Behind Many Masks: Ethnography and Impression Management
1. Introdução:
· Tema principal do texto;
Behind Many Masks, prólogo
retirado de Hindus of Himalaya: Ethnography and Change e entendido como
um clássico, é um estudo etnográfico de uma vila montanhosa, Sirkanda, do baixo
Himalaia, no Norte da Índia onde vivem os Paharis (camponeses Hindus). Este
estudo começou a ser efetuado em 1957-58 e a primeira publicação em 1959.
O seu autor, Gerald Berreman nesse
seu prólogo, oferece-nos o relato das condições da investigação sob o qual ele
trabalhou, dando uma imagem das bases das suas descrições e análises
etnográficas.
Berremam é antropólogo na área social, dedicou-se entre outros temas e durante 40 anos ao estudo das desigualdades sociais (casta, género, classe) e meio ambiente no contexto histórico da referida aldeia de Sirkanda e a sua região.
· Principal tese ou teses defendidas pelo autor;
Este
prólogo, como Berreman nos indica, não é uma exposição dos métodos de
investigação ou trabalho de campo no seu sentido usual, mas uma descrição de
alguns aspectos dessa investigação analisada noutro ponto de vista. Ou seja, é
a tentativa de apresentar alguns aspectos da experiência humana que o trabalho
de campo constitui, bem como algumas implicações dessa experiência para a
etnografia como esforço científico.
O autor investiga as culturas e dinâmicas entre os subgrupos que coletivamente formam a população referida como os Pahari. Este grupo é comparado com outras populações numa área regional mais vasta, mas mais especificamente, os seus subgrupos são comparados entre si. Comparando as semelhanças e diferenças Berremam revela e localiza a variedade cultural.
· Três palavras-chave
Experiência (revela); Investigação (pela sua importância) ; Informação (como a obter e lidar com ela?)
2. Apresentação
mais desenvolvida do texto:
· Estrutura interna;
Behind Many Masks apresenta-nos uma investigação num grupo/sociedade muita fechada e altamente estratificada. Este trabalho serve como estudo de caso para analisar alguns dos problemas e consequências da interação do etnógrafo com os indivíduos. Ou seja, a compreensão do assunto deriva da interligação de observações, que incluem o que as pessoas dizem ou fazem quando estão a ser observadas e o que elas fazem ou dizem quando o não são.
Berreman
cuidou em:
Antes da entrada no campo o antropólogo deve procurar recolher o máximo de informações sobre o grupo que vai estudar (publicações, fotografias, filmes, procurar falar com pessoas que já lá estiveram, etc.). Berreman, como nos explica, na escolha do seu objeto de estudo teve em conta algumas dessas preocupações. Ou seja, ao escolher Sirkanda ele já tinha algumas informações sobre o local e o grupo.
O
que encontrou ?
A
sociedade local estava rigidamente estratificada no sistema de castas,
compreendendo duas grandes divisões: as altas e baixas castas.
As
primeiras eram compostas pelos Rajputs (amplamente maioritários) e os Brahamis.
Eles representavam os senhores, proprietários da maioria das terras (agrícolas)
e do gado. Tinham o domínio económico e politico.
As
baixas castas dependiam das anteriores para sobreviver, pois estavam em todos
os sentidos sujeitas aos seus desejos. Era uma relação de respeito e
obediência.
Apesar das altas castas terem (supostamente) uma atitude paternalista sobre as baixas castas, na pratica existia uma grande tensão nesse relacionamento.
A entrada em Sirkanda não foi fácil. A aceitação para estabelecer residência num local como este apenas se conseguia provando laços de sangue a um dos grupos locais, ligações a uma casta e/ou adquirindo o estatuto de morador comunitário.
Os primeiros três meses foram passados na aldeia em ações de fascina doméstica e em tentativas para estabelecer comunicação com os locais. Berreman quando entrou inicialmente na aldeia já vinha acompanhado por um informante/assistente Brahamin, atribuindo-lhe o nome de Sharma (originário de uma aldeia na planície) que com ele vinha participar no trabalho de campo.
Perante
a chegada desta equipa parcialmente estranha os receosos aldeões pensaram que
Berreman era:
·
Missionário;
·
Agente Governamental para avaliação e aplicar de taxas
de imposto.
·
Investigador para controlar o uso ou apropriação
indevido de terras não autorizadas.
· Militar (à paisana) para efetuar um recenseamento dos jovens da aldeia aptos para o serviço militar.
Ou seja,
Berreman encontra um grupo que tinham ocultações, motivadas por atos hostis e
que estavam a ponto de ser descobertas. E, qualquer individuo com ocultações a
ponto de ser descoberto perante um auditor toma-se particularmente hostil.
Berreman teve primeiro que perceber quem eram os indesejáveis na aldeia e procurar não se parecer com eles e provar que as suas ações e atitudes nada tinham a ver com esses estereótipos.
Levou quatro meses para dissipar nos aldeões a ideia de vilão.
