Resumo
O presente ensaio
visa abordar a questão da interpretação nos parques arqueológicos
principalmente no que dizes respeito á forma de transmitir a informação histórica
(em que incluímos, a arquitectura e a arte), que permita ao visitante ter a
melhor compreensão sobre o local.
Desta forma,
procuramos efectuar uma reflexão ao nosso trabalho (na Ensaius) de quatro anos de
apresentações guiadas a parques arqueológicos e os diversos problemas dessa
interpretação.
Esta nossa reflexão recai sobre alguns dos espaços habituais das nossas apresentações, tais como as cidades romanas de Miróbriga, Conímbriga, Mérida e o Anfiteatro romano de Lisboa.
Palavras-chave: património; interpretação; arqueologia.
A Ensaius – preservar e divulgar a cultura portuguesa
A base empírica deste
ensaio provém dos vários trabalhos de preparação e apresentação a locais de
interesse histórico, desenvolvidos no âmbito profissional, numa empresa
dedicada á promoção de eventos histórico-culturais. Desta forma, tornava-se
importante fazer a respectiva apresentação.
A Ensaius é uma
empresa portuguesa que se especializou na investigação histórica e social, na
produção de materiais informativos e em actividades culturais de acentuada
vertente histórica. Ainda no âmbito da sua actividade presta serviços de
assessoria e gestões relacionadas com a História, nomeadamente nas seguintes
áreas:
- Arqueologia da Pré-História;
- Arqueologia da Idade Média;
- Arqueologia da Idade Moderna;
- Arqueologia Industrial;
- História Institucional e Política;
- História Contemporânea;
- História Militar,
- História da Arte.
Entidade prestadora
de serviços na área histórico-cultural, pretende com a sua acção contribuir
para a preservação e divulgação da cultura portuguesa e, ao mesmo tempo, ser um
parceiro de confiança em termos da qualidade da investigação científica, sendo
constituída por diversos historiadores e arqueólogos especializados em
diferentes épocas históricas.
A nossa iniciativa
constitui uma aposta inovadora no estudo e registo da cultura de um povo,
expressa nas suas tradições e festividades, de profissões que tendem a
desaparecer, de individualidades, entidades ou de monumentos cujo significado
assume importância local ou nacional.
Como contadores de histórias e da História, procuramos respeitar a essência e a verdade dos locais e pessoas que fazem parte do país que somos. O objectivo da Ensaius é também proporcionar aos seus públicos uma resposta às suas necessidades e potencializar o interesse pelas suas regiões, estudando e divulgando o seu património.
A cidade romana e a sua importância
O legado romano em
Portugal é muito vasto. Entre as suas heranças destacam-se o alfabeto, o calendário
juliano, o latim, o direito, as instituições republicanas, que são a base das
democracias modernas, as estradas e ainda as grandes obras arquitectónicas.
A arquitectura foi um
meio de expressão muito poderoso usado pelos romanos para exaltar a
grandiosidade e o poder do seu império, afirmação de sua autoridade e símbolo
de dominação, especialmente a partir do principado.
A romanização foi um
processo lento mas seguro que, pouco a pouco, transformou em cidadãos romanos
os povos conquistados. Embora algumas áreas tenham sido mais plenamente
romanizadas do que outras, todo o Império sofreu a sua influência. Os Romanos
tinham consciência de que residia na cidade, o cerne da sua cultura e do seu
modo de viver. Consideravam-na, além disso, o núcleo ideal de administração das
regiões provinciais. Por estas razões, a política de romanização centrou-se no
desenvolvimento da vida urbana.
A cidade romana ideal
devia obedecer a um padrão rígido de urbanismo. Dispunha de um centro
monumental, o fórum, onde se concentravam os edifícios destinados às principais
funções institucionais administrativas e religiosas, que, por sua vez, atraiam
as principais áreas de comércio. Deste modo, o fórum constituía o centro da
cidade.
