10/06/23

A GUERRILHA DO REMEXIDO HERÓIS OU VILÕES

 A GUERRILHA DO REMEXIDO - HERÓIS OU VILÕES


Introdução

  Antes de assumirmos a nossa atitude como investigadores, não quisemos esconder a paixão que criou a leitura das obras e documentos sobre esta história de «bons e maus». Não esqueçamos que, se a História é feita pelos homens, também é escrita por eles. Porque o historiador tem sentimentos, não se pode querer, que apesar do rigor, cultivando a isenção, num dado momento sejamos alheios e frios ao que aconteceu. Como se não fossem humanos os sacrifícios, as tragédias, os crimes, as dores, e os heroísmos ?

  O responsável desse nosso comportamento foi José Joaquim de Sousa Reis, o Remexido,   herói romântico, que tudo sacrificou em nome de D. Miguel. No seu julgamento final, teve a condená-lo, o facto de haver defendido uma causa que tinha saído derrotada.

  Através das leituras que fizemos, percorremos com ele e seus guerrilheiros a serra, desde o sul do Alentejo, passando pelo barrocal [1] até ao litoral algarvio. Fomos políticos, soldados, idealistas, guerrilheiros, bandoleiros, e «montanheiros», cometendo os mesmos excessos. Mas também fomos militares em nome da Rainha, procurando a pacificação das populações a extinção da guerrilha e sobretudo a captura do seu caudilho. 

  Mas esta história de guerra e paixões entre o herói dos «montanheiros» e os «senhores de Lisboa», trouxeram-nos o imaginário de figuras como exemplo de lenitivo de injustiças sociais, por roubarem aos ricos para distribuírem aos pobres, que numa luta desigual lutaram por um propósito que consideravam de grande nobreza.  

  Esta história é no fundo o relato de uma guerra civil que se estendeu em Portugal, no Séc. XIX, por mais de uma década, que moveu paixões em todas as regiões, e em que todo o sistema e malha social se viu afectado e alterado.

  Procuramos fazer deste ensaio, uma leitura das causas que levou ao aparecimento do movimento guerrilheiro do sul, na figura do seu comandante, figura tão carismática na sua época, que preocupou a Rainha, o Governo e teve de enfrentar, com um punhado de homens, grande parte do Exército Português.

Origem do Remexido

  José Joaquim de Sousa Reis nasceu em Estômbar no ano de 1796. Filho de um lavrador honrado, aos sete anos perdeu o pai, sendo educado por seu tio, o prior de Alcantarilha. Aos catorze anos entrou para o Seminário de Faro, onde estudou e recebeu ordens menores. Após seis anos, foi excepcionalmente autorizado a pregar. Contudo, a sua carreira eclesiástica terminou no seu casamento com a sobrinha de um capitão de ordenanças, proprietário e gente de família distinta. 

  Fixando casa em S. Bartolomeu de Messines, José Reis, passou a tomar parte nos negócios da mulher e do seu tio, sendo arrendatário de dízimos. A sua formação religiosa e a ligação às instituições económicas do antigo regime muito terão contribuído para sua a tomada de decisão em favor do absolutismo [2]. Deslocava-se pessoalmente com os criados para efectuar as cobranças. Estas caminhadas, permitiram-lhe obter um grande conhecimento da região que mais tarde lhe viria a ser de grande utilidade, para escapar às perseguições que o exército lhe iria mover [3]

  Em S. Bartolomeu, José Reis, preocupou-se em efectuar melhorias para o beneficio das populações locais. As diligências que efetuou para a construção de uma escola de primeiras letras, um forno público e a autorização  para a realização de uma feira, fê-lo ganhar «a estima e veneração daqueles povos» [4].  A sua situação social, de abastado lavrador, e o interesse pelos problemas da terra, proporcionou-lhe a eleição a juiz de vintena, após a revolução de 1820.

  Em 1823 a influência do movimento encetado por aqueles que se recusavam a aceitar o liberalismo, chegou também ao Algarve. José Reis, como toda a gente nesta época, viu-se envolvido por esta questão política. Contudo, talvez motivado pelos princípios religiosos da sua adolescência e de um sentimento conservador resultante da sua união matrimonial, tenha pendido para o lado do príncipe D. Miguel.