Por fim, numa conversa publica com um sacerdote Brahamin e interrompida pela provocação de um Rajputs (respeitado aldeão) como forma de desafio, conseguiu com as suas explicações apelar ao orgulho dos locais, pedindo confiança e cooperação numa tarefa que sabiam difícil mas que ele considerava importante. A partir deste incidente viu abrirem-se as portas á sua investigação. Claro que continuou sempre a ser vistos como um estranho e a sua presença não foi totalmente aceite pelos locais. Porém, passou a ser tolerado. Passou a ser considerado como um residente de Sirkanda livrando-se assim, de que alguém tentasse escorraça-lo.
Outras formas
que reduziram o impacto foram (não sendo determinantes):
·
Visita das esposas e filhos de Berreman e de Sharma (o
assistente Brahmin) á aldeia. Isto, porque homens não acasalados no sistema
moral Pahari são uma ameaça às mulheres da aldeia;
·
Fornecimento de medicamentos;
· A utilização de um rádio a baterias, o primeiro a operar na zona, e que atraia audiências proporcionando uma fonte inesgotável de diversão. Esta atracção local promovia ainda o encontro entre amigos e familiares de outras aldeias vizinhas que ai se deslocavam para usufruir desse divertimento.
Resolvidas as suspeitas aos motivos de Berreman e Sharma, isso não significou que pudessem aprender o que queriam sobre a aldeia. Apenas significou que os aldeões estavam disponíveis a deixá-los aprender. Ou seja, as impressões que eles queriam que o etnógrafo registasse.
Inicialmente
os locais diziam coisas que supostamente criavam uma impressão favorável ao
Brahmin. Os informantes eram maioritariamente indivíduos das altas castas,
tentando impressiona-los na sua conformidade com as crenças e os comportamentos
estandartes das altas castas da planície. As castas baixas eram reticentes
perante a equipa de investigação, pois o Brahmin estava de perto identificado
com as altas castas da aldeia.
Enfim, três meses se passaram para estabelecer dialogo. Até essa altura o tempo continuou a ser ocupado com a fascina. Porém, a atividade de trazer água e lenha para casa permitiu conhecer pessoas nas suas atividades próprias. A maioria das conversas tinham a ver com o tempo/clima.
A importância
dos informantes/assistentes
Por motivos
de saúde Sharma ficou ausente da investigação durante alguns meses e Berreman
teve que contratar um novo assistente. Atribuindo-lhe o nome de Mohammed, este
era muçulmano, professor reformado, de meia-idade e sem experiência em
investigação antropológica. A sua idade conferia-lhe uma certa dose de
respeito.
Se Sharma
permitia a ligação com as altas castas (e não tanto com as baixas), Mohammed
como muçulmano conseguia estabelecer uma excelente comunicação com as castas
baixas (mas não com as altas castas).
Por outro lado Mohammed estava interessado em observar a cultura sobre o
qual estava a trabalhar e Sharma procurava evitar dar uma visão lisonjeira do
Hinduísmo e da vida da povoação a um americano, desse exemplo pouco ortodoxo da
uma aldeia Hindu. Ou seja, o Brahmin tinha um estatuto a defender e o muçulmano
não tinha quaisquer obrigações.
A comunicação de Mohammed com as baixas castas provou ser de grande importância. Isto, pelo factos dessas castas se terem tornado mais informativas do que as altas castas, em todos os aspectos .
A performance
Temos vindo a
perceber que o etnógrafo habitualmente chega perante a sua população de estudo
como um desconhecido, um não esperado, e muitas vezes um indesejado intruso.
Então a impressão que o grupo vai ter dele será determinante para o tipo de
informação a obter e sua validade. Ou seja, que tipo de informação o grupo lhe
dará acesso ? O sucesso duma investigação está dependente do sistema que
envolve a interação social do etnógrafo com a população em estudo. O etnógrafo
e o grupo são simultaneamente audiência. Nesse curto espaço de tempo de
contacto, julgam-se mutuamente e decidem que definições deles e do local querem
ver projetadas no outro.
Desta forma,
cria-se um jogo entre os atores que procuram defender e colocar os bastidores
fora do acesso e da percepção da audiência, e o etnógrafo que procura penetrar
nessa região e perceber a natureza dos atores e das suas exibições.
O etnógrafo é
suposto aceder á informação dos bastidores, enquanto que o grupo é suposto
proteger os seus segredos dado que eles representam uma ameaça à imagem publica
que desejam manter.
Como nos diz Berreman, “o etnógrafo é suposto avaliar o seu grupo na quantidade de informação que os bastidores lhe revelam, enquanto ele é avaliado pelo grupo. Deve cuidar em não se introduzir desnecessariamente nos bastidores e ao mesmo tempo que a comunicação melhora, dar a confiança de quem não revelará esse segredos.
A observação participante como forma de integração social, que envolve a gestão da recolha de impressões, poderá com o tempo e em função do nível de aceitação perante o grupo levar o investigador a observar partes dos bastidores dos seus actores informantes. Se o etnógrafo não o conseguir, limitar-se-á a constituir uma visão oficial, derivada das fontes oficialmente aprovadas. Ou seja, uma investigação algo limitada.
