HORIZONTES DE SENTIDO
A identidade espaço social no bairro da Graça
Resumo
O presente ensaio tem
por base um trabalho etnográfico realizado no bairro da Graça
em Lisboa e constitui o reflexo dos dois anos de observação
participante.
Com vista a preparar o
terreno, a definir as áreas de atuação, bem como a selecionar as metodologias
de trabalho e na definição dos informantes chave para a recolha dos conteúdos
necessários à consolidação dos propósitos do projeto, a nossa atuação começou
pelo acompanhamento da vida de uma coletividade, o Clube Desportivo da Graça, que
tomou a seu cargo a organização e preparação da “marcha” do bairro.
Se as marchas populares constituem uma forma de identificar um bairro através de um conjunto encenado de práticas, discursos e produção iconográfica que tomam expressão nas letras das canções, figurinos, decoração dos arcos e coreografia, faltava perceber a forma como os seus protagonistas, os marchantes, a coletividade e os locais se identificam com o bairro. Para além disso, importava também perceber as fronteiras do bairro, ou melhor a sua espacialidade identitária, não enquanto unidade geográfica administrativa, pois um bairro não tem essa dimensão (nem necessariamente coincide com uma freguesia), mas a malha de solidariedades e vivências que solidifica o sentimento de pertença a esse local.
Palavras-chave: bairro, cultura, identidade.
O bairro, um “lugar antropológico”
Tanto as cidades como
os seus bairros têm percursos históricos próprios. As particularidades
inerentes necessitam de ser identificadas, constituindo o relato da memória a
forma mais natural de o fazer e procurando ao mesmo tempo, não só o
fortalecimento da consciência histórica, mas também o sentimento de pertença ou
de identidade.
Esta relação de
passado presente e a abordagem da cultura permite que a ação revitalizadora
dos indivíduos, na sua comunidade, possa levá-los a conhecer-se a si e ao outro
que é o diferente.
Para compreendermos as
identidades locais é importante atendermos aos referentes culturais que
materializam e simbolizam os espaços e sentimentos de identificação locais.
Neste estudo
procuramos valorizar os processos intersubjetivos, construídos socialmente
através de experiências e vivências quotidianas, em relação a um contexto sociocultural
preexistente. A forma de criação de horizontes de sentido e a edificação de
formas de interpretação da realidade permitem elaborar a forma de estruturação
e reconhecimento de uma identidade que se sublinha e renova ano após ano, no
ciclo festivo da cidade.
Os esquemas de
significação são reconstruídos e atualizados no quotidiano local, através dos vários
processos de comunicação ai gerados. Ao longo desta investigação temos
procurado a identificação dos diversos horizontes de sentido, tanto coletivos
e individuais, que nos permitam conhecer os mecanismos constitutivos da
identidade do bairro.
Surge-nos então, o
bairro, como o “lugar antropológico”, constituindo-se como a “construção
concreta e simbólica do espaço que não poderia por si só dar conta das
vicissitudes e das contradições da vida social, mas à qual se referem todos
aqueles aos quais ela atribui uma colocação, por humilde ou modesta que seja.”
(Augé, 2007: 46). Esse lugar é “simultaneamente princípio de sentido para os
que o habitam e princípio de inteligibilidade para aquele que o observa” (Augè,
2007: 46) sendo a sua escala variável. Como nos diz Marc Augé “estes lugares
têm de ter pelo menos três caracteres comuns. Querem-se (querem-nos) identitários,
relacionais e históricos” (2007: 47).
Desta forma, o bairro existe como “lugar” no verdadeiro sentido antropológico. Ele possui identidade própria, pois tem um nome, uma história, um conjunto de memórias e sociabilidades partilhadas (Cordeiro, 2001).
Olhares sobre o bairro
Desde o início que nos preocupamos sobre a melhor forma de observar
o bairro e em que perspectiva o devíamos abordar.
Dividir uma cidade em
bairros corresponde a uma forma de apropriação, teórica e pratica do espaço urbano,
conferindo-lhes uma certa delimitação e uma suposta estabilidade dentro do perímetro
citadino. Mas esta forma de divisão, espécie de princípio organizador e
administrativo, baseia-se na distinção e na compartimentalização de classes
sociais e no seu conjunto de hábitos, diferenças económicas, nas práticas e
discursos individuais, mas que não deixam de possuir igualmente configurações
funcionais e morfológicas comuns a toda uma estrutura urbana.
