20/11/23

HORIZONTES DE SENTIDO - A identidade espaço social no bairro da Graça

 HORIZONTES DE SENTIDO 

A identidade espaço social no bairro da Graça

Resumo

 O presente ensaio tem por base um trabalho etnográfico realizado no bairro da Graça em Lisboa e constitui o reflexo dos dois anos de observação participante.

 Com vista a preparar o terreno, a definir as áreas de atuação, bem como a selecionar as metodologias de trabalho e na definição dos informantes chave para a recolha dos conteúdos necessários à consolidação dos propósitos do projeto, a nossa atuação começou pelo acompanhamento da vida de uma coletividade, o Clube Desportivo da Graça, que tomou a seu cargo a organização e preparação da “marcha” do bairro.

 Se as marchas populares constituem uma forma de identificar um bairro através de um conjunto encenado de práticas, discursos e produção iconográfica que tomam expressão nas letras das canções, figurinos, decoração dos arcos e coreografia, faltava perceber a forma como os seus protagonistas, os marchantes, a coletividade e os locais se identificam com o bairro. Para além disso, importava também perceber as fronteiras do bairro, ou melhor a sua espacialidade identitária, não enquanto unidade geográfica administrativa, pois um bairro não tem essa dimensão (nem necessariamente coincide com uma freguesia), mas a malha de solidariedades e vivências que solidifica o sentimento de pertença a esse local.  

Palavras-chave: bairro, cultura, identidade.

O bairro, um “lugar antropológico”

 Tanto as cidades como os seus bairros têm percursos históricos próprios. As particularidades inerentes necessitam de ser identificadas, constituindo o relato da memória a forma mais natural de o fazer e procurando ao mesmo tempo, não só o fortalecimento da consciência histórica, mas também o sentimento de pertença ou de identidade.

  Esta relação de passado presente e a abordagem da cultura permite que a ação revitalizadora dos indivíduos, na sua comunidade, possa levá-los a conhecer-se a si e ao outro que é o diferente.

 Para compreendermos as identidades locais é importante atendermos aos referentes culturais que materializam e simbolizam os espaços e sentimentos de identificação locais.

  Neste estudo procuramos valorizar os processos intersubjetivos, construídos socialmente através de experiências e vivências quotidianas, em relação a um contexto sociocultural preexistente. A forma de criação de horizontes de sentido e a edificação de formas de interpretação da realidade permitem elaborar a forma de estruturação e reconhecimento de uma identidade que se sublinha e renova ano após ano, no ciclo festivo da cidade.

 Os esquemas de significação são reconstruídos e atualizados no quotidiano local, através dos vários processos de comunicação ai gerados. Ao longo desta investigação temos procurado a identificação dos diversos horizontes de sentido, tanto coletivos e individuais, que nos permitam conhecer os mecanismos constitutivos da identidade do bairro.

  Surge-nos então, o bairro, como o “lugar antropológico”, constituindo-se como a “construção concreta e simbólica do espaço que não poderia por si só dar conta das vicissitudes e das contradições da vida social, mas à qual se referem todos aqueles aos quais ela atribui uma colocação, por humilde ou modesta que seja.” (Augé, 2007: 46). Esse lugar é “simultaneamente princípio de sentido para os que o habitam e princípio de inteligibilidade para aquele que o observa” (Augè, 2007: 46) sendo a sua escala variável. Como nos diz Marc Augé “estes lugares têm de ter pelo menos três caracteres comuns. Querem-se (querem-nos) identitários, relacionais e históricos” (2007: 47).

  Desta forma, o bairro existe como “lugar” no verdadeiro sentido antropológico. Ele possui identidade própria, pois tem um nome, uma história, um conjunto de memórias e sociabilidades partilhadas (Cordeiro, 2001).

Olhares sobre o bairro

  Desde o início que nos preocupamos sobre a melhor forma de observar o bairro e em que perspectiva o devíamos abordar.

 Dividir uma cidade em bairros corresponde a uma forma de apropriação, teórica e pratica do espaço urbano, conferindo-lhes uma certa delimitação e uma suposta estabilidade dentro do perímetro citadino. Mas esta forma de divisão, espécie de princípio organizador e administrativo, baseia-se na distinção e na compartimentalização de classes sociais e no seu conjunto de hábitos, diferenças económicas, nas práticas e discursos individuais, mas que não deixam de possuir igualmente configurações funcionais e morfológicas comuns a toda uma estrutura urbana.

