor compreensão sobre o local.

  Desta forma, procuramos efectuar uma reflexão ao nosso trabalho (na Ensaius) de quatro anos de apresentações guiadas a parques arqueológicos e os diversos problemas dessa interpretação.

  Esta nossa reflexão recai sobre alguns dos espaços habituais das nossas apresentações, tais como as cidades romanas de Miróbriga, Conímbriga, Mérida e o Anfiteatro romano de Lisboa. 

Palavras-chave: património; interpretação; arqueologia.

A Ensaius – preservar e divulgar a cultura portuguesa

  A base empírica deste ensaio provém dos vários trabalhos de preparação e apresentação a locais de interesse histórico, desenvolvidos no âmbito profissional, numa empresa dedicada á promoção de eventos histórico-culturais. Desta forma, tornava-se importante fazer a respectiva apresentação.

  A Ensaius é uma empresa portuguesa que se especializou na investigação histórica e social, na produção de materiais informativos e em actividades culturais de acentuada vertente histórica. Ainda no âmbito da sua actividade presta serviços de assessoria e gestões relacionadas com a História, nomeadamente nas seguintes áreas:

- Arqueologia da Pré-História;

- Arqueologia da Idade Média;

- Arqueologia da Idade Moderna;

- Arqueologia Industrial;

- História Institucional e Política;

- História Contemporânea;

- História Militar,

- História da Arte.

  Entidade prestadora de serviços na área histórico-cultural, pretende com a sua acção contribuir para a preservação e divulgação da cultura portuguesa e, ao mesmo tempo, ser um parceiro de confiança em termos da qualidade da investigação científica, sendo constituída por diversos historiadores e arqueólogos especializados em diferentes épocas históricas.

  A nossa iniciativa constitui uma aposta inovadora no estudo e registo da cultura de um povo, expressa nas suas tradições e festividades, de profissões que tendem a desaparecer, de individualidades, entidades ou de monumentos cujo significado assume importância local ou nacional.

  Como contadores de histórias e da História, procuramos respeitar a essência e a verdade dos locais e pessoas que fazem parte do país que somos. O objectivo da Ensaius é também proporcionar aos seus públicos uma resposta às suas necessidades e potencializar o interesse pelas suas regiões, estudando e divulgando o seu património.

A cidade romana e a sua importância

  O legado romano em Portugal é muito vasto. Entre as suas heranças destacam-se o alfabeto, o calendário juliano, o latim, o direito, as instituições republicanas, que são a base das democracias modernas, as estradas e ainda as grandes obras arquitectónicas.

  A arquitectura foi um meio de expressão muito poderoso usado pelos romanos para exaltar a grandiosidade e o poder do seu império, afirmação de sua autoridade e símbolo de dominação, especialmente a partir do principado.

  A romanização foi um processo lento mas seguro que, pouco a pouco, transformou em cidadãos romanos os povos conquistados. Embora algumas áreas tenham sido mais plenamente romanizadas do que outras, todo o Império sofreu a sua influência. Os Romanos tinham consciência de que residia na cidade, o cerne da sua cultura e do seu modo de viver. Consideravam-na, além disso, o núcleo ideal de administração das regiões provinciais. Por estas razões, a política de romanização centrou-se no desenvolvimento da vida urbana.

  A cidade romana ideal devia obedecer a um padrão rígido de urbanismo. Dispunha de um centro monumental, o fórum, onde se concentravam os edifícios destinados às principais funções institucionais administrativas e religiosas, que, por sua vez, atraiam as principais áreas de comércio. Deste modo, o fórum constituía o centro da cidade.

  Podemos afirmar que a sociedade romana é de matriz urbana, pois a sua primeira e principal expressão material é a cidade. É nesta e através desta que a cultura romana se afirmou, expandiu e implantou. A cidade clássica era o centro do poder político, administrativo e religioso e exercia influência por via do domínio de um território mais amplo.  

  Assim, consideramos que se torna importante compreender a cidade romana pela importância do legado cultural que ela representa em Portugal.

  Entre os vários pontos que consideramos importante referir ao público e que ele deve reter como informação, destacamos:

·       Explicar o espaço imperial romano.

·       Apresentar o carácter urbano da civilização romana.

·       Dar a conhecer as instituições governativas romanas.

·       Referir as características genéricas da cultura romana.

·       Apresentar os elementos urbanísticos da cidade romana.

