08/08/24

Recensão crítica - "The Tourist Gaze" (3rd Edition), de John Urry, com Jonas Larsen (2002/2011)

 Recensão crítica de

The Tourist Gaze (3rd Edition), de John Urry, com Jonas Larsen (2002/2011)


Referência completa

URRY, John; LARSEN, Jonas. The Tourist Gaze 3.0. London: SAGE Publications, 2011. (1ª edição: 1990)

Introdução

The Tourist Gaze é uma obra seminal na sociologia do turismo. Publicada inicialmente por John Urry em 1990, teve grande impacto nos estudos culturais e turísticos. A 3ª edição, revista e ampliada por Jonas Larsen, incorpora novas perspectivas, como a mobilidade, a visualidade digital e os efeitos das redes globais. A ideia central é simples, mas poderosa: o turismo é guiado por um “olhar” específico, o “gaze”, moldado por expectativas culturais, normas sociais e estruturas de poder.

O conceito de “tourist gaze”

O conceito de “tourist gaze”, ou “olhar turístico”, é a pedra angular da obra de John Urry e uma das contribuições mais influentes para os estudos do turismo contemporâneo. Inspirando-se nas ideias de Michel Foucault, Pierre Bourdieu e outros teóricos sociais, Urry propõe que o ato de “ver” enquanto turista não é neutro nem universal. Pelo contrário, ele é construído socialmente, moldado por normas culturais, estruturas de poder, discursos mediáticos e instituições como o Estado, o mercado e a indústria do turismo. Assim, o olhar turístico é, antes de mais, um filtro que seleciona, organiza e interpreta o que deve ser visto, como deve ser visto e com que valor simbólico.

De acordo com Urry, os turistas viajam para experimentar diferenciação, ou seja, aquilo que é diferente do quotidiano. Esta diferença é, no entanto, antecipada e mediada por imagens, brochuras, filmes, fotografias e agora, redes sociais. O que se procura são objetos e paisagens previamente marcadas como “visíveis” e “autênticas”. Este olhar é, portanto, direcionado e codificado. O turista não vê tudo, ele olha segundo expectativas previamente moldadas pelo que é socialmente valorizado como digno de visita.

A noção de “gaze” introduz uma dinâmica de poder, quem define o que deve ser visto? Que instituições constroem esse olhar? Como as populações locais são representadas ou encenadas para esse olhar externo? Urry mostra que o turismo reproduz e reforça hierarquias culturais e económicas, sendo muitas vezes herdeiro de imaginários coloniais e eurocêntricos. Os Lugares são “descobertos” apenas quando passam a integrar os roteiros da visualidade dominante, mesmo que ali sempre tenham existido comunidades com experiências significativas.

O conceito também permite distinguir entre diferentes formas de olhar. Por exemplo, o “gaze romântico” privilegia a solidão, a natureza e a contemplação (como no turismo rural ou de natureza), enquanto o “gaze coletivo” valoriza a experiência partilhada (como o turismo de massas em praias ou festivais). Urry destaca ainda o papel da encenação, muitos destinos adaptam-se às expectativas dos turistas, encenando tradições ou exotismos para corresponder ao que se espera ver. O que é autêntico, assim, torna-se performativo.

Com a evolução das tecnologias, o olhar turístico tornou-se ainda mais complexo. O que era antes filtrado por brochuras, hoje é moldado por redes sociais e plataformas digitais. Isso amplifica tanto a velocidade de circulação das imagens quanto a pressão para que tudo seja visualmente “instagramável”. O olhar turístico já não se limita ao momento da viagem, ele começa muito antes (na pesquisa de destinos) e prolonga-se depois (na partilha de experiências online).

Ao propor o conceito de “tourist gaze”, Urry não só mudou a forma como se estuda o turismo, mas também abriu espaço para críticas mais profundas sobre o papel do olhar na construção do mundo social. A terceira edição da obra, com a colaboração de Jonas Larsen, reforça e amplia essa ideia, inserindo-a num contexto de mobilidade global, media digital e consumo visual intensificado.

Transformações no turismo

Na terceira edição de The Tourist Gaze, John Urry e Jonas Larsen dedicam especial atenção às transformações profundas que o turismo tem sofrido nas últimas décadas, especialmente à luz das mudanças tecnológicas, culturais e económicas provocadas pela globalização. A análise foca-se em como o olhar turístico é constantemente reconfigurado por estas dinâmicas e como o turismo moderno é cada vez mais mediado por dispositivos digitais, redes globais e práticas de consumo aceleradas.