Ao percorrer as ruas
do bairro, observando a história e arquitetura urbana e em conversas com
alguns moradores, percebemos que o seu percurso de urbanização corresponde a
uma certa espacialização do decurso social da modernidade. Desta forma,
registamos um conjunto sociocultural variado, consequência desse movimento
continuo das cidades.
O bairro surge-nos como um território
demarcado e demarcável pelos seus conteúdos que são em simultâneo específicos e
genéricos, sublinhando ao mesmo tempo a forma precisa e imprecisa do que é
estar na cidade como uma parte dela. Assim, se pode abordar o bairro, espaço
dentro de um outro tipo de territorialidade bem mais ampla, e como algo que só
existe perante a cidade. No entanto, os bairros “são geograficamente difíceis
de definir; os seus centros são muitas das vezes múltiplos e as suas fronteiras
irregulares”[1]
(Smith, 2001:4).
Desta forma, a maneira mais adequada de
entendermos o bairro, evitando limitarmo-nos apenas a uma absoluta fragmentação
territorial, é considerar a cidade como a sua referência principal, pois ele só
existe perante ela, mas sem deixar de ter em conta que ele é a resultante das
contradições de um conjunto de práticas e discursos, que se distinguem através
dos seus usos. Só assim, podemos olhar o bairro, como uma unidade diferenciada
em relação á cidade.
Esta nossa tentativa de tentar organizar a sistematização deste bairro, implica de facto compreendermos a parte que pertence ao todo e que contem, em possibilidade, esse todo. Portanto, para perceber o contexto do bairro, torna-se imprescindível saber e conseguir vê-lo, num olhar urbano, procurando e reconhecendo os percursos e as direções dos indivíduos, ao mesmo tempo que vamos estabelecendo e descobrindo as suas relações internas e externas.
Cultura e bairro
Num momento em que cultura e identidade se
confundem nos argumentos teóricos, sentimos necessidade de enquadrar a nossa
investigação num conceito de cultura que nos permitisse reconhecer e enquadrar significados
objetivos e subjetivos.
Da mesma forma que
Brumann, partimos do pressuposto de que “a cultura está ai, é aprendida,
penetra em todos os dias da vida, é importante, e é de longe muito mais responsável
pelas diferenças entre os grupos humanos que os genes” (1999; S6). Ou ainda, “a
cultura é um conjunto específico de rotinas aprendidas (e/ou seus produtos
materiais e imateriais) que são característicos de um delineado grupo de
pessoas” (Brumann, 1999; S6).
Mas, mais importante
ainda, é compreender que a cultura não é um sistema estático que fossiliza no
tempo, mas sim dinâmico que se adapta à realidade do quotidiano, pois “nem as
sociedades nem as culturas devem ser vistas como dadas, integradas por alguma essência
própria, fundamento organizacional, ou plano mestre. Ao contrário, os conjuntos
culturais, e conjuntos dos conjuntos, estão constantemente em construção, desconstrução,
e reconstrução, sob o impacto de múltiplos processos operativos sobre vastos campos
de conexões sociais e culturais.” (Wolf, 2001, 313)
A compreensão da
cultura, como modelo da vida em sociedade, passa necessariamente pela
compreensão da realidade, afinidade e comunicação com e entre o espaço físico e
o social. Ou não será a cultura essa mediadora entre o universo físico (de matéria,
espaço, tempo e energia) e o universo mental (subjetivo, racional e analítico),
que ordena e organiza o homem no seu objetivo primordial da sobrevivência?
Cada homem desenvolve
num espaço e para ele um conjunto de relações que pelas suas características
singulares se torna “aquele” e que o identifica em particular. Mas, “nem toda a
cultura é relevante para identificar a formação e que a identidade cultural
coletiva não necessita de ser étnica” (Brumann, 1999; S12).