Podemos afirmar que a
sociedade romana é de matriz urbana, pois a sua primeira e principal expressão
material é a cidade. É nesta e através desta que a cultura romana se afirmou,
expandiu e implantou. A cidade clássica era o centro do poder político, administrativo
e religioso e exercia influência por via do domínio de um território mais amplo.
Assim, consideramos
que se torna importante compreender a cidade romana pela importância do legado
cultural que ela representa em Portugal.
Entre os vários pontos que consideramos importante referir ao público e que ele deve reter como informação, destacamos:
·
Explicar o espaço imperial romano.
·
Apresentar o carácter urbano da civilização
romana.
·
Dar a conhecer as instituições governativas romanas.
·
Referir as características genéricas da cultura
romana.
·
Apresentar os elementos urbanísticos da cidade
romana.
·
Identificar os modelos arquitectónicos e
escultóricos da civilização romana.
·
Apresentar a romanização com a aculturação dos
povos dominados.
· Enumerar os factores que mais contribuíram para o processo de romanização.
Arqueologia e património
Segundo a Lei nº
107/2001 de 8 de Setembro pelo seu Artigo nº 74, Conceito e âmbito
do património arqueológico e paleontológico, “entende-se por parque
arqueológico qualquer monumento, sítio ou conjunto de sítios arqueológicos de
interesse nacional, integrado num território envolvente marcado de forma
significativa pela intervenção humana passada, território esse que integra e dá
significado ao monumento, sítio ou conjunto de sítios, e cujo ordenamento e
gestão devam ser determinados pela necessidade de garantir a preservação dos
testemunhos arqueológicos aí existentes”.
Quanto ao património
cultural, ele é representado por todas aquelas testemunhas, materiais e
imateriais, que nos falam do passado duma determinada área geográfica e
cultural e cujo elemento determinante é a sua capacidade de representar
simbolicamente uma identidade. Através do património cultural “cada momento do
passado é construído de novo. Não existe passado [...] apenas presente, no
contexto de que o passado está em contínua reconstrução [...] o passado é
infinitamente construído no presente e através dele”[1]
(Urry, 2005: 48).
Mas, o património
também pode ser visto como “um novo modo de produção da cultura no presente que
tem recursos no passado”. (Kirshenbaltt-Gimblett, 1998: 149). Ou seja, o
património é a revalorização do obsoleto.
Em arqueologia, os
monumentos fazem parte da referida cultura material, pois representam os restos
materiais do processo evolutivo de uma cultura. Outros produtos da cultura
material podem ser os artefactos cerâmicos, os utensílios de trabalho, as
moedas e tudo o que tenha a ver com a produção material representativa da
cultura de um povo. Desta forma, o “património atribui valor a bens existentes
que deixaram de ser viáveis” (Kirshenbaltt-Gimblett, 1995; 370).
Para a compreensão
de um parque arqueológico, esses monumentos bem como os variados artefactos,
tem de ser colocados nos lugares certos para proporcionarem a imagem e
compreensão da cultura que representam.
A arqueologia contemporânea
exalta a dimensão histórico-cultural do parque arqueológico. Como sugere
Kirshenbaltt-Gimblett, “o património não só dá aos edifícios, recintos, e
formas de vida que deixaram de ser viáveis, por uma razão ou outra, uma segunda
vida exibindo-se a eles próprios, como também produzem algo novo ” (1998;150).
Os processos de
patrimonialização envolvem não só a preservação de vestígios do passado, mas
também a simulação dos seus contextos com o propósito de aumentar o seu
potencial de atracção, o que significa que o património, para além de
preservado, necessita também de ser observado e experimentado no presente
(Lowenthal, 1985; Urry, 2005).
Atualmente a pesquisa arqueológica não
representa apenas um desejo meramente académico, mas com o seu significado
intrínseco contribui para o enriquecimento da memória colectiva. Uma escavação
arqueológica, não representa apenas uma etapa duma pesquisa científica, mas
também permite transmitir e tornar visitável o património arqueológico, maximizando
o seu valor cultural e informativo.