·       Identificar os modelos arquitectónicos e escultóricos da civilização romana.

·       Apresentar a romanização com a aculturação dos povos dominados.

·       Enumerar os factores que mais contribuíram para o processo de romanização.

Arqueologia e património

  Segundo a Lei nº 107/2001 de 8 de Setembro pelo seu Artigo nº 74, Conceito e âmbito do património arqueológico e paleontológico, “entende-se por parque arqueológico qualquer monumento, sítio ou conjunto de sítios arqueológicos de interesse nacional, integrado num território envolvente marcado de forma significativa pela intervenção humana passada, território esse que integra e dá significado ao monumento, sítio ou conjunto de sítios, e cujo ordenamento e gestão devam ser determinados pela necessidade de garantir a preservação dos testemunhos arqueológicos aí existentes”.

  Quanto ao património cultural, ele é representado por todas aquelas testemunhas, materiais e imateriais, que nos falam do passado duma determinada área geográfica e cultural e cujo elemento determinante é a sua capacidade de representar simbolicamente uma identidade. Através do património cultural “cada momento do passado é construído de novo. Não existe passado [...] apenas presente, no contexto de que o passado está em contínua reconstrução [...] o passado é infinitamente construído no presente e através dele”[1] (Urry, 2005: 48).

  Mas, o património também pode ser visto como “um novo modo de produção da cultura no presente que tem recursos no passado”. (Kirshenbaltt-Gimblett, 1998: 149). Ou seja, o património é a revalorização do obsoleto.

  Em arqueologia, os monumentos fazem parte da referida cultura material, pois representam os restos materiais do processo evolutivo de uma cultura. Outros produtos da cultura material podem ser os artefactos cerâmicos, os utensílios de trabalho, as moedas e tudo o que tenha a ver com a produção material representativa da cultura de um povo. Desta forma, o “património atribui valor a bens existentes que deixaram de ser viáveis” (Kirshenbaltt-Gimblett, 1995; 370).

   Para a compreensão de um parque arqueológico, esses monumentos bem como os variados artefactos, tem de ser colocados nos lugares certos para proporcionarem a imagem e compreensão da cultura que representam.

  A arqueologia contemporânea exalta a dimensão histórico-cultural do parque arqueológico. Como sugere Kirshenbaltt-Gimblett, “o património não só dá aos edifícios, recintos, e formas de vida que deixaram de ser viáveis, por uma razão ou outra, uma segunda vida exibindo-se a eles próprios, como também produzem algo novo ” (1998;150).

  Os processos de patrimonialização envolvem não só a preservação de vestígios do passado, mas também a simulação dos seus contextos com o propósito de aumentar o seu potencial de atracção, o que significa que o património, para além de preservado, necessita também de ser observado e experimentado no presente (Lowenthal, 1985; Urry, 2005).

  Atualmente a pesquisa arqueológica não representa apenas um desejo meramente académico, mas com o seu significado intrínseco contribui para o enriquecimento da memória colectiva. Uma escavação arqueológica, não representa apenas uma etapa duma pesquisa científica, mas também permite transmitir e tornar visitável o património arqueológico, maximizando o seu valor cultural e informativo.

Por isso, é necessário procurar novos instrumentos de apresentação e interpretação do património arqueológico, devolvendo a abrindo a arqueologia à população.

 Projectos de intervenção e interpretação do património

  Ao longo de quatro anos de apresentações constatámos a existência de diversas dificuldades de compreensão e leitura das áreas arqueológicas, aliadas quer ao seu grau de ruína em que se encontram as estruturas, quer ao desconhecimento natural do público não especializado, dos referenciais de descodificação dos significados e simbologias dessas áreas. Estas dificuldades remetem estes locais, parte integrante do património cultural, para um certo isolamento, se compararmos a outras tipologias de património.

  No entanto, existem monumentos em que os referenciais, simbologias e funções da arquitectura, como num mosteiro, castelo ou catedral medieval, tornam-se muito mais próximos da realidade cognitiva do visitante do que os traços indefinidos de uma ruína romana.

  A falta de inteligibilidade da estrutura arqueológica leva a uma grande necessidade de apresentação e interpretação, descodificando significados que estão muito além do conhecimento do público não especializado.

  Estas dificuldades tem a ver com situações contextuais, pois esses públicos estão deveras arredados desses modelos de vida e os seus significados não se ajustam aos dias de hoje. Isso não quer dizer que a vida quotidiana dos nossos dias seja identificável com a de uma comunidade medieval.