Entre o grupo de marchantes encontramos alguns que vinham de lugares fora da cidade (nomeadamente de localidades da margem sul do Tejo) para participar nos ensaios e sem qualquer tipo de ligação ao bairro. Sobressaia neles, não uma cultura de marcha de bairro, neste caso da Graça, mas apenas uma cultura militante de marchas e lisboeta. Isto significa que “participar em certa cultura particular não implica automaticamente ter certa identidade particular” (Cuche, 2004: 152). Esta situação remete-nos para o facto de que “as culturas podem não ter fronteiras “naturais” mas apenas aquelas que as pessoas (antropólogos bem como os outros) lhes dão, e delimitando um determinado conjunto de elementos como cultura pode por conseguinte ser mais ou menos persuasivo, nunca uma “verdade” final.” (Brumann, 1999; S6).
O investigador e o bairro
Após as primeiras
incursões ao campo, percebemos rapidamente termos entrado numa parte
desconhecida do nosso mapa, não necessariamente só a nível espacial, mas
sobretudo a nível social. Desta forma, antes de percebermos o que era “ser da
Graça” começamos por sentir o que não o era. Ou seja, fomos os primeiros a
sentir que não pertencíamos ao local e que nos identificávamos com outro que
não aquele.
Mais algumas semanas
decorreram e logo chegamos á conclusão de que não bastava passar por esse lugar
ou mesmo frequentá-lo com alguma regularidade para “ser da Graça”. Era
necessário estarmos integrados numa rede de relações que combinassem laços de
parentesco, vizinhança, procedência e sobretudo vínculos definitivos. Para tal
decidimos apostar com a nossa participação nas mais variadas atividades
coletivas.
A organização das
festividades centrada no Clube Desportivo da Graça facilitou-nos e potenciou o
desenvolvimento de relações e a inclusão como membro do grupo. Mesmo, perante
alguns marchantes ou associados mais cépticos e desconfiados com a presença do
investigador, a disponibilidade de colaboração, permitiu uma inclusão mais
fácil. Aos poucos eles nos fizeram “ser da Graça”. O nosso apoio constante
desde o primeiro ensaio, passando pela exibição da marcha no pavilhão Atlântico
até à grande noite de Stº António com o desfile na Avenida e o arraial na
coletividade, levou a que fossemos de certa forma a perfilhados por uma
identidade que não é a nossa e envolvidos por um sentimento estranho de
pertença a algo que não nos sentimos a pertencer, porque nos sentimos de outro
lugar. Isso não significa que, apesar do nosso estatuto de investigador
(observador neutro e isento) temporariamente não tivéssemos assumimos uma
identidade como se a tivéssemos possuindo e vivendo-a ao nível das emoções e
sentimentos.
Desta forma, tornou-se importante compreender a realidade do grupo, as suas formas de comunicação e estabelecendo formas de afinidade para obter a sua compreensão e aceitação. Torna-se imprescindível decifrar o código que nos separa, ordena e classifica como não sendo desse lugar.
Espaço e identidade social
Quem
chega à principal artéria da freguesia da Graça, a rua do mesmo nome, mesmo sem
conhecer o local, rapidamente percebe onde está, se estiver atento aos nomes
dos vários estabelecimentos comerciais, que mencionam para além da sua
designação o substantivo próprio, Graça. Isto é, encontramos um espaço bem
identificado por um conjunto de indicadores que produzem para os locais e
forasteiros sentimentos opostos. Para os primeiros o de identificação com o
local, “somos da Graça” e para os segundos a informação de estarem no espaço de outros, “estamos na Graça”. Logo
percebemos que é a identificação dos locais, com aquele “lugar”, que lhes dá o
sentimento de pertença e concretiza e fornece raízes à sua identidade. Ou seja,
“o dispositivo espacial é ao mesmo tempo aquilo que exprime a identidade do
grupo (as origens do grupo são com frequência diversas, mas é a identidade do
lugar que a funda, o reúne e o une) [...] para que a linguagem da identidade
conserve o seu sentido” (Augé, 2007:
41).
Nos percursos do quotidiano a cidade obriga á
confrontação dos indivíduos no mesmo espaço onde ai operam os mecanismos da
identificação de si mesmos e dos outros. E, essa diferença participa na
produção dos sinais e dos espaços urbanos numa relação constante de vai e vêm
entre identificação e território.