Por isso, é necessário procurar novos instrumentos de apresentação
e interpretação do património arqueológico, devolvendo a abrindo a arqueologia
à população.
Ao longo de quatro
anos de apresentações constatámos a existência de diversas dificuldades de
compreensão e leitura das áreas arqueológicas, aliadas quer ao seu grau de
ruína em que se encontram as estruturas, quer ao desconhecimento natural do público
não especializado, dos referenciais de descodificação dos significados e
simbologias dessas áreas. Estas dificuldades remetem estes locais, parte
integrante do património cultural, para um certo isolamento, se compararmos a
outras tipologias de património.
No entanto, existem
monumentos em que os referenciais, simbologias e funções da arquitectura, como
num mosteiro, castelo ou catedral medieval, tornam-se muito mais próximos da
realidade cognitiva do visitante do que os traços indefinidos de uma ruína
romana.
A falta de inteligibilidade
da estrutura arqueológica leva a uma grande necessidade de apresentação e
interpretação, descodificando significados que estão muito além do conhecimento
do público não especializado.
Estas dificuldades
tem a ver com situações contextuais, pois esses públicos estão deveras
arredados desses modelos de vida e os seus significados não se ajustam aos dias
de hoje. Isso não quer dizer que a vida quotidiana dos nossos dias seja
identificável com a de uma comunidade medieval.
O que podemos dizer é
que quando visitamos uma igreja medieval, apesar da distância no tempo, ela está
muito mais próxima do quadro referencial do visitante comum do que um templo
romano. Se numa igreja medieval se rezava, o mesmo continua a acontecer hoje em
dia, pois o que difere são os rituais litúrgicos. Em contrapartida a
funcionalidade e compreensão da importância e dos referenciais de um templo do
culto imperial romano, para o mundo romano e para os nossos dias, encontram-se
consideravelmente afastados, em função do seu bem diverso significado.
Assim, justifica-se a
importância nos cuidados a ter nos processos interpretativos e de apresentação
numa área arqueológica. Como afirma Kirshenbaltt-Gimblett, “a incapacidade dos
lugares contarem a sua própria história autoriza o próprio projecto da
interpretação” (1998; 168).
São de facto as particularidades
do património arqueológico os grandes obstáculos a ultrapassar de forma a
atribuir um maior interesse ao local para o publico não especializado.
De uma forma geral os parques arqueológicos apresentam estruturas
nem sempre com grande visibilidade e monumentalidade e cuja leitura e a
compreensão por si são complicadas para a maioria do público.
O facto de nos
parques arqueológicos a maioria dos monumentos estarem em estado de ruína e
haver a necessidade de preservação e protecção, constitui o principal
constrangimento no tipo de interpretação a ser utilizada. O facto de eles
estarem em ruína constitui uma importante limitação sobre aquilo que pode ser
dito.
A ruína arqueológica
tem procurado afirmar-se como uma entidade cultural adaptando o seu discurso didáctico
com vista á rendibilização social. Por vezes, assiste-se a algumas intervenções
em sítios arqueológicos, como no caso de Mérida, no sentido da reconstituição
de estruturas e de ambientes, tentando reevocar senão a imagem original do
sítio, pelo menos a imagem parcial das suas funções, significados, caracteres
históricos, artísticos e culturais.
Tal propósito, embora
não tacitamente aceite por muitos especialistas, tem conduzido a uma tentativa
de repor, mesmo que virtualmente, as imagens desse passado longínquo, do que as
estruturas são representativas.
Toda e qualquer
perspectiva de reconstituição, seja ela no sentido de readaptação de um imóvel
arquitectónico, seja ela no sentido da reevocação da imagem de um sítio
arqueológico, com a finalidade de melhorar a compreensão e usufruto público do
local, deve sempre pautar-se pelos princípios da autenticidade e da integridade
dos seus vestígios e das suas mensagens.