 Ao percorrer as ruas do bairro, observando a história e arquitetura urbana e em conversas com alguns moradores, percebemos que o seu percurso de urbanização corresponde a uma certa espacialização do decurso social da modernidade. Desta forma, registamos um conjunto sociocultural variado, consequência desse movimento continuo das cidades.

  O bairro surge-nos como um território demarcado e demarcável pelos seus conteúdos que são em simultâneo específicos e genéricos, sublinhando ao mesmo tempo a forma precisa e imprecisa do que é estar na cidade como uma parte dela. Assim, se pode abordar o bairro, espaço dentro de um outro tipo de territorialidade bem mais ampla, e como algo que só existe perante a cidade. No entanto, os bairros “são geograficamente difíceis de definir; os seus centros são muitas das vezes múltiplos e as suas fronteiras irregulares”[1] (Smith, 2001:4).

  Desta forma, a maneira mais adequada de entendermos o bairro, evitando limitarmo-nos apenas a uma absoluta fragmentação territorial, é considerar a cidade como a sua referência principal, pois ele só existe perante ela, mas sem deixar de ter em conta que ele é a resultante das contradições de um conjunto de práticas e discursos, que se distinguem através dos seus usos. Só assim, podemos olhar o bairro, como uma unidade diferenciada em relação á cidade.

  Esta nossa tentativa de tentar organizar a sistematização deste bairro, implica de facto compreendermos a parte que pertence ao todo e que contem, em possibilidade, esse todo. Portanto, para perceber o contexto do bairro, torna-se imprescindível saber e conseguir vê-lo, num olhar urbano, procurando e reconhecendo os percursos e as direções dos indivíduos, ao mesmo tempo que vamos estabelecendo e descobrindo as suas relações internas e externas.

Cultura e bairro

  Num momento em que cultura e identidade se confundem nos argumentos teóricos, sentimos necessidade de enquadrar a nossa investigação num conceito de cultura que nos permitisse reconhecer e enquadrar significados objetivos e subjetivos.

  Da mesma forma que Brumann, partimos do pressuposto de que “a cultura está ai, é aprendida, penetra em todos os dias da vida, é importante, e é de longe muito mais responsável pelas diferenças entre os grupos humanos que os genes” (1999; S6). Ou ainda, “a cultura é um conjunto específico de rotinas aprendidas (e/ou seus produtos materiais e imateriais) que são característicos de um delineado grupo de pessoas” (Brumann, 1999; S6).

  Mas, mais importante ainda, é compreender que a cultura não é um sistema estático que fossiliza no tempo, mas sim dinâmico que se adapta à realidade do quotidiano, pois “nem as sociedades nem as culturas devem ser vistas como dadas, integradas por alguma essência própria, fundamento organizacional, ou plano mestre. Ao contrário, os conjuntos culturais, e conjuntos dos conjuntos, estão constantemente em construção, desconstrução, e reconstrução, sob o impacto de múltiplos processos operativos sobre vastos campos de conexões sociais e culturais.” (Wolf, 2001, 313)

  A compreensão da cultura, como modelo da vida em sociedade, passa necessariamente pela compreensão da realidade, afinidade e comunicação com e entre o espaço físico e o social. Ou não será a cultura essa mediadora entre o universo físico (de matéria, espaço, tempo e energia) e o universo mental (subjetivo, racional e analítico), que ordena e organiza o homem no seu objetivo primordial da sobrevivência?

  Cada homem desenvolve num espaço e para ele um conjunto de relações que pelas suas características singulares se torna “aquele” e que o identifica em particular. Mas, “nem toda a cultura é relevante para identificar a formação e que a identidade cultural coletiva não necessita de ser étnica” (Brumann, 1999; S12).

  Entre o grupo de marchantes encontramos alguns que vinham de lugares fora da cidade (nomeadamente de localidades da margem sul do Tejo) para participar nos ensaios e sem qualquer tipo de ligação ao bairro. Sobressaia neles, não uma cultura de marcha de bairro, neste caso da Graça, mas apenas uma cultura militante de marchas e lisboeta. Isto significa que “participar em certa cultura particular não implica automaticamente ter certa identidade particular” (Cuche, 2004: 152). Esta situação remete-nos para o facto de que “as culturas podem não ter fronteiras “naturais” mas apenas aquelas que as pessoas (antropólogos bem como os outros) lhes dão, e delimitando um determinado conjunto de elementos como cultura pode  por conseguinte ser mais ou menos persuasivo, nunca uma “verdade” final.” (Brumann, 1999; S6).