A grande questão desta população em estudo estava no facto de que a sua ampla estratificação criava um série de grupos de actores (cada um com a sua atuação), vários palcos e vários bastidores.
Os diversos
grupos de atores eram :
·
O etnógrafo;
·
O assistente Brahmin;
·
Os aldeões;
·
O assistente muçulmano;
·
As baixas castas;
· As altas castas;
Em Sirkanda
as baixas castas eram constituídas por indivíduos que estavam em condições de
conhecer os segredos das altas castas. Isto devia-se ao facto de todos estarem
em permanente contacto. Ou seja, não havia separação física, mental, social ou
ritual. As altas castas tinham pouca privacidade. Por seu lado as baixas castas
não se sentiam na obrigação de proteger os segredos da aldeia porque o seu
prestigio e posição não estavam ameaçadas. A proximidade às baixas castas
rapidamente foi considerada uma ameaça. As altas castas aperceberam-se que
Berreman tinha entendido que a cultura da aldeia era essencialmente a mesma e
que a actuação das baixas castas os colocavam em perigo de exposição.
Além disso, as altas castas não queriam que o etnógrafo estivesse presente na performance de alguns rituais.
Informação,
segredos e confiança
A equipa de
investigação ao apresentar-se como interessada, não critica, circunspecta, e
meticulosa a respeito de manter a confiança, ganhou os aldeões.
Com a continuação a equipa foi-se apropriando dos grandes segredos. Muitos deles eram revelados pela aparente casualidade do seu interesse e pelo facto dos aldeões se acostumarem a presença da equipa. Ou seja, já não era uma situação tão critica como tinha sido no inicio. Uma exibição para o etnógrafo deixou de criara alguma tensão. Esta foi sendo substituída por convivência e pela intensificação da interação entre os participantes.
Quanto aos segredos eles variavam entre mexericos, transgressões e indiscrições no passado de algumas familiares ou indivíduos, até ao facto de todas as castas comerem ocasionalmente carne de animais (tais como veado e cabrito mortos na floresta).
Contudo, alguns segredos continuaram por ser revelados. Isto porque a aldeia manteve-se como uma equipa unida na sua preservação. Essas crenças ou praticas eram de tal forma comprometedoras (para todos, especialmente para algumas altas castas) para permitir que fossem reveladas a um estranho.
Alguns aspectos da investigação:
Quanto
à pesquisa participante observamos alguns aspectos:
·
Vemos que o pesquisador participa pessoalmente no que
está a acontecer;
· Observar e participar constitui uma forma de aculturação do pesquisador;
Como em
Malinowski percebemos que Barreman demonstra:
·
Ter objetivos genuinamente científicos;
·
Intimidade com o tema;
·
Viver entre os locais (aprendendo a sua língua);
·
Observar os detalhes exteriores até ser incorporado
pelos locais;
·
Adoptar uma postura ativa e participativa;
·
Procura de proximidade através de conversas com os
indivíduos;
· E aplicar os métodos de recolha (escolha de informantes) e registo das ocorrências (diário de campo).
Como Malinowski, Barreman também cuidou da sua performance, o tom de conversa, o cuidado da etiqueta local; a gestão de amizades e inimizades; e o controle das reações emocionais.
Alguns
aspectos de diferença entre as monografias:
Berreman
descreve as reações dos locais face á sua presença o que Malinowski não faz. Ele apenas afirma que em
cada ilha os indivíduos tem personalidades particulares.
Berreman descreve momentos particularmente tensos com os locais o que Malinowski não faz.
3. Conclusão:
Creio que em complemento ao texto de Malinowski, ao diário de campo de Ruy Coelho, este texto dá mais algumas indicações sobre experiência do etnógrafo no campo. Creio que o somar de experiências permite alguma maturidade mental e constitui encher os bolsos de ferramentas que conjuntamente com a nossa própria experiência potencializam uma melhor postura perante o grupo e perante os desafios diários do etnógrafo.
Em conclusão e em função dos temas apresentados, sobressai uma ideia importante:
Em “O próximo e o alhures, primeiro capitulo de Não Lugares, Marc Augé passa a mensagem: “A antropologia foi sempre uma antropologia do aqui e do agora. O etnólogo em exercício é o que descreve o que observa ou o que ouve nesse mesmo momento. Depois, poderemos interrogar-nos sobre a qualidade da sua observação e sobre as intenções, os preconceitos ou os outros fatores que condicionam a produção do seu texto: o certo é que toda a etnologia supõe um testemunho direto de uma atualidade presente. “
Author:
|
Berreman, Gerald Duane, 1930- |
Title:
|
Behind
many masks; [ethnography and impression management in a Himalayan village. |
|
Ithaca,
N.Y.] Society for Applied Anthropology, 1962. |
Description:
|
24 p. 28 cm. |
Series:
|
Monograph ; -- no. 4 |
Notes:
|
Cover title. |
|
"The
research upon which this report is based ... is reported in full in the
author's dissertation, Kin, caste and community in a Himalayan hill village,
Cornell University, 1959." |