Seja como for,
estamos em crer que qualquer tipo de projecto de intervenção no sentido de
valorização do parque arqueológico, no caso de possíveis reconstituições ou
outras perspectivas museológicas, deve orientar-se no sentido de evidenciar as
características das estruturas e fazer destacar o absoluto protagonismo das
mesmas.
O arquitecto ou
museógrafo responsável por qualquer projecto de intervenção deverá ter a grande
humildade de utilizar toda a sua criatividade de forma a conservar o espírito
das estruturas arqueológicas. Elas terão que poder falar por si próprias,
despertando as suas características inatas, enquanto bens culturais,
históricos, artísticos e entidades físicas e funcionais.
As formas de
interpretação e os seus centros terão que fazer pelos parques arqueológicos
aquilo que eles não podem fazer por eles (Kirshenbaltt-Gimblett, 1998). “Não se
trata de um substituto para o parque mas uma parte integral dele, para o
interface interpretativo mostra o que não pode ser visto. Ele oferece
virtualidades na ausência de condições reais” (Kirshenbaltt-Gimblett, 1998;
169).
Torna-se importante
dar ênfase ao facto de que a história aprendida através do património é problemática
por causa do destaque na sua visualização. “Os visitantes vêm um conjunto de
artefactos, incluindo edifícios (reais ou fabricados), e depois tem de imaginar
os padrões de vida que emergiam em redor desses locais ou objectos. Esta é uma história
artefactual, no qual variados tipos de experiencias sociais são de facto
ignoradas ou banalizadas” (Urry, 2008: 102).
Cada parque
arqueológico para ser interpretado requer um estudo minucioso do seu contexto
para dar corpo á sua essência de forma e ser capaz de recriar a história do
sitio levando o visitante a uma viagem no tempo que seja estimulante e inesquecível.
As visitas aos
parques arqueológicos podem ser a chave para promover uma educação experimental
e informal ao visitante. Neste caso, a interpretação é de forma geral
necessária dado que o sentido do lugar e os seus significados são difíceis de
entender sem a assistência de intérpretes ou outros meios de comunicação.
Segundo Dicks a
exibição in-situ “usa o principio da simulação e/ou reconstrução para proporcionar
o vislumbre de uma vasta realidade que envolva o objecto, ou acontecimentos num
contexto de historia alargada ao que está sendo apresentado. Procura-se imergir
o visitante numa encenação envolvente de uma situação humana ilustrando o uso
ou significado dos objectos e costumes” (Dicks, 2003: 165-166).
A explicação dos lugares,
deve apoiar-se em estratégias que permitam usufruir desses espaços de modo agradável,
percorrendo caminhos e recriando contextos que levem o visitante á assimilação
da especificidade daqueles espaços.
A interpretação
“compreende varias técnicas usadas para transmissão inteligível,
particularmente através do uso de referências culturais, ambientes e lugares
que de outra forma não seriam particularmente interessantes, acessíveis ou
surpreendentes” (Dicks, 2003: 197).
Para que o património
cumpra essa utilidade imaterial mais evidente, de proporcionar conhecimento, é
necessário efectuar previamente um tratamento interpretativo.
Muitas são as
definições e autores a descrever os objectivos e estratégias da interpretação. A
interpretação nasce da preocupação não só de conservar senão também de
“difundir” o património cultural.
Ela é descrita na sua
primeira definição académica, por Freeman Tilden (1977), um dos fundadores da
interpretação moderna, como sendo uma actividade educativa que pretende revelar
significados e inter-relações através do uso de objectos originais, por
contacto directo com o recurso ou por meios ilustrados, não se limitando a dar
uma mera informação dos factos.
Tilden (1977)
defendeu que a interpretação deve explicar questões ligadas à experiência do
visitante, que a informação não é exactamente interpretação, porém, a
interpretação é uma revelação, uma descodificação baseada na informação. Ainda
de acordo com Tilden (1977), o principal objectivo da interpretação não é a
formação, porém a provocação, fazer falar e sensibilizar, estimulação e
sedução.