  O que podemos dizer é que quando visitamos uma igreja medieval, apesar da distância no tempo, ela está muito mais próxima do quadro referencial do visitante comum do que um templo romano. Se numa igreja medieval se rezava, o mesmo continua a acontecer hoje em dia, pois o que difere são os rituais litúrgicos. Em contrapartida a funcionalidade e compreensão da importância e dos referenciais de um templo do culto imperial romano, para o mundo romano e para os nossos dias, encontram-se consideravelmente afastados, em função do seu bem diverso significado.

  Assim, justifica-se a importância nos cuidados a ter nos processos interpretativos e de apresentação numa área arqueológica. Como afirma Kirshenbaltt-Gimblett, “a incapacidade dos lugares contarem a sua própria história autoriza o próprio projecto da interpretação” (1998; 168).

  São de facto as particularidades do património arqueológico os grandes obstáculos a ultrapassar de forma a atribuir um maior interesse ao local para o publico não especializado.

De uma forma geral os parques arqueológicos apresentam es­truturas nem sempre com grande visibilidade e mo­numentalidade e cuja leitura e a compreensão por si são complicadas para a maioria do público.

  O facto de nos parques arqueológicos a maioria dos monumentos estarem em estado de ruína e haver a necessidade de preservação e protecção, constitui o principal constrangimento no tipo de interpretação a ser utilizada. O facto de eles estarem em ruína constitui uma importante limitação sobre aquilo que pode ser dito.

  A ruína arqueológica tem procurado afirmar-se como uma entidade cultural adaptando o seu discurso didáctico com vista á rendibilização social. Por vezes, assiste-se a algumas intervenções em sítios arqueológicos, como no caso de Mérida, no sentido da reconstituição de estruturas e de ambientes, tentando reevocar se­não a imagem original do sítio, pelo menos a imagem parcial das suas funções, significados, caracteres his­tóricos, artísticos e culturais.

  Tal propósito, embora não tacitamente aceite por muitos especialistas, tem conduzido a uma tentativa de repor, mesmo que virtualmente, as imagens desse passado longínquo, do que as estruturas são represen­tativas.

  Toda e qualquer perspectiva de reconstituição, seja ela no sentido de readaptação de um imóvel arquitec­tónico, seja ela no sentido da reevocação da imagem de um sítio arqueológico, com a finalidade de melho­rar a compreensão e usufruto público do local, deve sempre pautar-se pelos princípios da autenticidade e da integridade dos seus vestígios e das suas mensa­gens.

  Seja como for, estamos em crer que qualquer tipo de projecto de intervenção no sentido de valorização do parque arqueológico, no caso de possíveis reconstituições ou outras perspectivas museológicas, deve orien­tar-se no sentido de evidenciar as características das estruturas e fazer destacar o absoluto protagonismo das mesmas.

  O arquitecto ou museógrafo responsável por qualquer projecto de intervenção deverá ter a grande humildade de utilizar toda a sua criatividade de forma a conservar o espírito das estruturas arqueológicas. Elas terão que poder falar por si próprias, despertando as suas características inatas, enquanto bens culturais, históricos, artísticos e entidades físicas e funcionais.

  As formas de interpretação e os seus centros terão que fazer pelos parques arqueológicos aquilo que eles não podem fazer por eles (Kirshenbaltt-Gimblett, 1998). “Não se trata de um substituto para o parque mas uma parte integral dele, para o interface interpretativo mostra o que não pode ser visto. Ele oferece virtualidades na ausência de condições reais” (Kirshenbaltt-Gimblett, 1998; 169).

  Torna-se importante dar ênfase ao facto de que a história aprendida através do património é problemática por causa do destaque na sua visualização. “Os visitantes vêm um conjunto de artefactos, incluindo edifícios (reais ou fabricados), e depois tem de imaginar os padrões de vida que emergiam em redor desses locais ou objectos. Esta é uma história artefactual, no qual variados tipos de experiencias sociais são de facto ignoradas ou banalizadas” (Urry, 2008: 102).

 Interpretação do património

  Cada parque arqueológico para ser interpretado requer um estudo minucioso do seu contexto para dar corpo á sua essência de forma e ser capaz de recriar a história do sitio levando o visitante a uma viagem no tempo que seja estimulante e inesquecível.