O investigador e o bairro

  Após as primeiras incursões ao campo, percebemos rapidamente termos entrado numa parte desconhecida do nosso mapa, não necessariamente só a nível espacial, mas sobretudo a nível social. Desta forma, antes de percebermos o que era “ser da Graça” começamos por sentir o que não o era. Ou seja, fomos os primeiros a sentir que não pertencíamos ao local e que nos identificávamos com outro que não aquele.

  Mais algumas semanas decorreram e logo chegamos á conclusão de que não bastava passar por esse lugar ou mesmo frequentá-lo com alguma regularidade para “ser da Graça”. Era necessário estarmos integrados numa rede de relações que combinassem laços de parentesco, vizinhança, procedência e sobretudo vínculos definitivos. Para tal decidimos apostar com a nossa participação nas mais variadas atividades coletivas.

 A organização das festividades centrada no Clube Desportivo da Graça facilitou-nos e potenciou o desenvolvimento de relações e a inclusão como membro do grupo. Mesmo, perante alguns marchantes ou associados mais cépticos e desconfiados com a presença do investigador, a disponibilidade de colaboração, permitiu uma inclusão mais fácil. Aos poucos eles nos fizeram “ser da Graça”. O nosso apoio constante desde o primeiro ensaio, passando pela exibição da marcha no pavilhão Atlântico até à grande noite de Stº António com o desfile na Avenida e o arraial na coletividade, levou a que fossemos de certa forma a perfilhados por uma identidade que não é a nossa e envolvidos por um sentimento estranho de pertença a algo que não nos sentimos a pertencer, porque nos sentimos de outro lugar. Isso não significa que, apesar do nosso estatuto de investigador (observador neutro e isento) temporariamente não tivéssemos assumimos uma identidade como se a tivéssemos possuindo e vivendo-a ao nível das emoções e sentimentos.

  Desta forma, tornou-se importante compreender a realidade do grupo, as suas formas de comunicação e estabelecendo formas de afinidade para obter a sua compreensão e aceitação. Torna-se imprescindível decifrar o código que nos separa, ordena e classifica como não sendo desse lugar.

Espaço e identidade social

    Quem chega à principal artéria da freguesia da Graça, a rua do mesmo nome, mesmo sem conhecer o local, rapidamente percebe onde está, se estiver atento aos nomes dos vários estabelecimentos comerciais, que mencionam para além da sua designação o substantivo próprio, Graça. Isto é, encontramos um espaço bem identificado por um conjunto de indicadores que produzem para os locais e forasteiros sentimentos opostos. Para os primeiros o de identificação com o local, “somos da Graça” e para os segundos a informação de estarem  no espaço de outros, “estamos na Graça”. Logo percebemos que é a identificação dos locais, com aquele “lugar”, que lhes dá o sentimento de pertença e concretiza e fornece raízes à sua identidade. Ou seja, “o dispositivo espacial é ao mesmo tempo aquilo que exprime a identidade do grupo (as origens do grupo são com frequência diversas, mas é a identidade do lugar que a funda, o reúne e o une) [...] para que a linguagem da identidade conserve o seu sentido”  (Augé, 2007: 41).

  Nos percursos do quotidiano a cidade obriga á confrontação dos indivíduos no mesmo espaço onde ai operam os mecanismos da identificação de si mesmos e dos outros. E, essa diferença participa na produção dos sinais e dos espaços urbanos numa relação constante de vai e vêm entre identificação e território.

  Enquanto conceito, a identidade tem que ser analisada como produto de condições históricas precisas, já que a diferença não é dada, mas sim produzida a partir das práticas e políticas. Essas diferenças, além de se caracterizarem como legados históricos, são reproduzidas e sustentadas mediante processos políticos, sociais e económicos. Como nos diz Clifford, “a ideia de cultura [e identidade] transporta com ela um anseio pelas raízes, de uma estável, existência territorializada” (1988; 338). Da mesma forma, Marc Augé (2007) nos fala dos lugares antropológicos para retratar este espaço identitário, histórico, de encontro e referência afetiva, revestido de sentido.