  Em 1824 foi nomeado alferes de ordenanças e em 1831 capitão de milícias. Porém, em 1832, quando o Visconde de Molellos foi nomeado general comandante das forças miguelistas no Algarve, procurou reorganizar os efetivos da província, sendo convidado para o comando dos terços de ordenanças do termo de Silves. Assim, deu início à sua verdadeira carreira militar e à luta civil que durante cerca de sete anos, assolou a região algarvia, distinguindo-se como comandante de guerrilhas.

  Não se apresentando para gozar da amnistia concedida pela Convenção de Évora-Monte em 1834, perseguido pelos miguelistas, levou uma vida errante pela serra até Agosto de 1836. Então, juntamente com um pequeno grupo de miguelistas perseguidos, decidiu reactivar as guerrilhas dando lugar a uma luta sem precedentes na história da região e que incomodou «os  políticos de Lisboa».

  Feito prisioneiro em 28 de Julho de 1838, na Portela da Corte das Velhas, foi levado a conselho de guerra, em Faro, tendo sido condenado e passado pelas armas. «A sua tenacidade, astúcia e valor militar não sofreram contestação mesmo dos mais acérrimos inimigos» [5].  A sua acção valeu-lhe um reconhecimento publico, que se observam nas palavras proferidas no seu julgamento por Fontoura: «Um homem [...] que se constitue chefe de uma facção, e que chega a tomar um nome na história portugueza, ...» [6]. A grande popularidade que ele atingiu, deveu-se à excepcional atenção que o poder atribui ao movimento dos guerrilheiros do Sul [7]. O julgamento publico acabou por o singularizar e distinguir do conjunto dos outros chefes guerrilheiros do pós-guerra [8].

Uma Guerrilha ao lado do poder

  O Algarve foi palco de duas sublevações de sentimentos contrários: o levantamento absolutista de 1826 e a revolta liberal de 1828. Em 1826-1827, o partido miguelista dispunha de importantes apoios, que se traduziram na participação de numerosas guerrilhas. Para além deste apoio, contava com uma forte adesão das autoridades civis e militares, importantes na contenção às punições ordenadas pelo governo liberal [9].

  Os manejos políticos, através de uma campanha dos partidários miguelistas, empreendida nos jornais e proclamações «incendiárias», levaram ao regresso de D. Miguel e à modificação da conjuntura política, conduzindo à restauração do absolutismo [10].

  Como forma de contrariar esta situação desfavorável os liberais, tentaram inverter esta tendência, em 1828, através de um movimento insurrecional, com centro na cidade do Porto.  O eco desta revolta estendeu-se também ao Algarve, onde em 24 de Maio de 1828, encorajou um grupo de oficiais a desencadear um movimento «a favor da Carta e  da Legitimidade», apoiados ainda pelos  «negociantes e proprietários, uma boa parte do clero e dos empregados públicos» [11]. Estes liberais abastados, sem uma adesão unanime por parte dos militares e de costas voltadas para as camadas populares, foram incapazes de criar adeptos que aderissem à sua causa. Sempre se abstiveram de fazer qualquer proclamação «que excitasse os espíritos e dirigisse a opinião pública» [12].

  O isolamento dessa classe de abastados, em relação às camadas populares foi aproveitado pelos partidários do absolutismo. O contraste entre a miséria de uma plebe rural e urbana, foi sublinhado pelos miguelistas, sabendo colocar ao rubro o ódio dos pobres contra os ricos burgueses, acusados de serem os inimigos do trono e do altar e do estado de miséria que o pais vivia [13].  Os miguelistas procuraram conquistar a adesão dos soldados e mobilizar os camponeses, levando-os a descer às cidades. Para tal se encarregaram os frades do Convento dos Carmelitas Descalços de Faro, incitando os camponeses a «correrem imediatamente à cidade ao sinal do toque de rebate no sino do relógio da igreja [...], a fim de destruir os inimigos do throno, e do altar» [14]. Esse levantamento popular, acabou por encorajar muitos soldados a combater a revolta liberal.

  Em 18 de Julho de 1833, os miguelistas apoiados pelo campesinato passaram ao ataque. Comandados por um quadro de oficiais do exercito e de ordenanças, organizaram-se em duas «guerrilhas realistas», uma chefiada pelo capitão de ordenanças Remexido, actuando na zona ocidental do Algarve e a outra, sob o comando do Major André Camacho, que tinha a seu cargo a parte oriental [15].