  As visitas aos parques arqueológicos podem ser a chave para promover uma educação experimental e informal ao visitante. Neste caso, a interpretação é de forma geral necessária dado que o sentido do lugar e os seus significados são difíceis de entender sem a assistência de intérpretes ou outros meios de comunicação.

  Segundo Dicks a exibição in-situ “usa o principio da simulação e/ou reconstrução para proporcionar o vislumbre de uma vasta realidade que envolva o objecto, ou acontecimentos num contexto de historia alargada ao que está sendo apresentado. Procura-se imergir o visitante numa encenação envolvente de uma situação humana ilustrando o uso ou significado dos objectos e costumes” (Dicks, 2003: 165-166).

  A explicação dos lugares, deve apoiar-se em estratégias que permitam usufruir desses espaços de modo agradável, percorrendo caminhos e recriando contextos que levem o visitante á assimilação da especificidade daqueles espaços.

  A interpretação “compreende varias técnicas usadas para transmissão inteligível, particularmente através do uso de referências culturais, ambientes e lugares que de outra forma não seriam particularmente interessantes, acessíveis ou surpreendentes” (Dicks, 2003: 197).

  Para que o património cumpra essa utilidade imaterial mais evidente, de proporcionar conhecimento, é necessário efectuar previamente um tratamento interpretativo. 

  Muitas são as definições e autores a descrever os objectivos e estratégias da interpretação. A interpretação nasce da preocupação não só de conservar senão também de “difundir” o património cultural.

  Ela é descrita na sua primeira definição académica, por Freeman Tilden (1977), um dos fundadores da interpretação moderna, como sendo uma actividade educativa que pretende revelar significados e inter-relações através do uso de objectos originais, por contacto directo com o recurso ou por meios ilustrados, não se limitando a dar uma mera informação dos factos.

  Tilden (1977) defendeu que a interpretação deve explicar questões ligadas à experiência do visitante, que a informação não é exactamente interpretação, porém, a interpretação é uma revelação, uma descodificação baseada na informação. Ainda de acordo com Tilden (1977), o principal objectivo da interpretação não é a formação, porém a provocação, fazer falar e sensibilizar, estimulação e sedução.

  Assim, pensamos que a interpretação é o processo de desenvolvimento do interesse, o desfrute e a compreensão do visitante por uma área, mediante a explicação das suas características e as suas inter-relações.

  Os trabalhos de interpretação do património arqueológico passam por um conjunto de actividades que vão desde a identificação, investigação e recuperação da ruína. Depois, é necessário dinamizar e divulgar o local através de uma comunicação atractiva de informação que desperte o interesse dos vários significados desse património histórico aos visitantes. A interpretação usa as particularidades do património e objectos para demonstrar o passado aos seus visitantes na esperança da sua compreensão e apreço desses recursos que são apresentados (Timothy e Boyd, 2003)

  Temos de ter sempre em conta que a mensagem a transmitir deve ser equilibrada, estruturada, concisa sem abandonar o rigor da qualidade científica, devendo ser apresentada com uma boa apresentação gráfica na exposição dos seus conteúdos. Porém, um aspecto importante a ter em conta quanto ao tipo de mensagem que se passa ao visitante é de que ela respeite a sua inteligência, evitando assim constrangimentos desnecessários.

  Assim, a exibição deverá ser capaz de apresentar a(s) cultura(s) em tema, tanto como espectáculo, como conhecimento e alimentar tanto o olho como o cérebro. O importante é não produzir apenas sensações em detrimento do conhecimento e da compreensão.

  Assim, “o papel da interpretação é tornar as pessoas mais atentas aos lugares que visitam, para promover o conhecimento que aumente a sua compreensão e promova o interesse que leve à obtenção de uma grande satisfação” (Timothy e Boyd, 2003: 197).

  Como sugere Tilden (1977) a interpretação deve ser adequada e diferenciada para todas as faixas etárias de forma a estimular a participação activa desses diversos públicos no conhecimento do local, pois cada grupo etário tem expectativas diferentes.

 De uma forma geral, procuramos transmitir uma mensagem com uma boa utilização de termos técnicos, mas evitando muitas descrições científicas que possam desmotivar os visitantes. O mesmo deverá suceder com os paneis ao longo do percurso. No entanto temos que ter o cuidado de nunca transmitirmos uma mensagem demasiado simples, pois tal pode também aborrecer o visitante.