Enquanto conceito, a
identidade tem que ser analisada como produto de condições históricas precisas,
já que a diferença não é dada, mas sim produzida a partir das práticas e
políticas. Essas diferenças, além de se caracterizarem como legados históricos,
são reproduzidas e sustentadas mediante processos políticos, sociais e económicos.
Como nos diz Clifford, “a ideia de cultura [e identidade] transporta com ela um
anseio pelas raízes, de uma estável, existência territorializada” (1988; 338).
Da mesma forma, Marc Augé (2007) nos fala dos lugares
antropológicos para retratar este espaço identitário, histórico, de
encontro e referência afetiva, revestido de sentido.
De qualquer forma, definirmos a identidade de um grupo não é apenas “inventariarmos
o conjunto dos seus traços culturais distintivos, mas localizarmos entre esses
traços aqueles que os membros do grupo utilizam para afirmarem e manterem uma
distinção cultural” (Cuche, 2004: 140). Como nos diz Denys Cuche, “qualquer
grupo é dotado de uma identidade que corresponde à sua definição social,
definição que permite situá-lo no conjunto social. A identidade social [...]
identifica o grupo e distingue-o dos outros grupos” (2004: 136).
A identidade local resulta assim de um processo de construção social que combina diversos fatores, em que a coletividade, a rua e algumas redes familiares, fortemente territorializadas e coletivamente produzidas, centralizam e apropriam-se da entidade “o bairro popular”, projetando para o exterior essa interação quotidiana, de práticas de sociabilidades e memórias que definem a pertença a um espaço social (Cordeiro, 1997). São as sociabilidades de rua e vizinhança que “...contribuem para a construção social de certos bairros, que são percepcionados pelo exterior como unidades territoriais quase naturais, relativamente homogéneas e auto contidas, no nível das práticas e representações” (Cordeiro, 2001: 128).
Marchas populares e bairrismo
Por altura da organização da marcha o
bairro ganha um forte sentido de lugar pelo valor simbólico, o sentimento e os
significados construídos. O estudo das marchas populares nos bairros da cidade
põe em evidência a diversidade de práticas culturais e dá conta da capacidade
de inovação e ação dos grupos sociais.
As festas populares, a preparação e apoio á marcha do bairro,
constituem “um acontecimento não quotidiano que se constrói sobre redes de interação
social, intra e extra bairro, dando visibilidade a determinados processos
sociais e culturais que contribuem, fortemente e de uma maneira extremamente explícita,
para a criação de sociabilidades próprias que não só fazem o bairro no seu
quotidiano, como produzem ainda ideias, imagens, mitos, e narrativas sobre ele
e sobre a cidade.” (Cordeiro, 2001: 129)
A cultura de bairro
no seu aspecto simbólico define uma identidade social baseada no contraste
visual com a dos outros, que através das marchas populares permite dar
continuidade nessa produção cultural dos bairros. As marchas populares, apesar
do incentivo por parte do poder político e das novas formas de produção do
evento, permite a continuidade do uso dessa cultura tradicional, bairrista e
urbana, por parte daqueles interessados em manter e renovar a sua herança.
Assim, podemos dizer que a organização do concurso das marchas populares em que
as diversas formas de expressão são “representações que os indivíduos formam da
realidade social e das suas divisões” (Cuche, 2004: 139), propõe que as
relações intergrupos sejam organizadas de modo a manter a diferença cultural.
As várias formas de
manifestações onde existem o contacto e o confronto entre grupos levam-nos ao
conceito de “ bairrismo”. A identidade “é uma construção que se elabora num
modo de relação que opõe um grupo aos outros grupos com os quais está em
contacto” (Cuche, 2004: 140) é utilizada
por eles para organizarem as suas trocas. Ou seja, para que o bairrismo possa ser evidente, “ os grupos tem que ter um mínimo
de contacto com os outros, e eles devem ter em conta ideias de cada um como
sendo culturalmente diferentes deles próprios” (Eriksen, 1993: 10).
