REFLEXÕES INTEMPESTIVAS
O passado deixa de ser fardo
È necessário retirar a carga emocional de um passado
visível para que ele não seja uma canga pesada que carregamos com a história. È
nesse esgotamento de todas as emoções a um facto ligado, que se consegue
arrumar o passado sem que ele de forma reativa influencia um presente e um
passado. É a libertação, o fenómeno final mental de um momento que se alcança
através dessa cognição final.
Devemos encarar o
passado na perspectiva de nos libertarmos dele, através de uma constante
audição aos factos, para a remoção de todo o seu conteúdo que represente o
estorvo do presente e a irracionalidade do futuro.
O passado é algo
que não podemos negar, a forma como o conhecemos é que por vezes pode vir
deturpada e ser assim transmitida. Isto, porque o ato hostil sempre está
oculto e os seus motivadores assumem-se como alicerces justificadores de uma
mentira transformada em verdade aparente.
Nietzsche disse-nos
que o peso do passado destrói a nossa imersão sobre o instante e que o
esquecimento é uma faculdade para o acesso à felicidade. Porém, esquecer é
impossível, pois a carga emocional não se desintegra nem desaparece dum
incidente por nenhuma faculdade humana, física ou espiritual que não passe pelo
verdadeiro confronto e real entendimento desse momento.
O verdadeiro
heroísmo é praticado pelo homem que confronta olhar o seu passado e se liberta
dele com o fim de perpetuar a sua eternidade como ser. E é essa dimensão que
faz a diferença entre os seres humanos e os suínos de Nietzche. Qual é o homem
que se quer reduzir à dimensão a-histórica de um presente absoluto ? Dará a
irracionalidade felicidade ? Será a solução da História a redução da dimensão
mental do homem ?
Se existe algum
grau de insónia, de ruminação ou de sentido histórico, significa que uma
restimulação deve ser manejada através do apuramento dos factos que provocam
indesejados comportamentos ou atitudes de um indivíduo ou de uma nação. Porém,
é essencial que o homem denuncie a si mesmo o momento de restimulação
histórica, que o confronte com coragem e que se
disponha arduamente a libertar as unidades de atenção que o prende
em tempo presente.
Esse mesmo grau de
insónia que leva ao sofrimento, a danos e á ruína, representam nada mais que um
conjunto de restimulações em tempo presente sobre um passado preenchido de
dados falso, onde a história se construiu com base na hostilidade, na supressão
e os seus justificadores foram considerados validos para a sua justificação ou
obtenção de fins. Porém essa restimulação, a dita insónia, perdurará até que o
homem corajoso a confronte e se liberte dela do seu passado. A partir desse
momento ele poderá viver com ele sem que este o incomode, tornando-se agora
numa mais valia, num dado da experiência, que o enriquece como ser humano e
espiritual. O passado deixa de ser fardo.