  Os valores a transmitir do parque arqueológico devem ser adequados a diversos meios e programas. Ou seja, as características dos bens interpretados devem assumir o seu protagonismo próprio. Contudo, deve-se evitar colocar algumas dessas particularidades em demasiada evidência, pois pode por em causa a sua integridade, proporcionado por um convite exacerbado ao manuseio. A mensagem deve pelo contrário despertar a consciência do visitante no sentido de estimular o desejo de conservação e protecção do património. O importante é que o visitante adquira uma noção singular do local e no fim da visita saia enriquecido ao reviver o passado.

  O esforço da interpretação e leitura dos parques arqueológicos tem levado à investigação de novas formas, métodos e técnicas de apresentação. Assim, temos encontrado estru­turas de protecção e reconstituições de volumetrias e ambientes, quer em maquetas (Mérida e Conímbriga), quer em desenhos evocando graficamente as fachadas que se perderam (Mérida, Mirobriga, Conímbriga), quer com a utilização da realidade virtual (Mérida, Anfiteatro de Lisboa) e da re­presentação em 3 dimensões como ainda o recurso a painéis e placas interpretativas (Mérida, Anfiteatro de Lisboa, Mérida, Conímbriga e Mirobriga).

  Os painéis e placas interpretativas são hoje bons aliados no sentido de ampliar a informação de supor­te às estruturas conservadas in loco. Nesses painéis o tipo de informação veiculado deve corresponder a um discurso de comunicação acessível e não técnico.

  As placas devem fazer a articulação entre a informação e a proposta de itinerário a seguir. Um dos exemplos dessa dificuldade é Conímbriga onde essa articulação nem sempre é bem conseguida levando a que o itinerário resulte por vezes num deambular caótico entre ruínas, pondo por vezes em risco as próprias estruturas. Relembramos, a primeira vez que as fomos estudar e mesmo munidos do caderno de registo dos vários elementos, ou seja, repletos de informação técnica, as dificuldades que tivemos para compreender o sitio e elaborar o melhor percurso para o desenvolvimento do nosso programa de interpretação.

  Também em Mirobriga o sistema de placas interpretativas, apesar de conterem alguma informação de auxílio ao visitante não especialista, inclui plantas que são pouco acessíveis à compreensão do visitante. Também aqui observamos a ausência de gráficos em três dimensões que possibilitem simulações virtuais dos edifícios. Este porém é um dos erros que se repetem por muitos parques arqueológicos.

  Ao longo das nossas apresentações temos levado como auxiliares de interpretação, mapas, desenhos que evocam as representações tridimensionais dos edifícios ou conjuntos urbanísticos, bem como reconstruções volumétricas em modelos de cartão para ajudar a uma reconstituição de um plano de contexto salientando e evocando ao mesmo tempo os seus particularismos.

  Alguns museus usam reconstruções do local ou apresentam-nas em miniaturas e dioramas cénicos (Conímbriga). Desta forma, pretendemos anular o abstraccionismo do conceito atribuindo-lhe alguma materialização. Mas muitas vezes a ligação entre o centro interpretativo e o local da ruína é difícil de fazer. De qualquer forma, geralmente o resultado do nosso trabalho é satisfatório pois os visitantes percebem a estrutura de organização do espaço da cidade romana e a função dos seus principais e relevantes edifícios.

  A nossa forma de interpretação passa por um discurso imaginativo de divulgação, através de novos métodos de comunicar e de estimular a com­preensão e o interesse do público, trazendo uma nova forma de compreender a Arqueologia e a História.

  Para a interpretação dos parques arqueológicos os centros de interpretação constituem o seu principal suporte. Eles satisfazem a solicitação social e ajudam a realizar a gestão dos bens culturais e patrimoniais. Do ponto de vista infra-estrutural, os centros de interpretação são equipamentos com serviços destinados à apresentação, comunicação e exploração do património cultural. Neles podem organizar-se: exposições, audiovisuais, visitas guiadas, etc. É nestes centros que se podem acolher os visitantes, sendo a partir deles que se podem dinamizar in situ os recursos naturais e culturais. Os centros de interpretação oferecem uma leitura interpretada do património cultural, algo não evidente na simples contemplação de objectos e rituais. Portanto, estes centros servem para construir uma primeira visão sobre o património cultural e a cultural que o visitante vai encontrar no parque arqueológico. O grande problema é estabelecer a relação entre a informação do centro interpretativo e do sítio.

