São Pantaleão
A lição histórica e a ideologia oculta
Procuramos com este trabalho sublinhar, na
nossa forma pessoal de escrever a História, com paixão e entusiasmo, uma visão
interpretativa do mundo das hagiografias. Contudo, não deixamos de por de lado
a nossa condição de acutilante e minucioso investigador, nessa forma
documentada e esclarecida de questionar a História. Na nossa banca de ensaios,
colocamos o texto Da Vida e Paixam de Sam
Pantaliam Martire [1] e
procuramos através da sua interpretação dissecar alguns aspectos essenciais à
sua compreensão.
È sobretudo missão do investigador procurar
identificar as linhas de pensamento de forma a conseguir apreender de qualquer
que seja a fonte de suporte (principalmente se esta é escrita), o contexto
visível e o invisível. Este último, porque encoberto, é sem dúvida aquele que
pressupôs um ato hostil (um ato pró sobrevivência mas que é contra
sobrevivente para outros) contra uma dinâmica da vida e é mantido através de um
motivador que o justifica e dá suporte.
Este «ato hostil - motivador» é talvez o
binómio que explica a forma como as mentes poderosas operaram no passado
criando armadilhas ao pensamento bem sucedidas. Salta-nos à vista três
proeminentes dicotomias que o texto pretende evidenciar: bom/mau,
sobreviver/sucumbir e amor/ódio. Não serão estas formas as responsáveis pela
cegueira e ineficácia da racionalidade do homem medieval, como um ser pensante
? Então incutir tais ideias seria seguramente um ato hostil contra a dinâmica
social do grupo. E ao inculcar estas dicotomias o grupo de pensamento
proeminente simplesmente estaria a eliminar a competição com os outros grupos
da sociedade.
Mas se esse ato hostil for fruto de um mal
entendido (isto é, erramos porque não entendemos) então não terá o Concilio de
Niceia confundido a relação de Cristo com Deus e ter a partir de ai construído
os motivadores que inclusive se mantém até aos nossos dias ? Será que o
resultado desse implante mental foi o aparecimento na sociedade de moralistas
éticos, oportunistas e românticos ? Contudo, das três dicotomias aquela que
mais tem dominado alongo da historia será seguramente a do bom/mau.
E as formas como essas dicotomias foram
entendidas ? Estamos em crer que se olharmos o passado torna-se inegável que
mais pessoas foram mortas, e muitas guerras foram travadas por motivos
religiosos, do que propriamente por questões de direitos, rotas comerciais,
ganância, poder e insanidade ou qualquer combinação destes.
A religião é a área por excelência de
psicoses que se ligam a tudo o que respira. A razão de tais sentimentos tem a
ver com uma conduta irracional que leva à tortura e morte como forma de quebrar
a vontade dos outros. E são precisamente os desafios às fortes convicções das
pessoas que leva aos assassinatos. Esta é a prática comum e inegável em
qualquer capitulo da História do homem.
Se repararmos dos exemplos da História,
qualquer indivíduo armado com a verdade, atuando com «paixão», assusta de
morte os que estão à sua volta. Estes preferem, como no caso dos cristãos,
juntarem-se cada Domingo e reafirmar o seu grande reconhecimento, pelo tempo
que aquele (Cristo) viveu, e o quanto
grande ele foi, que o terem ao seu redor em tempo presente.
Voltando ao texto, apesar de narrar os
acontecimentos anteriores ao Concilio de Niceia, apresenta-nos Jesus como «Deus
verdadeiro nascido de Deus verdadeiro, gerado, não criado, consubstancial ao
pai» o qual todos deviam seguir, contra o espectro do oposto, o inferno.
Ironicamente depois de 323 D.C. terminaram os milagres curativos dos mártires,
e provavelmente o verdadeiro cristianismo, transformando-se este numa relação
de poder e negócio.
As narrativas sobre a vida dos santos padres e
mártires dos primeiros anos do Cristianismo voltaram-se todas, de certa forma,
e em linhas gerais, à edificação moral e religiosa.
Porém as hierofanias produzidas não eram mais
do que textos em que o propósito era dar ao homem um profundo sentimento de ser
uma enorme nulidade [2]. Eram
a consolidação de um pensamento em que ele não é mais do que uma criatura, ou
seja, «cinza e pó» conforme os termos com que Abraão usou ao se dirigir ao
Senhor (Gn, 18, 27).