Assim, pensamos que a
interpretação é o processo de desenvolvimento do interesse, o desfrute e a
compreensão do visitante por uma área, mediante a explicação das suas
características e as suas inter-relações.
Os trabalhos de
interpretação do património arqueológico passam por um conjunto de actividades
que vão desde a identificação, investigação e recuperação da ruína. Depois, é
necessário dinamizar e divulgar o local através de uma comunicação atractiva de
informação que desperte o interesse dos vários significados desse património
histórico aos visitantes. A interpretação usa as particularidades do património
e objectos para demonstrar o passado aos seus visitantes na esperança da sua
compreensão e apreço desses recursos que são apresentados (Timothy e Boyd,
2003)
Temos de ter sempre
em conta que a mensagem a transmitir deve ser equilibrada, estruturada, concisa
sem abandonar o rigor da qualidade científica, devendo ser apresentada com uma
boa apresentação gráfica na exposição dos seus conteúdos. Porém, um aspecto
importante a ter em conta quanto ao tipo de mensagem que se passa ao visitante
é de que ela respeite a sua inteligência, evitando assim constrangimentos
desnecessários.
Assim, a exibição
deverá ser capaz de apresentar a(s) cultura(s) em tema, tanto como espectáculo,
como conhecimento e alimentar tanto o olho como o cérebro. O importante é não
produzir apenas sensações em detrimento do conhecimento e da compreensão.
Assim, “o papel da
interpretação é tornar as pessoas mais atentas aos lugares que visitam, para
promover o conhecimento que aumente a sua compreensão e promova o interesse que
leve à obtenção de uma grande satisfação” (Timothy e Boyd, 2003: 197).
Como sugere Tilden
(1977) a interpretação deve ser adequada e diferenciada para todas as faixas
etárias de forma a estimular a participação activa desses diversos públicos no
conhecimento do local, pois cada grupo etário tem expectativas diferentes.
De uma forma geral,
procuramos transmitir uma mensagem com uma boa utilização de termos técnicos,
mas evitando muitas descrições científicas que possam desmotivar os visitantes.
O mesmo deverá suceder com os paneis ao longo do percurso. No entanto temos que
ter o cuidado de nunca transmitirmos uma mensagem demasiado simples, pois tal
pode também aborrecer o visitante.
Os valores a
transmitir do parque arqueológico devem ser adequados a diversos meios e
programas. Ou seja, as características dos bens interpretados devem assumir o
seu protagonismo próprio. Contudo, deve-se evitar colocar algumas dessas particularidades
em demasiada evidência, pois pode por em causa a sua integridade, proporcionado
por um convite exacerbado ao manuseio. A mensagem deve pelo contrário despertar
a consciência do visitante no sentido de estimular o desejo de conservação e
protecção do património. O importante é que o visitante adquira uma noção
singular do local e no fim da visita saia enriquecido ao reviver o passado.
O esforço da
interpretação e leitura dos parques arqueológicos tem levado à investigação de
novas formas, métodos e técnicas de apresentação. Assim, temos encontrado estruturas
de protecção e reconstituições de volumetrias e ambientes, quer em maquetas (Mérida
e Conímbriga), quer em desenhos evocando graficamente as fachadas que se
perderam (Mérida, Mirobriga, Conímbriga), quer com a utilização da realidade virtual
(Mérida, Anfiteatro de Lisboa) e da representação em 3 dimensões como ainda o
recurso a painéis e placas interpretativas (Mérida, Anfiteatro de Lisboa, Mérida,
Conímbriga e Mirobriga).
Os painéis e placas
interpretativas são hoje bons aliados no sentido de ampliar a informação de
suporte às estruturas conservadas in loco. Nesses painéis o tipo de informação
veiculado deve corresponder a um discurso de comunicação acessível e não
técnico.