 Técnicas de comunicação

 Na preparação dos conteúdos informativos para apresentação nos parques arqueológicos temos a consciência de que não basta informar, mas sobretudo comunicar, quer a nível da mensagem a passar no interior do parque, quer na que vá de encontro à sua divulgação externa.

  Assim, há que definir, previamente, o tipo de informação que deverá ser expressa e os públicos-alvo a que se destina, assim como organizar todo um cir­cuito de divulgação da informação.

 Torna-se importante referir que uma deficiente política de divulgação podem contri­buir, grandemente, para o insucesso na rentabilização de um espaço arqueológico aberto ao público.

  De facto, não basta concretizar propostas de musealização dos sítios, orientadas para a sua in­terpretação. Há que definir, previamente, o tipo de informação que deverá ser expressa e os públicos-alvo a que se destina, assim como organizar todo um cir­cuito de divulgação da informação. Existem, assim, diferentes estratégias de comuni­cação consoante o público-alvo a atingir. Porém, não podemos esquecer que na preparação de um plano para a interpretação guiada deve-se ter em consideração o que o visitante quer saber acerca do local para fazer com que a sua visita seja estimulante e memorável.

  Antes de continuar é importante relembrar e reflectir o que é de facto comunicar. A co­municação implica, necessariamente, dois interlo­cutores: o que emite a informação e o outro que a recebe. Assim, poderíamos definir a comunicação como a troca de ideias ou de objectos entre dois terminais ou pessoas. Mas, mais importante é que essa comunicação deve ser dada pelo emissor com a intenção de que o receptor a duplique e compreenda.

  A falta de compreensão pelos visitantes, de um sinal, um painel, um termo técnico, produz o mal-entendido. Este significa uma palavra ou símbolo que se passou e para o qual não se compreendeu o significado ou definição. Se os visitantes ao longo do percurso somarem mal entendidos desenvolvem sintomas de “ficar em claro”, o tema deixa de ser interessante e começam a acha-lo aborrecido.

  O continuar da visita leva a formas de queixa e culpa para com o objecto de visita e consequentemente para com a organização do parque e/ou o seu guia interpretativo. É aqui que vemos por vezes o grupo de 50 pessoas a desmembrar-se a meio do percurso.

  Os grupos de visitantes não são todos iguais e cada um tem a sua especificidade própria. Uma coisa é trabalhar para crianças outra é para jovens outra é para adultos. Ou seja, encontramos diferentes públicos, com necessidade e expectativas diferentes.

  Uma coisa é certa, os visitantes necessitam de ser orientados, direccionados e instruídos sobre o local a visitar. E, devem ser levados a compreender o lugar a partir das suas próprias experiências.

  Ao longo das várias interpretações feitas nos parques arqueológicos reparamos que habitualmente surgem três tipos de visitantes num mesmo grupo: um pequeno número de altamente motivado que quer aprender; um pequeno numero que tem pouco interesse em aprender; e os restantes em número assinalável onde o grau de disponibilidade para apreender é variável mas para o qual podem ser motivados a faze-lo. Desta forma, pensamos que algumas pessoas procuram os programas de interpretação porque desejam adquirir de forma agradável o conhecimento e uma experiência enriquecedora.

  Seja qual for o processo interpretativo o importante é que não devem ser passadas palavras ou símbolos mal entendidos ou para o qual os visitantes não tem definição. Devemos estar atentos às suas reacções e perceber se conseguimos manter o seu entusiasmo intacto do princípio ao fim da visita. Isto é ainda mais importante se o visitante for sozinho efectuar o percurso. Não se pode inundar todo um discur­so com designações científicas do tipo domus, villae, tabernae, insulae... sem se ter tido o cuidado de explicar, exactamente, o significado dessas palavras, ou de apresentar a reconstituição hipotética de uma estrutura, ou, pelo menos, a sua planta.

Assim, não podemos utilizar apenas uma terminologia técnica, sem qualquer preocupação da sua não descodificação. O uso dessa terminologia constitui um grande obstáculo à comunicação com o público, aliada, frequentemente, à natural ininteligibilidade, para um leigo, das ruínas arqueológicas.

  O público não está nem familiari­zado com a relação dos espaços, as funções, os atribu­tos e os códigos representados pelas estruturas arque­ológicas antigas, nem, muito menos, com explicações técnicas, específicas e muitas vezes até confusas. Os visitantes, esperam ver clareza nas identidades culturais em exibição.