Uma das principais mudanças analisadas é a crescente mediatização da experiência turística. Com o advento da internet e, posteriormente, das redes sociais, a maneira como se planeia, vive e recorda uma viagem passou a depender fortemente de imagens e narrativas produzidas e partilhadas online. Plataformas como Instagram, YouTube ou TripAdvisor criaram novas formas de representação dos lugares turísticos, ao mesmo tempo que padronizam as expectativas do que deve ser visto, experimentado e fotografado. Surge assim o que Urry e Larsen chamam de “turismo visual intensificado”, onde o “gaze” é não só guiado pelas imagens alheias, mas também pela necessidade de produzir imagens próprias para partilhar.

Outro aspeto central das transformações contemporâneas é o papel das mobilidades globais. O turismo já não é um fenómeno isolado, mas parte de um conjunto de fluxos de pessoas, bens, capitais, informações e imagens que circulam a alta velocidade. A experiência turística insere-se numa lógica de mobilidade contínua que transcende fronteiras geográficas e culturais. O turista atual é simultaneamente consumidor e produtor de mobilidade, integrado num sistema global de transportes, comunicações e economias culturais.

Estas transformações também implicam uma reconfiguração do tempo e do espaço. O turismo tornou-se mais fragmentado, com viagens curtas, escapadelas de fim de semana, experiências personalizadas e a procura constante por novidade. O espaço turístico já não é apenas físico, mas também simbólico e digital. Por exemplo, uma “visita virtual” pode antecipar ou até substituir uma experiência presencial, criando novas formas de presença e de consumo simbólico do lugar.

Urry e Larsen apontam ainda para a commodificação da autenticidade, numa era de consumo simbólico e digital, as experiências “autênticas” são embaladas, vendidas e promovidas como bens de mercado. O turista é cada vez mais um colecionador de experiências, movido pela promessa de viver algo único e pessoal, mesmo que essa “autenticidade” seja produzida em série para responder a uma procura massiva.

O livro também reflete sobre os efeitos ambientais e éticos do turismo global. O aumento das mobilidades massivas coloca pressões crescentes sobre recursos naturais, infraestruturas locais e identidades culturais. A reflexão crítica proposta por Urry e Larsen convida o leitor a interrogar as consequências da lógica do olhar turístico para as comunidades anfitriãs, para o ambiente e para a sustentabilidade das práticas turísticas no século XXI.

A terceira edição de The Tourist Gaze não só atualiza a teoria original de Urry, como expande o seu alcance analítico para as novas condições de produção, mediação e vivência do turismo globalizado e digitalizado. Trata-se de uma abordagem indispensável para compreender o turismo como fenómeno complexo, atravessado por mutações tecnológicas, culturais e sociais em constante aceleração.

Turismo e mobilidades

Uma das contribuições mais significativas da terceira edição de The Tourist Gaze é a integração do turismo na teoria das “novas mobilidades”, uma linha de investigação que ganhou destaque nos estudos sociais e culturais a partir dos anos 2000. Jonas Larsen, coautor desta edição, é uma das figuras de referência nesse campo, e a sua presença na obra permite uma re conceitualização do turismo não apenas como prática de lazer ou consumo visual, mas como parte integrante das múltiplas mobilidades que atravessam a vida contemporânea.

O turismo, neste contexto, é analisado como um modo específico de mobilidade entre muitos: viajamos para trabalhar, estudar, migrar, explorar, cuidar ou escapar. Ao lado destas outras formas, o turismo destaca-se por ser uma mobilidade “voluntária” e muitas vezes “privilegiada”, associada à liberdade, prazer e distinção social. No entanto, os autores destacam que esta mobilidade não é universal, ela depende de recursos económicos, cidadania, redes de transporte e capital cultural. Assim, o turismo está profundamente enraizado em desigualdades estruturais, revelando quem pode e quem não pode mover-se.

A perspectiva das mobilidades permite, ainda, repensar a experiência turística como algo mais do que a chegada ao destino. O próprio processo da viagem, o deslocamento, os meios de transporte, os aeroportos, as estradas, os momentos de espera, passa a ser parte integrante da experiência turística. A viagem já não é apenas um meio para atingir o “local autêntico”, mas um espaço de experiência em si, sujeito a narrativas, sentimentos e expectativas.