Surge então o sagrado, aquele que se opõe ao
profano, que ao manifestar-se apresenta uma realidade pertencente a uma ordem
diferente das realidades «naturais» onde o homem se encontra incluído [3].
Conforme nos diz Mircea Eliade, «o sagrado e o profano constituem duas
modalidades de ser no mundo, duas situações existenciais assumidas pelo homem
ao longo da sua História» [4].
Esses textos apresenta-nos sempre
esse Eros divino como uma entidade mais forte que o ser humano, vencendo suas
oposições e impondo-se por sua majestade.
Temos no texto um Deus que se
revela, como o todo poderoso e sobre o qual o ser humano não tem qualquer
poder. Esta ideia vista em reverso constitui a afirmação, bem claro que é o
homem aquele que deve viver sob sua dependência. Assim, desejado e
experimentado, este Deus não se rende às atitudes impacientes do homem pagão.
Mas também neste texto,
encontramos aquilo que é o denominador comum de qualquer experiência religiosa, isto é o mistério do Outro. É uma inclinação inexplicável, que envolve, seduz e apaixona
pela sua beleza e em que a constatação da «diferença» provoca um impulso
incontrolável de aproximação e união que tudo justifica.
A paixão de S. Pantaleão é uma das muitas
narrativas que enumera as crueldades levadas a cabo e das suas vitimas, na
última das grandes perseguições aos cristãos. Esta, durante o governo de
Diocleciano, constituiu o inicio de uma nova era cristã - a era dos mártires [5].
O que levaria o regime de Diocleciano ao
prazer sádico da tortura ? Seria a decadência extrema e perda de prestigio dos
valores morais ? A decadência do Império era transversal.
Mas estes textos de perseguições trazem-nos
várias e abundantes figuras que se multiplicam através de exemplos
sobre-humanos de força de alma e intrepidez.
Sublinha-se uma intrépida segurança, as provas de heroísmo, de
generosidade e da simplicidade desses mártires.
Por vezes, pareceu-nos ao olhar para as palavras e ao escutarmos o seu
som no eco da nossa mente, o esboçar de uma tranquilidade sorridente.
Mesmo perante o interrogatório, desde o
principio ao fim, a resolução do mártir é sempre fria e lúcida. A sensação com que se fica é a do imperador a
embater contra uma muralha de aço.
Este embate entre sagrado e profano é ainda o
espelho da força anímica dos heróis das perseguições contra os poderes
constituídos. O texto representa a derrota da violência dos magistrados de Roma
que apesar da multiplicidade de meios de torturas, nada conseguiram. O extraordinário se tece com os fios da
fragilidade e vulnerabilidade inerentes à condição humana.
A atitude de Pantaleão é um
movimento de heroica entrega da condução aos rumos da existência a um Outro. Temos a imagem edificante de que
os santos são pessoas de uma posicionalidade excêntrica pois é sempre o Outro quem os conduz. O heroísmo não
está na criação do ato mas na vontade de se deixarem conduzir, manifestando a
força divina dessa alteridade ali onde é maior e mais evidente a fraqueza
humana.
Ainda que as hagiografias
tradicionais acentuem um heroísmo admirável no exercício das virtudes éticas
por parte dos santos, é necessário não perder de vista que a grandeza da
santidade não depende do reconhecimento social. Ela se situa em, e nos remete
a, um horizonte mais amplo que o do exercício humano de virtudes éticas.
Podemos então falar de santidade. Esta tem como requisito a subversão do
conhecimento pela entrega amorosa a esse Outro
por cujas mãos se deixam, obedientemente levar. Ou seja, o escolhido tem a
certeza de não saber, nem poder saber, a razão de fazer o que faz e
comportar-se como se comporta. O milagre constitui em si, uma misteriosa
imprevisibilidade. A única razão que lhe importa reter é a de que deve fazê-lo,
porque sente, e saboreia esse sentir. A realização desse momento reverte-se no dever que está presente
em cumprir o desejo e a vontade do Outro,
que é o Senhor de suas vidas. É este o modelo de submissão.
No caso das hagiografias, a lenda tem
um herói religioso. Senhor de todas as virtudes, qualquer santo é modelo de
perfeição e logo também a sua vida se torna modelar [6].