As placas devem fazer
a articulação entre a informação e a proposta de itinerário a seguir. Um dos
exemplos dessa dificuldade é Conímbriga onde essa articulação nem sempre é bem
conseguida levando a que o itinerário resulte por vezes num deambular caótico
entre ruínas, pondo por vezes em risco as próprias estruturas. Relembramos, a
primeira vez que as fomos estudar e mesmo munidos do caderno de registo dos vários
elementos, ou seja, repletos de informação técnica, as dificuldades que tivemos
para compreender o sitio e elaborar o melhor percurso para o desenvolvimento do
nosso programa de interpretação.
Também em Mirobriga o
sistema de placas interpretativas, apesar de conterem alguma informação de auxílio
ao visitante não especialista, inclui plantas que são pouco acessíveis à
compreensão do visitante. Também aqui observamos a ausência de gráficos em três
dimensões que possibilitem simulações virtuais dos edifícios. Este porém é um
dos erros que se repetem por muitos parques arqueológicos.
Ao longo das nossas
apresentações temos levado como auxiliares de interpretação, mapas, desenhos
que evocam as representações tridimensionais dos edifícios ou conjuntos urbanísticos,
bem como reconstruções volumétricas em modelos de cartão para ajudar a uma reconstituição
de um plano de contexto salientando e evocando ao mesmo tempo os seus
particularismos.
Alguns museus usam
reconstruções do local ou apresentam-nas em miniaturas e dioramas cénicos (Conímbriga).
Desta forma, pretendemos anular o abstraccionismo do conceito atribuindo-lhe
alguma materialização. Mas muitas vezes a ligação entre o centro interpretativo
e o local da ruína é difícil de fazer. De qualquer forma, geralmente o
resultado do nosso trabalho é satisfatório pois os visitantes percebem a
estrutura de organização do espaço da cidade romana e a função dos seus
principais e relevantes edifícios.
A nossa forma de
interpretação passa por um discurso imaginativo de divulgação, através de novos
métodos de comunicar e de estimular a compreensão e o interesse do público,
trazendo uma nova forma de compreender a Arqueologia e a História.
Para a interpretação dos
parques arqueológicos os centros de interpretação constituem o seu principal
suporte. Eles satisfazem a solicitação social e ajudam a realizar a gestão dos
bens culturais e patrimoniais. Do ponto de vista infra-estrutural, os centros
de interpretação são equipamentos com serviços destinados à apresentação,
comunicação e exploração do património cultural. Neles podem organizar-se:
exposições, audiovisuais, visitas guiadas, etc. É nestes centros que se podem
acolher os visitantes, sendo a partir deles que se podem dinamizar in situ os
recursos naturais e culturais. Os centros de interpretação oferecem uma leitura
interpretada do património cultural, algo não evidente na simples contemplação
de objectos e rituais. Portanto, estes centros servem para construir uma primeira
visão sobre o património cultural e a cultural que o visitante vai encontrar no
parque arqueológico. O grande problema é estabelecer a relação entre a
informação do centro interpretativo e do sítio.
Na preparação dos conteúdos
informativos para apresentação nos parques arqueológicos temos a consciência de
que não basta informar, mas sobretudo comunicar, quer a nível da mensagem a
passar no interior do parque, quer na que vá de encontro à sua divulgação
externa.
Assim, há que definir,
previamente, o tipo de informação que deverá ser expressa e os públicos-alvo a
que se destina, assim como organizar todo um circuito de divulgação da
informação.
Torna-se importante
referir que uma deficiente política de divulgação podem contribuir,
grandemente, para o insucesso na rentabilização de um espaço arqueológico
aberto ao público.
De facto, não basta
concretizar propostas de musealização dos sítios, orientadas para a sua interpretação.
Há que definir, previamente, o tipo de informação que deverá ser expressa e os
públicos-alvo a que se destina, assim como organizar todo um circuito de
divulgação da informação. Existem, assim, diferentes estratégias de comunicação
consoante o público-alvo a atingir. Porém, não podemos esquecer que na
preparação de um plano para a interpretação guiada deve-se ter em consideração
o que o visitante quer saber acerca do local para fazer com que a sua visita
seja estimulante e memorável.