Contudo, é na elaboração e performance das
marchas populares que sobressai o bairrismo popular. Segundo Firmino da Costa, “as marchas
populares têm-se constituído num espaço de competição inter bairrista de âmbito
citadino, fortemente investido a nível de bairro (...) e resultam num poderoso
mecanismo de produção de identidades (1991: 61).
O bairrismo não é uma
propriedade de um grupo, mas uma forma essencialmente de relação com outros
grupos, ele é “um aspecto das relações sociais entre agentes que se consideram
a eles próprios culturalmente diferentes dos membros dos outros grupos com os
quais tem um mínimo de interação regular” (Eriksen, 1993: 12). Assim, “a
identidade cultural aparece como uma modalidade de categorização da distinção
nós/eles, assente na diferença cultural” (Cuche, 2004: 137).
Nesta parada de
despiques bairristas percebemos que nem todos os grupos têm o mesmo “poder de
identificação”, isto porque “o poder de
identificação depende da posição ocupada no sistema de relações que liga os
grupos uns aos outros” (Cuche, 2004: 142). Por isso, nem todos os bairros tem a
mesma influência na classificação final do concurso das marchas, sendo os
históricos e com grande interesse turístico, aqueles que estão habitualmente, entre
os primeiros classificados!
Contudo, esta renovação anual do popular bairrista “é quase
sempre uma tentativa melancólica de subtrair o popular à reorganização massiva,
fixá-lo nas formas artesanais de produção e comunicação, custodia-lo como
reserva imaginária” (Canclini, 1998: 213) da promoção do poder político local.
No decurso da nossa
investigação percebemos que a produção da ideia de “bairro”, no caso da Graça, é
assumida e encarnada pelo Clube Desportivo da Graça, que apesar da sua
influência não ser necessariamente extensiva a todo o bairro, não impede que
ele o assuma simbolicamente, tanto numa visão interior como para as entidades
exteriores a ele.
Percorrendo o
conjunto de elementos envolvidos na organização da festa, tanto da marcha como
do arraial, encontramos um grupo restrito, inserido numa associação e que
assenta em relações de parentesco e vizinhança. São “redes discretas de
solidariedade e vizinhança que, de um modo organizado, se mobilizam para a
produção de festas de rua ...” (Cordeiro, 2001: 138).
Desta forma, a visibilidade exterior da Graça assenta na sua associação representativa, o CDG. As marchas populares tem assim o objetivo da promoção exterior do bairro, através das diversas formas de sublinhar o seu nome e as suas representações pelas imagens e sons que a cenografia, o figurinismo, as musicas e os cantares produzem nas diversas encenações.
As fronteiras sociais do bairro
Torna-se importante
tentar perceber os significados atribuídos a certos espaços de vivência, bem
como as sociabilidades que desenvolvem formas de apego aos lugares urbanos. Na
nossa pesquisa ao bairro da Graça, percebemos não só a maleabilidade dos seus
contornos como a sua ambiguidade. Mas, será que as fronteiras sociais de
bairro, se dispõem apenas num perímetro maleável em torno desse território?
Facto marcante da
nossa investigação constituiu a experiência do Pavilhão Atlântico, no decurso
de três longas noites, onde os bairros fizeram desfilar as suas marchas perante
as suas claques e o publico em geral. Procuramos perceber, ao misturarmo-nos
com varias claques antes da atuação da respectiva marcha, experimentar o
ambiente e descobrir se existiria alguma hostilidade. Esta observação
permitiu-nos perceber que a rede de relações instauravam um código capaz de
separar, identificar e classificar. Ou seja, uma forma de referência a um
código que se podia dizer, quem era e quem não era do bairro, e em que grau,
colega, vizinho, familiar, amigo, comerciante, etc. Este tipo de situação levou
a que facilmente alguns elementos da claque nos identificassem como elementos
estranhos ao bairro, proferindo por vezes alguns comentários hostis e desagradáveis.
De uma forma geral, e
ao longo das três noites, observamos um imenso despique, onde o conflito e a
hostilidade, por vezes com cenas violentas, estiveram sempre presentes. Assim,
percebemos que a fronteira social, simbólica, “resulta de um compromisso entre
a que o grupo visa dar-se e a que os outros querem atribuir-lhe” (Cuche, 2004:
152) . Pois ,“o que cria a separação, a fronteira, é a vontade de diferenciação
e a utilização de certos traços culturais como marcadores da sua identidade específica”
(Cuche, 2004: 152).