O santo
cristão vive o amor até o nível do heroísmo. Este representa a capacidade
ilimitada de paixão, que deve ser provada até ao fim, seja qual for a forma
desse fim. Pretendia-se com esse heroísmo persistente apresentar uma ideia que
era preciso cada cristão assumir um compromisso através de um longo e doloroso
processo de vida cujo propósito se resumia no combate espiritual em que se
procurava impor o domínio progressivo do
«santo» sobre o «não santo» e sobretudo da vitória do «Cristo que vive em mim» (Gl 2, 19-20).
Esta «literatura miraculosa» legitima a
ação do mártir, tomando como modelo os arquétipos fundamentais no próprio
evangelho e concebendo a santidade de acordo com a imitação das ações de
Cristo [7]. Isto
é, «...
deveis ser perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito» (Mt 5, 48).
Procura-se assim dar o exemplo através das
hagiografias de um tipo de comportamento ao
mundo que corresponde à imagem fiel do comportamento do próprio Deus que
representa o princípio e garantia da Verdade, do Bem e da Justiça.
Outra mensagem que estes textos
procuravam transmitiam correspondia a uma identidade estabelecida entre cristão
e santo. Procurava-se apresentar e sublinhar o carácter extraordinário da vida
daqueles que aceitavam e a quem se exigia desprendimento e quase sempre dor. Ou
seja, «arrependei-vos e acreditai no Evangelho» (Mc 1, 14).
Mas afinal que características encontramos
sobre São Pantaleão ? Esta hagiografia reparte-se através das suas diversas
formas de bondade instintiva: esquecimento de si; tendência para servir os
outros; sofrimento pelo sofrimento de Jesus e dos homens; prontidão em
socorrer; efusão em dar.
Mas afinal o que representava ser cristão
nesta hagiografia ? Pantaleão apresenta a
sua formula de ser cristão excluindo-se das seguranças e estabilidades do culto
aos deuses das cidades e, em particular, ao Império e ao Imperador. Porém, não
era «... contra os seres humanos que temos de lutar, mas contra os Principados,
as Autoridades, os Dominadores deste mundo de trevas, contra os espíritos do
mal, que estão nos céus» (Ef 6, 12). Ser cristão era arriscar-se em Deus.
A necessidade de comunicar com os
outros e de fazer passar uma mensagem obrigou os oradores a lançarem-se no uso
de algumas unidades lexicais de forma a definirem os seus pensamentos. Estas
entidades vocabulares criadas, eram a forma de evocar o fragor de um ato
expressivo. Além disso, elas revelam-nos a realidade relativamente aos factos
culturais que rotulam e permearam a sua história. Através do léxico, de um dado período da
língua podemos apreender os seus processos de sociabilização, nos diversos aspectos
da vida material e espiritual., ou seja, uma parte da própria história.
Na nossa incursão ao léxico medieval
português, optamos por uma observação centrada na oposição entre [religioso] /
[profano] do texto. Ou seja, procuramos encontrar as palavras que permitem
designar, qualificar, caracterizar, significar, uma ideia, uma atividade, um
espaço, uma pessoa, etc. Vejamos os resultados [8]:
|
Profano |
Religioso |
|
Profano |
Religioso |
|
Cidade |
|
|
Terra |
Céu |
|
Senador |
Clérigo |
|
Sacerdotes |
Padre |
|
Mestre de Medicina |
|
|
Diabo |
Deus / Nosso Senhor |
|
Paço |
|
|
Romanos |
Servos de Deus |
|
Imperador |
Jesus Cristo |
|
Bárbaros |
|
|
Deuses |
Espirito Santo / Deus |
|
|
Milagre |
|
Pagão |
Cristãos |
|
|
Baptismo |
|
Demónios |
Anjos |
|
|
Alma |
|
Físico |
|
|
|
Mártires |
|
Ídolos |
Relíquias |
|
|
Profeta |
|
Fazenda |
|
|
|
Santos |
A oposição do sagrado ao profano será o
des-paganizar do mundo romano pelos cristãos, ou seja, a oposição às palavras
relacionadas com as outras crenças, levando a uma reestruturação de
denominações que lhe deem suporte.
O que o texto nos sugere é que as palavras
são criações do homem. Elas formam e conformam-se às realidades sócio culturais
que as envolvem. E, ao atenderem às necessidades expressivas do homem tomam
vida e falam, desligam-se do seu criador e são elas próprias. Ao ler hoje este
texto elas voltaram a tomar vida,
ressuscitando de novo do sepulcro, o mártir que há séculos não passa de
pó.