Outra dimensão importante abordada por Urry e Larsen é a mobilidade das imagens, sons, objetos e ideias. A experiência turística é fortemente mediada por imagens que circulam à escala global. Fotografias de paisagens exóticas, relatos em blogs, avaliações de hotéis ou vídeos de influenciadores constroem um imaginário coletivo que orienta os desejos e comportamentos dos turistas. Assim, as mobilidades não são apenas físicas, mas também simbólicas e digitais, contribuindo para a formação de uma “imaginação turística” transnacional.

A abordagem das mobilidades também abre espaço para refletir sobre os efeitos colaterais do turismo: congestionamento urbano, gentrificação de centros históricos, aumento do custo de vida local, degradação ambiental, ou mesmo tensões culturais entre visitantes e comunidades locais. Urry e Larsen alertam que o aumento das mobilidades pode ter consequências negativas se não for enquadrado em políticas públicas de ordenamento e sustentabilidade.

Além disso, o livro discute a ideia de mobilidades “encenadas”, ou seja, deslocações planeadas, coreografadas e promovidas por agências de turismo, estados e empresas. Os itinerários turísticos, os percursos temáticos e os pacotes de experiências são formas de organizar e dirigir o movimento dos turistas, o que reforça a ideia de que a mobilidade turística é profundamente estruturada por interesses comerciais, políticos e culturais.

A terceira edição de The Tourist Gaze convida à compreensão do turismo como parte de um sistema mais amplo de mobilidades contemporâneas. Ao integrar esta perspectiva, Urry e Larsen expandem o alcance teórico da obra, permitindo uma análise mais densa e crítica das formas de deslocamento, consumo, encenação e poder que moldam o mundo do turismo atual. Esta é uma das inovações mais marcantes da nova edição e um dos seus pontos de maior relevância académica.

Gaze múltiplo e encenação

Um dos avanços teóricos mais interessantes da terceira edição de The Tourist Gaze está na exploração aprofundada da ideia de que o olhar turístico não é monolítico, mas múltiplo, mutável e culturalmente situado. John Urry, em colaboração com Jonas Larsen, mostra que o “gaze” turístico se fragmentou e diversificou nas últimas décadas, tornando-se cada vez mais complexo e negociado. Esta multiplicidade é acompanhada pela prática da “encenação”, um conceito que remete para a forma como destinos e culturas são representados, ou mesmo fabricados, para responder às expectativas dos turistas.

Inicialmente, Urry havia distinguido entre o “gaze romântico” e o “gaze coletivo”. O primeiro refere-se ao olhar individualizado e contemplativo, geralmente ligado à natureza, à autenticidade e à fuga da modernidade, por exemplo, turistas que procuram paisagens remotas, vilas pitorescas ou espiritualidade. Já o gaze coletivo caracteriza-se por uma experiência partilhada e socializada, como as férias em família em resorts, parques temáticos ou destinos de massas. Esta distinção foi inovadora, ao demonstrar que o turismo não é motivado apenas por um tipo de desejo, mas por diversas formas de relação com o mundo e com os outros.

Na terceira edição, os autores ampliam este quadro, incorporando formas mais recentes de olhar, como o “gaze digital”, o “gaze performativo” ou o “gaze experiencial”. O gaze digital refere-se à mediação crescente da experiência turística por meio de dispositivos tecnológicos: smartphones, GPS, redes sociais e plataformas de avaliação como o TripAdvisor. Aqui, o olhar turístico está constantemente a ser negociado entre o ver e o mostrar, o turista olha já com o objetivo de fotografar, filmar ou partilhar.

O “gaze performativo” destaca o modo como o próprio turista participa numa encenação identitária, seja ao vestir-se “como um local”, experimentar gastronomia “autêntica”, participar em rituais culturais ou ao adotar certos comportamentos típicos do lugar visitado. Neste processo, a linha entre o verdadeiro e o encenado torna-se difusa. O destino também participa ativamente nesta construção: para satisfazer o olhar do visitante, muitas comunidades locais encenam tradições, festividades ou modos de vida que respondem às expectativas do turista, mesmo que essas práticas tenham sido transformadas ou reinventadas.