  De qualquer forma, definirmos a identidade de um grupo não é apenas “inventariarmos o conjunto dos seus traços culturais distintivos, mas localizarmos entre esses traços aqueles que os membros do grupo utilizam para afirmarem e manterem uma distinção cultural” (Cuche, 2004: 140). Como nos diz Denys Cuche, “qualquer grupo é dotado de uma identidade que corresponde à sua definição social, definição que permite situá-lo no conjunto social. A identidade social [...] identifica o grupo e distingue-o dos outros grupos” (2004: 136).

  A identidade local resulta assim de um processo de construção social que combina diversos fatores, em que a coletividade, a rua e algumas redes familiares, fortemente territorializadas e coletivamente produzidas, centralizam e apropriam-se da entidade “o bairro popular”, projetando para o exterior essa interação quotidiana, de práticas de sociabilidades e memórias que definem a pertença a um espaço social (Cordeiro, 1997). São as sociabilidades de rua e vizinhança que “...contribuem para a construção social de certos bairros, que são percepcionados pelo exterior como unidades territoriais quase naturais, relativamente homogéneas e auto contidas, no nível das práticas e representações” (Cordeiro, 2001: 128).

Marchas populares e bairrismo

  Por altura da organização da marcha o bairro ganha um forte sentido de lugar pelo valor simbólico, o sentimento e os significados construídos. O estudo das marchas populares nos bairros da cidade põe em evidência a diversidade de práticas culturais e dá conta da capacidade de inovação e ação dos grupos sociais.

  As festas populares, a preparação e apoio á marcha do bairro, constituem “um acontecimento não quotidiano que se constrói sobre redes de interação social, intra e extra bairro, dando visibilidade a determinados processos sociais e culturais que contribuem, fortemente e de uma maneira extremamente explícita, para a criação de sociabilidades próprias que não só fazem o bairro no seu quotidiano, como produzem ainda ideias, imagens, mitos, e narrativas sobre ele e sobre a cidade.” (Cordeiro, 2001: 129)

  A cultura de bairro no seu aspecto simbólico define uma identidade social baseada no contraste visual com a dos outros, que através das marchas populares permite dar continuidade nessa produção cultural dos bairros. As marchas populares, apesar do incentivo por parte do poder político e das novas formas de produção do evento, permite a continuidade do uso dessa cultura tradicional, bairrista e urbana, por parte daqueles interessados em manter e renovar a sua herança. Assim, podemos dizer que a organização do concurso das marchas populares em que as diversas formas de expressão são “representações que os indivíduos formam da realidade social e das suas divisões” (Cuche, 2004: 139), propõe que as relações intergrupos sejam organizadas de modo a manter a diferença cultural.

  As várias formas de manifestações onde existem o contacto e o confronto entre grupos levam-nos ao conceito de “ bairrismo”. A identidade “é uma construção que se elabora num modo de relação que opõe um grupo aos outros grupos com os quais está em contacto”  (Cuche, 2004: 140) é utilizada por eles para organizarem as suas trocas. Ou seja, para que o bairrismo possa  ser evidente, “ os grupos tem que ter um mínimo de contacto com os outros, e eles devem ter em conta ideias de cada um como sendo culturalmente diferentes deles próprios” (Eriksen, 1993: 10).

  Contudo, é na elaboração e performance das marchas populares que sobressai o bairrismo popular.  Segundo Firmino da Costa, “as marchas populares têm-se constituído num espaço de competição inter bairrista de âmbito citadino, fortemente investido a nível de bairro (...) e resultam num poderoso mecanismo de produção de identidades (1991: 61).

  O bairrismo não é uma propriedade de um grupo, mas uma forma essencialmente de relação com outros grupos, ele é “um aspecto das relações sociais entre agentes que se consideram a eles próprios culturalmente diferentes dos membros dos outros grupos com os quais tem um mínimo de interação regular” (Eriksen, 1993: 12). Assim, “a identidade cultural aparece como uma modalidade de categorização da distinção nós/eles, assente na diferença cultural” (Cuche, 2004: 137).

  Nesta parada de despiques bairristas percebemos que nem todos os grupos têm o mesmo “poder de identificação”, isto porque  “o poder de identificação depende da posição ocupada no sistema de relações que liga os grupos uns aos outros” (Cuche, 2004: 142). Por isso, nem todos os bairros tem a mesma influência na classificação final do concurso das marchas, sendo os históricos e com grande interesse turístico, aqueles que estão habitualmente, entre os primeiros classificados!