  A comunicação deve desencadear uma constante curiosidade e anular a passividade do receptor. Só assim, teremos um visitante activo e participante. Para que o parque possa transmitir algum conhecimento ao visitante será necessário assegurar o seu acesso e encorajar activamente à curiosidade em modos de uma aprendizagem informal (Bella Dicks, 2003: 9). O objectivo das apresentações interpretativas não se devem ficar por uma simples descrição do lugar histórico, mas inspirar o sentido de um momento de história.

  Também as placas de sinalização ao longo dos percursos são provavelmente a forma mais comum de interpretação, pois permitem que uma boa parte da informação seja incluída em cada paragem que o visitante faz para apreciar uma determinada particularidade do parque. A visualidade dessas placas podem manter a atenção das pessoas e assistir na passagem de mensagens importantes sobre o local.

  Outra questão a ter em conta é que não podemos confundir informação com interpretação. Ou seja, a informação e a forma como é comunicada por si só não é interpretação. Ela é uma forma de revelação baseada na informação devendo relacionar o que está exposto com algo que tenha a ver com personalidade ou experiências de vida do visitante. (Timothy e Boyd, 2003). A interpretação é sempre um acto de comunicação que faz inteligível algo. É necessário contar uma história e fazer com que ela tenha significado para a vida de alguém.

  Outra forma possível de relacionar o lugar com as suas vivências de outrora é através de demonstrações culturais ou recriações históricas, com personagens vestidos ao rigor do período histórico, falando o dialecto da altura e abordando as pessoas para fornecer as informações necessárias. Esta forma de interpretação permite que objectos e lugares com referências reconheçam formas e estilos de vida, dando-lhes um contexto humano que os situa nos lugares, nas narrativas e no tema (Dicks, 2003).

  O material escrito é também uma forma utilizada para passar a informação, através de guiões, brochuras, mapas, etc.

  Entre várias técnicas de aplicação da interpretação destacamos:

·       Exposições permanentes e temporais.

·       Maquetas e reproduções.

·       Montagens audiovisuais.

·       Experiências interactivas.

·       Cenificações e representações teatrais.

·       Festas e eventos.

·       Sinalização e paneis informativos.

·       Visitas guiadas e itinerários temáticos.

·       Ateliês e actividades didácticas.

·       Desdobráveis, edições e materiais informativos.

  Então o discurso comunicacional para os parques arqueológicos deverá articular percursos, placas interpretativas, leitura dos espaços e arquitecturas, de forma a permitir indicações exactas sobre as estruturas, datações e funcionalidades, deixando, eventualmente, como complemento, as designações técnicas e científicas.

 Conclusão

  Estamos em crer que grande parte das conclusões foram aparecendo ao longo do desenvolvimento deste ensaio. Contudo, não é demais sublinhar alguns pontos fundamentais.

  Assim, a interpretação é um método para oferecer leituras e opções para um uso activo do património, utilizando para isso muitos recursos de apresentação e de animação.

  A interpretação parte de testemunhos culturais e tenta atingir a dinamização do património cultural no seu contexto original.

  A noção de interpretação pode ser entendida, como um processo de explicitação ao visitan­te do significado do parque arqueológico, tornando a visita mais proveitosa, facilitando a compreensão da herança cultural, ao mesmo tempo que alerta para uma atitude de consciencialização relativamente à sua conservação.

  Quanto aos projectos, estes devem sugerir ou mesmo reintegrar a imagem original (ainda que parcial) dos sítios, lançando mão de tecnologias, ma­teriais e linguagens próprias das estruturas, capazes de conduzirem à evocação das suas ima­gens e do seu significado. Torna-se necessário contextualizar a nível social, cultural e natural o património arqueológico.

  Assim, o processo de valorização deve orientar-se, num plano operativo, por uma intervenção museo­gráfica identificadora e interpretativa dos significados dessa estrutura e por outro lado, garantir a sua sobre­vivência material.

  O que importa é que os visitantes na maior parte dos parques arqueológicos aprendam algo quer num contexto formal ou informal.

  Em suma, devemos apresentar uma informação que seja clara, de transmissão rápida, que atribua interessa ao assunto, ensine algo novo, desperte a atenção, envolva o visitante e que seja uma experiência memorável.

Bibliografia

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[1] Nas citações, todos os textos em língua estrangeira foram traduzidos para português.

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