Transformado
em religião de Estado, o cristianismo afirmou uma nova imagem-diretriz do Dever Ser dos santos. Estes eram agora
vistos como pessoas raras e extraordinárias em relação aos cristãos comuns.
Eram os heróis do Evangelho. Desta forma, floresceram numa multiplicidade de
carismas em todos os segmentos do corpo da sociedade: reis e camponeses,
cavaleiros e artesãos, homens e mulheres, velhos e crianças, clérigos e leigos.
Eram a forma de dar testemunho da grandeza que se fazia em Cristo rompendo os limites
da mediocridade quotidiana.
Ao mesmo tempo esta literatura
constituiu o suporte do culto medieval atuando «como elemento de propaganda e de
atracção», justificando as peregrinações [9].
Desta forma, as hagiografias correspondiam ainda à instituição da festa
eclesiástica obrigando os autores à escrita da vida desse santo, noutros,
porque ela já tinha existência literária, tornava-se necessário instituir a
festa.
Após a sua morte o corpo de Pantaleão foi
levado a Constantinopla, onde esteve muitos anos, tido em grande veneração. Os
seus restos mortais chegaram ao nosso reino no século XV. Foram trazidos por
refugiados arménios que fugiam das conquistas do sultão muçulmano Mahomet II,
chegando à cidade do Porto em 1453. As suas relíquias foram depositadas na antiga Igreja de S. Pedro de
Miragaia, onde estiveram, até serem trasladadas para a Sé, e a cidade do Porto
elegeu S. Pantaleão por seu padroeiro, por ocasião de uma peste que assolou a
cidade [10].
Bibliografia:
· Eliade, Mircea, O Sagrado e o Profano, a essência das religiões, Lisboa, Edição «Livros do Brasil», Colecção Vida e Cultura, n.º 62, 1980.
· Lucas, Maria Clara de Almeida, Da Vida e Paixam de Sam Pantaliam Martire in Ho Flos Sanctorum em Lingoagê: os Santos Extravagantes, 1ª ed., Lisboa, INIC, 1988, pp. 231-244.
· Nascimento, Aires A., Hagiografia, in Dicionário da Literatura Medieval Galega e Portuguesa, coord. Giulia Lanciani, Giuseppe Tavani, trad. José Colaço Barreiros, Artur Guerra, 2ª ed., Lisboa, Caminho, 1993, pp. 307-310.
· Idem, in Dicionário da Literatura Medieval Galega e Portuguesa, coord. Giulia Lanciani, Giuseppe Tavani, trad. José Colaço Barreiros, Artur Guerra, 2ª ed., Lisboa, Caminho, 1993, pp. 459-461.
· Rops, Daniel, A Igreja dos Apóstolos e dos Mártires, In, História da Igreja de Cristo, Porto, Livraria Tavares Martins, Tomo III, 1960.
[1] Ver Lucas,
Maria Clara de Almeida, Da Vida e Paixam de Sam Pantaliam Martire in Ho Flos Sanctorum em Lingoagê: os Santos
Extravagantes, 1ª ed., Lisboa, INIC, 1988, pp. 231-244.
[2] Cf. Mircea
Eliade, O Sagrado e o Profano, a essência
das religiões, Lisboa, Edição «Livros do Brasil», 1980, p. 24.
[3] Cf. id.,
ib., p. 26.
[4] Id. ib., p. 28.
[5] Rops,
Daniel, A Igreja dos Apóstolos e dos Mártires, In, História da Igreja de Cristo, Porto, Livraria Tavares Martins, Tomo III, 1960, p. 471.
[6] Cf.
Nascimento, Aires A., Hagiografia, in Dicionário
da Literatura Medieval Galega e Portuguesa, 2ª ed., Lisboa, Caminho, 1993,
p. 307.
[7] Cf.
id. ib., p. 460.
[8] Nesta
selecção que apenas pretende ser uma amostra, pois não esgotamos todas as
caracterizações possíveis, procuramos apresentar os resultados em forma de
dicotomia entre o profano e o sagrado.
[9] Cf.
Nascimento, Aires A., op. cit., p.
460.
[10]
Cf. Campos, Jorge Tavares, Pantaleão da Nicomedia, in Dicionário de Santos, 2ª ed., Porto, Lello & Irmão Editores, 1990, pp. 115-116.