As identidades de
grupo “devem sempre ser definidas em relação ao que não são – por outras
palavras, em relação aos membros que não são do grupo.” (Eriksen, 1993: 10)
As relações de sociabilidade e de apego ao lugar fazem com
que as fronteiras dos bairros não sejam nítidas mas “antes ambíguas, plásticas,
contextuais” (Cordeiro, 2001: 139).
Mas, também percebemos que existem demarcações sociais face a terceiros e entidades coletivas de referência e pertença (Cordeiro, 2001). Essas demarcações nunca são definitivas mas antes mutáveis e circunstanciais. E, como nos diz Graça Cordeiro, “os bairros podem, pois, ser considerados parte de uma cidade, lugares urbanos de tamanho e configuração variáveis, ou seja, unidades socioespaciais problemáticas em si próprias”. (Cordeiro, 2001: 139)
Conclusão
A proximidade entre festa popular e
identidades locais, permitiram a nossa introdução no campo de investigação, ao nível
do bairro da Graça em Lisboa, mas ao mesmo tempo a nossa entrada na
Antropologia Urbana.
Hoje em dia, a aventura antropológica de
narrar as culturas humanas já não se resume apenas aos iniciais lugares de
contemplação do exótico e do pitoresco, a milhares de quilómetros do lugar da
grande permanência do antropólogo, indo ao encontro dos grupos tradicionais,
das sociedades indígenas e das minorias étnicas.
O desafio do antropólogo
urbano está na forma como encara o seu objeto de estudo. Assim, aquele que
estuda uma cultura distante, que não é a sua, procura transformar o “exótico”,
o desconhecido em conhecido. Mas, o que trabalha em contextos urbanos numa cultura
que é a sua, transforma o que é (supostamente) conhecido em desconhecido e estranho,
evitando cair na armadilha do acordo de grupo, para voltar a conhece-lo.
Outro facto a ter em
conta é o de evitar a tentação de considerar o objeto de pesquisa escolhido, o
bairro, como uma "aldeia", nos mesmos moldes de algumas das
sociedades tradicionalmente estudadas pelos antropólogos. Seja qual for a área
escolhida para estudo, é preciso ter em conta a rede de relações que o local mantém
com a sociedade envolvente. No nosso caso, a dinâmica de um bairro não se
esgota no seu perímetro.
Em termos de metodologia,
a nossa aventura continuará por manter as características da pesquisa
etnográfica através de contacto prolongado, observação participante e procura
de uma relação direta com os informantes, tendo sempre presente o quadro mais
amplo no qual os fenómenos culturais se desenvolvem, nas sociedades modernas.
No decurso desta
primeira incursão começamos por comunicar e compreender as suas formas de o
fazer, entendendo o lugar, as suas relações de dentro para fora e vice-versa.
Ao fim destes anos percebemos que a
identidade do bairro é antes de tudo instável e imprecisa na sua definição de
conteúdo e limites. Este bairro, como qualquer entidade é um processo em
andamento e tem uma geografia social que é maleável.
Assim, a identidade do bairro é um processo de gestão marcado por fatores conjunturais, relacionais e flutuantes que implicam relações afetivas
de pertença e reconhecimento e relações imaginárias que nos remetem para os
lugares de referência.
A festa anual permite a memória vivida no
presente, através da qual indivíduos e grupos se conduzem nas suas interações
verbais e gestuais, transmitindo saberes e práticas e construindo sentimentos
de pertença a lugares habitados.
Ao relacionarmos a história narrada, as
tradições festejadas no ciclo anual dos Santos Populares, as imagens oficiais
anualmente projetadas com a memória coletiva e individual dos bairros,
observando as fotografias e vídeos produzidos juntamente com as entrevistas
efetuadas, foi possível observar a presença de práticas culturais que envolveram
e ainda envolvem as pessoas e onde afloram sentimentos de pertencente dos
indivíduos que ali residem.
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Nas citações, todos os textos em
língua estrangeira foram traduzidos para português.