Antes de continuar é
importante relembrar e reflectir o que é de facto comunicar. A comunicação
implica, necessariamente, dois interlocutores: o que emite a informação e o
outro que a recebe. Assim, poderíamos definir a comunicação como a troca de
ideias ou de objectos entre dois terminais ou pessoas. Mas, mais importante é
que essa comunicação deve ser dada pelo emissor com a intenção de que o
receptor a duplique e compreenda.
A falta de
compreensão pelos visitantes, de um sinal, um painel, um termo técnico, produz
o mal-entendido. Este significa uma palavra ou símbolo que se passou e para o
qual não se compreendeu o significado ou definição. Se os visitantes ao longo
do percurso somarem mal entendidos desenvolvem sintomas de “ficar em claro”, o
tema deixa de ser interessante e começam a acha-lo aborrecido.
O continuar da visita
leva a formas de queixa e culpa para com o objecto de visita e consequentemente
para com a organização do parque e/ou o seu guia interpretativo. É aqui que
vemos por vezes o grupo de 50 pessoas a desmembrar-se a meio do percurso.
Os grupos de
visitantes não são todos iguais e cada um tem a sua especificidade própria. Uma
coisa é trabalhar para crianças outra é para jovens outra é para adultos. Ou
seja, encontramos diferentes públicos, com necessidade e expectativas
diferentes.
Uma coisa é certa, os
visitantes necessitam de ser orientados, direccionados e instruídos sobre o
local a visitar. E, devem ser levados a compreender o lugar a partir das suas próprias
experiências.
Ao longo das várias
interpretações feitas nos parques arqueológicos reparamos que habitualmente
surgem três tipos de visitantes num mesmo grupo: um pequeno número de altamente
motivado que quer aprender; um pequeno numero que tem pouco interesse em
aprender; e os restantes em número assinalável onde o grau de disponibilidade
para apreender é variável mas para o qual podem ser motivados a faze-lo. Desta
forma, pensamos que algumas pessoas procuram os programas de interpretação
porque desejam adquirir de forma agradável o conhecimento e uma experiência
enriquecedora.
Seja qual for o
processo interpretativo o importante é que não devem ser passadas palavras ou símbolos
mal entendidos ou para o qual os visitantes não tem definição. Devemos estar
atentos às suas reacções e perceber se conseguimos manter o seu entusiasmo
intacto do princípio ao fim da visita. Isto é ainda mais importante se o
visitante for sozinho efectuar o percurso. Não se pode inundar todo um discurso
com designações científicas do tipo domus, villae, tabernae, insulae... sem se
ter tido o cuidado de explicar, exactamente, o significado dessas palavras, ou
de apresentar a reconstituição hipotética de uma estrutura, ou, pelo menos, a
sua planta.
Assim, não podemos utilizar apenas uma terminologia técnica,
sem qualquer preocupação da sua não descodificação. O uso dessa terminologia
constitui um grande obstáculo à comunicação com o público, aliada,
frequentemente, à natural ininteligibilidade, para um leigo, das ruínas
arqueológicas.
O público não está
nem familiarizado com a relação dos espaços, as funções, os atributos e os
códigos representados pelas estruturas arqueológicas antigas, nem, muito
menos, com explicações técnicas, específicas e muitas vezes até confusas. Os
visitantes, esperam ver clareza nas identidades culturais em exibição.
A comunicação deve
desencadear uma constante curiosidade e anular a passividade do receptor. Só
assim, teremos um visitante activo e participante. Para que o parque possa
transmitir algum conhecimento ao visitante será necessário assegurar o seu
acesso e encorajar activamente à curiosidade em modos de uma aprendizagem
informal (Bella Dicks, 2003: 9). O objectivo das apresentações interpretativas
não se devem ficar por uma simples descrição do lugar histórico, mas inspirar o
sentido de um momento de história.