Este conceito de encenação (staging) é central para compreender a relação entre autenticidade e representação no turismo. Urry e Larsen baseiam-se em Dean MacCannell, que já havia introduzido a ideia de que os turistas procuram “autenticidade” mas raramente a encontram, pois muitas experiências são cuidadosamente preparadas para parecerem autênticas, o chamado “front stage” das culturas locais. A encenação, portanto, não é necessariamente falsa ou negativa; ela é parte da interação entre o visitante e o visitado, e pode também ser uma forma das comunidades controlarem a sua representação e gerirem os impactos do turismo.

Ao destacar que o gaze é plural e dinâmico, Urry e Larsen oferecem uma ferramenta analítica poderosa para lidar com o turismo contemporâneo. Os diferentes olhares não apenas coexistem, mas competem e se interpenetram. Um mesmo destino pode ser consumido de forma radicalmente diferente por distintos grupos de turistas, uns procuram descanso, outros aventura, outros espiritualidade ou reconhecimento social. Assim, a paisagem turística torna-se um espaço polissémico, onde múltiplos significados estão em jogo.

Esta abordagem permite compreender melhor fenómenos como o turismo de experiências, o turismo negro, o turismo LGBTQ+, ou o turismo de luxo, cada um mobilizando diferentes formas de olhar e de encenar. Ao mesmo tempo, convida a refletir sobre a responsabilidade ética dos turistas e da indústria do turismo na forma como representações culturais são criadas, consumidas e reproduzidas.

Conclusão 

The Tourist Gaze (3rd Edition), de John Urry com Jonas Larsen, é uma obra de referência incontornável no campo dos estudos de turismo, e uma das mais marcantes contribuições teóricas para a compreensão crítica da prática turística como fenómeno social, cultural, simbólico e político. Desde a sua publicação original em 1990, o livro influenciou profundamente o modo como investigadores, estudantes e profissionais pensam o turismo, não como mero ato de lazer ou deslocação física, mas como um processo construído, mediado e estruturado por olhares, discursos e sistemas de poder.

O conceito central de “gaze” introduz uma abordagem inovadora e duradoura. Urry propõe que o turista olha o mundo através de filtros culturais, sociais e históricos, o que vê é o que foi previamente codificado como “digno de ser visto”. Esta proposta teórica simples mas poderosa permitiu o surgimento de novas perguntas nos estudos do turismo: quem olha? Quem é olhado? Quem define o que deve ser visto? Como é encenada a autenticidade? Estas perguntas mantêm-se extremamente atuais, sobretudo num contexto global onde o turismo é uma das indústrias mais poderosas e ao mesmo tempo mais controversas.

A terceira edição do livro, enriquecida pela colaboração de Jonas Larsen, introduz uma necessária atualização crítica. A incorporação das teorias das mobilidades e das novas tecnologias digitais revela uma abertura ao presente e às mutações aceleradas da cultura contemporânea. O turista já não é apenas um consumidor visual de paisagens exóticas, é também produtor de imagens, participante em redes sociais, agente de mobilidade e consumidor de experiências imersivas e personalizadas. O “tourist gaze” torna-se mais complexo, interativo e performativo.

Entre os principais méritos da obra destacam-se a inovação teórica, a interdisciplinaridade e a notável capacidade explicativa do conceito central, que pode ser aplicado a uma grande diversidade de práticas turísticas, do turismo urbano ao rural, do religioso ao digital, do experiencial ao de massas. A teoria proposta é suficientemente aberta para ser reinterpretada, criticada e aplicada em diferentes contextos.

No entanto, a obra também apresenta fragilidades importantes. A sua perspetiva ocidentalizada reduz a diversidade dos olhares e práticas turísticas não ocidentais, reproduzindo, em certa medida, uma visão eurocêntrica da experiência turística. A falta de atenção às dinâmicas locais e às vozes dos anfitriões ou trabalhadores do turismo limita a análise das relações de poder e resistência que o turismo frequentemente provoca. Finalmente, o estilo exigente e teórico do texto dificulta o seu uso pedagógico ou a sua difusão entre públicos não académicos.

Ainda assim, The Tourist Gaze continua a ser uma obra essencial. A sua força não está apenas no que diz, mas na forma como ensina a ver o turismo com outros olhos, mais críticos, mais conscientes, mais sensíveis às suas implicações culturais, políticas e éticas. Para quem deseja pensar o turismo como mais do que uma simples prática de lazer, este livro continua a ser uma bússola teórica e crítica indispensável.

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