  Contudo, esta  renovação anual do popular bairrista “é quase sempre uma tentativa melancólica de subtrair o popular à reorganização massiva, fixá-lo nas formas artesanais de produção e comunicação, custodia-lo como reserva imaginária” (Canclini, 1998: 213) da promoção do poder político local.

  No decurso da nossa investigação percebemos que a produção da ideia de “bairro”, no caso da Graça, é assumida e encarnada pelo Clube Desportivo da Graça, que apesar da sua influência não ser necessariamente extensiva a todo o bairro, não impede que ele o assuma simbolicamente, tanto numa visão interior como para as entidades exteriores a ele.

  Percorrendo o conjunto de elementos envolvidos na organização da festa, tanto da marcha como do arraial, encontramos um grupo restrito, inserido numa associação e que assenta em relações de parentesco e vizinhança. São “redes discretas de solidariedade e vizinhança que, de um modo organizado, se mobilizam para a produção de festas de rua ...” (Cordeiro, 2001: 138).

 Desta forma, a visibilidade exterior da Graça assenta na sua associação representativa, o CDG. As marchas populares tem assim o objetivo da promoção exterior do bairro, através das diversas formas de sublinhar o seu nome e as suas representações pelas imagens e sons que a cenografia, o figurinismo, as musicas e os cantares produzem nas diversas encenações.

As fronteiras sociais do bairro

  Torna-se importante tentar perceber os significados atribuídos a certos espaços de vivência, bem como as sociabilidades que desenvolvem formas de apego aos lugares urbanos. Na nossa pesquisa ao bairro da Graça, percebemos não só a maleabilidade dos seus contornos como a sua ambiguidade. Mas, será que as fronteiras sociais de bairro, se dispõem apenas num perímetro maleável em torno desse território?

  Facto marcante da nossa investigação constituiu a experiência do Pavilhão Atlântico, no decurso de três longas noites, onde os bairros fizeram desfilar as suas marchas perante as suas claques e o publico em geral. Procuramos perceber, ao misturarmo-nos com varias claques antes da atuação da respectiva marcha, experimentar o ambiente e descobrir se existiria alguma hostilidade. Esta observação permitiu-nos perceber que a rede de relações instauravam um código capaz de separar, identificar e classificar. Ou seja, uma forma de referência a um código que se podia dizer, quem era e quem não era do bairro, e em que grau, colega, vizinho, familiar, amigo, comerciante, etc. Este tipo de situação levou a que facilmente alguns elementos da claque nos identificassem como elementos estranhos ao bairro, proferindo por vezes alguns comentários hostis e desagradáveis.

  De uma forma geral, e ao longo das três noites, observamos um imenso despique, onde o conflito e a hostilidade, por vezes com cenas violentas, estiveram sempre presentes. Assim, percebemos que a fronteira social, simbólica, “resulta de um compromisso entre a que o grupo visa dar-se e a que os outros querem atribuir-lhe” (Cuche, 2004: 152) . Pois ,“o que cria a separação, a fronteira, é a vontade de diferenciação e a utilização de certos traços culturais como marcadores da sua identidade específica” (Cuche, 2004: 152).

  As identidades de grupo “devem sempre ser definidas em relação ao que não são – por outras palavras, em relação aos membros que não são do grupo.” (Eriksen, 1993: 10)

As relações de sociabilidade e de apego ao lugar fazem com que as fronteiras dos bairros não sejam nítidas mas “antes ambíguas, plásticas, contextuais” (Cordeiro, 2001: 139).

  Mas, também percebemos que existem demarcações sociais face a terceiros e entidades coletivas de referência e pertença (Cordeiro, 2001). Essas demarcações nunca são definitivas mas antes mutáveis e circunstanciais. E, como nos diz Graça Cordeiro, “os bairros podem, pois, ser considerados parte de uma cidade, lugares urbanos de tamanho e configuração variáveis, ou seja, unidades socioespaciais problemáticas em si próprias”. (Cordeiro, 2001: 139)

Conclusão

  A proximidade entre festa popular e identidades locais, permitiram a nossa introdução no campo de investigação, ao nível do bairro da Graça em Lisboa, mas ao mesmo tempo a nossa entrada na Antropologia Urbana.

  Hoje em dia, a aventura antropológica de narrar as culturas humanas já não se resume apenas aos iniciais lugares de contemplação do exótico e do pitoresco, a milhares de quilómetros do lugar da grande permanência do antropólogo, indo ao encontro dos grupos tradicionais, das sociedades indígenas e das minorias étnicas.