Também as placas de
sinalização ao longo dos percursos são provavelmente a forma mais comum de
interpretação, pois permitem que uma boa parte da informação seja incluída em
cada paragem que o visitante faz para apreciar uma determinada particularidade
do parque. A visualidade dessas placas podem manter a atenção das pessoas e assistir
na passagem de mensagens importantes sobre o local.
Outra questão a ter
em conta é que não podemos confundir informação com interpretação. Ou seja, a
informação e a forma como é comunicada por si só não é interpretação. Ela é uma
forma de revelação baseada na informação devendo relacionar o que está exposto
com algo que tenha a ver com personalidade ou experiências de vida do
visitante. (Timothy e Boyd, 2003). A interpretação é sempre um acto de
comunicação que faz inteligível algo. É necessário contar uma história e fazer
com que ela tenha significado para a vida de alguém.
Outra forma possível de
relacionar o lugar com as suas vivências de outrora é através de demonstrações
culturais ou recriações históricas, com personagens vestidos ao rigor do período
histórico, falando o dialecto da altura e abordando as pessoas para fornecer as
informações necessárias. Esta forma de interpretação permite que objectos e
lugares com referências reconheçam formas e estilos de vida, dando-lhes um
contexto humano que os situa nos lugares, nas narrativas e no tema (Dicks,
2003).
O material escrito é
também uma forma utilizada para passar a informação, através de guiões,
brochuras, mapas, etc.
Entre várias técnicas
de aplicação da interpretação destacamos:
·
Exposições permanentes e temporais.
·
Maquetas e reproduções.
·
Montagens audiovisuais.
·
Experiências interactivas.
·
Cenificações e representações teatrais.
·
Festas e eventos.
·
Sinalização e paneis informativos.
·
Visitas guiadas e itinerários temáticos.
·
Ateliês e actividades didácticas.
·
Desdobráveis, edições e materiais informativos.
Então o discurso comunicacional para os parques arqueológicos deverá articular percursos, placas interpretativas, leitura dos espaços e arquitecturas, de forma a permitir indicações exactas sobre as estruturas, datações e funcionalidades, deixando, eventualmente, como complemento, as designações técnicas e científicas.
Conclusão
Estamos em crer que
grande parte das conclusões foram aparecendo ao longo do desenvolvimento deste
ensaio. Contudo, não é demais sublinhar alguns pontos fundamentais.
Assim, a
interpretação é um método para oferecer leituras e opções para um uso activo do
património, utilizando para isso muitos recursos de apresentação e de animação.
A interpretação parte
de testemunhos culturais e tenta atingir a dinamização do património cultural
no seu contexto original.
A noção de
interpretação pode ser entendida, como um processo de explicitação ao visitante
do significado do parque arqueológico, tornando a visita mais proveitosa,
facilitando a compreensão da herança cultural, ao mesmo tempo que alerta para
uma atitude de consciencialização relativamente à sua conservação.
Quanto aos projectos,
estes devem sugerir ou mesmo reintegrar a imagem original (ainda que parcial)
dos sítios, lançando mão de tecnologias, materiais e linguagens próprias das
estruturas, capazes de conduzirem à evocação das suas imagens e do seu
significado. Torna-se necessário contextualizar a nível social, cultural e
natural o património arqueológico.
Assim, o processo de
valorização deve orientar-se, num plano operativo, por uma intervenção museográfica
identificadora e interpretativa dos significados dessa estrutura e por outro
lado, garantir a sua sobrevivência material.
O que importa é que
os visitantes na maior parte dos parques arqueológicos aprendam algo quer num
contexto formal ou informal.
Em suma, devemos apresentar uma informação que seja clara, de transmissão rápida, que atribua interessa ao assunto, ensine algo novo, desperte a atenção, envolva o visitante e que seja uma experiência memorável.
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Nas citações, todos os textos em língua
estrangeira foram traduzidos para português.