  O desafio do antropólogo urbano está na forma como encara o seu objeto de estudo. Assim, aquele que estuda uma cultura distante, que não é a sua, procura transformar o “exótico”, o desconhecido em conhecido. Mas, o que trabalha em contextos urbanos numa cultura que é a sua, transforma o que é (supostamente) conhecido em desconhecido e estranho, evitando cair na armadilha do acordo de grupo, para voltar a conhece-lo.

  Outro facto a ter em conta é o de evitar a tentação de considerar o objeto de pesquisa escolhido, o bairro, como uma "aldeia", nos mesmos moldes de algumas das sociedades tradicionalmente estudadas pelos antropólogos. Seja qual for a área escolhida para estudo, é preciso ter em conta a rede de relações que o local mantém com a sociedade envolvente. No nosso caso, a dinâmica de um bairro não se esgota no seu perímetro.

  Em termos de metodologia, a nossa aventura continuará por manter as características da pesquisa etnográfica através de contacto prolongado, observação participante e procura de uma relação direta com os informantes, tendo sempre presente o quadro mais amplo no qual os fenómenos culturais se desenvolvem, nas sociedades modernas.

   No decurso desta primeira incursão começamos por comunicar e compreender as suas formas de o fazer, entendendo o lugar, as suas relações de dentro para fora e vice-versa. 

  Ao fim destes anos percebemos que a identidade do bairro é antes de tudo instável e imprecisa na sua definição de conteúdo e limites. Este bairro, como qualquer entidade é um processo em andamento e tem uma geografia social que é maleável.

  Assim, a identidade do bairro é um processo de gestão marcado por fatores conjunturais, relacionais e flutuantes que implicam relações afetivas de pertença e reconhecimento e relações imaginárias que nos remetem para os lugares de referência.

  A festa anual permite a memória vivida no presente, através da qual indivíduos e grupos se conduzem nas suas interações verbais e gestuais, transmitindo saberes e práticas e construindo sentimentos de pertença a lugares habitados.

  Ao relacionarmos a história narrada, as tradições festejadas no ciclo anual dos Santos Populares, as imagens oficiais anualmente projetadas com a memória coletiva e individual dos bairros, observando as fotografias e vídeos produzidos juntamente com as entrevistas efetuadas, foi possível observar a presença de práticas culturais que envolveram e ainda envolvem as pessoas e onde afloram sentimentos de pertencente dos indivíduos que ali residem.

 Bibliografia

·       AUGÉ, Marc, 2007, Não lugares, Introdução a uma Antropologia da Sobremodernidade,  Editora 90º.

·       BRUMANN, Christoph, 1999, “Writing for culture”, Current Anthropology 40 Supplement February, 1-13.

·       CANCLINI, Nestor Garcia, 1998 (1989), Culturas Híbridas. Estratégias para Entrar e Sair da Modernidade, São Paulo, EDUSP.

·       CLIFFORD, James, 1988, “Identity in Mashpee”, The Predicament of Culture, Twentieth-Century Ethnography, Literature and Art, Cambridge MA, Harvard University Press, 277-346.

·       CORDEIRO, Graça Índias, 1997, Um lugar na cidade. Quotidiano, memória e representação no bairro da Bica. 37 vols., Dom Quixote, Colecção Portugal de Perto.

·       CORDEIRO, Graça, 2001, “Territórios e identidades sobre escalas de organização sócio-espacial num bairro de Lisboa” in Estudos Históricos, Rio de Janeiro, nº 28, p. 125-142.

·       COSTA, António Firmino, 1991, “O ritual das marchas populares nas festas de Lisboa” em Festas de Lisboa, Lisboa, Horizonte, 56-65.

·       CUCHE, Denys, 2004, A noção de Cultura nas Ciências Sociais, Margens, Fim de Século.

·       ERIKSEN, Thomas, 1993, Ethnicity and Nationalism. Anthropological Perspectives, London-Boulder CO, Pluto Press.

·       SMITH, Anthony D., National Identity, Hardsmonwoth, Penguin Books.

·       WOLF, Eric, 2001 (1984), “Culture: Panacea or Problem?”, Pathways of Power. Building Anthropology of the Modern World, Berkeley, University of California Press: 307-31


[1] Nas citações, todos os textos em língua estrangeira foram traduzidos para português.

 

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