  A solidariedade e a capacidade de mobilização por parte dos miguelistas foi de tal ordem que, logo as guerrilhas desceram da montanha, «os povos em massa se reuniram armados de espingardas e piques» e atacaram as cidades e povoações do litoral algarvio. Estes ataques eram dirigidos a uma classe média prospera e politicamente militante, organizada entorno da loja maçónica Filantropia a Oriente de Lagos [16]. Somente Faro, Olhão  e Lagos resistiram.

  A derrota da sublevação liberal, levou à ocorrência de uma onda de violentos tumultos.  Os povos das cidades e dos campos, «homens da mais vil condição», «rotos esfaimados, só amigos do sangue e da pilhagem», em perseguição dos liberais, acometeram-se de uma violenta ferocidade [17]. Ao mesmo tempo dos desacatos e pilhagens da plebe, ocorreu uma vaga de detenções sobre oficiais e civis implicados na sublevação liberal.

    A indisciplina e a incapacidade de controlar os guerrilheiros por parte das chefias, levou ao descambo do movimento numa violência atroz. Desencadeava-se a matança, com o pretexto político e religioso da «defesa do trono e altar». Esta era a forma de acender os ódios contra os mais abastados. A indisciplina, pusilanimidade e o caracter espontâneo dos guerrilheiros, evidenciava a sua falta de convicções políticas [18]. A falta de enquadramento militar levou a que em 1833-34, aqueles se lançassem desordenadamente no saque dos ricos [19]. «As guerrilhas eram fortes pelo seu número, fanatismo, expectativa de pilhagem e, sobretudo, pelas montanhas, que lhes ofereciam retiradas seguras e inacessíveis em caso de necessidade. Pilhavam, destruíam e incendiavam as propriedades dos inimigos suspeitos de liberalismo, e se esses infelizes não conseguiam salvar-se a tempo, eram massacrados sem piedade. Era a guerra dos camponeses contra as cidades [...] [20]».

Uma Guerrilha contra o poder

  Em Conselho de Guerra, Remexido respondeu pela sua conduta. Nas suas primeiras declarações apresenta-nos a «obediência» como um dos princípios que justificaram a sua acção [21]. Na sua exposição começou por referir as diversas facetas dessa obediência desde o levantamento de 1820, sendo seu desejo mostrar que não tinha levantado guerrilha, e que tinha cumprido ordens [22]. Mas se até à Convenção de Évora Monte tudo estava perdoado, e provada a sua obediência ao governo de então, faltava agora explicar os anos seguintes.

  Quando Fontoura lhe perguntou o motivo da sua desobediência ao governo de D. Maria II, respondeu-lhe que não lhe ter sido permitido cumprir tal obediência [23]

  Os processos de rendição efetuados por companheiros seus após a Convenção de Évora-Monte, em que muitos foram mortos, levou-o a esconder-se para sua proteção. O próprio assassinato do seu filho mais velho, que se tinha entrega ás novas autoridades, e que Remexido tinha incentivado [24], levou-o ao descredito total dessa atitude governamental. Desta forma, durante dois anos errou pela serra, saltando «de aldeia em aldeia e de casa em casa, à mercê da caridade dos camponeses» [25]. O guerrilheiro explicou que a sua tomada de atitude foi tardia e contra vontade, pois, «ninguém gosta de estar longe da sua casa, as guerras cansam e inquietam (...) [26]», e ainda as ferozes perseguições que as autoridades liberais lhe lançaram ao longo desses dois anos.

  Foi no Alentejo e sobretudo no Algarve que a amnistia da Convenção de Évora Monte, aos combatentes miguelistas, foi mais desrespeitada. Muito mais do que em qualquer outra zona do pais, foi nestas duas províncias que os ajustes de contas e a violência sobre os servidores do regime miguelista, incluindo os oficiais da primeira linha  se fez sentir [27]. O terror que se instalou foi facto reconhecido pelas autoridades liberais. O próprio governador militar do Algarve salientou esta situação num relatório confidencial, enviado ao ministro da Guerra, onde referia que muitos dos oficiais amnistiados da província a tinham deixado «por medo de serem assassinados como já sucedeu a alguns deles» [28].

  A primeira linha de ação no que diz respeito ás retaliações pós convenção, foram os membros dos batalhões de voluntários liberais. Estes representavam assim, numa primeira linha, um obstáculo à desejada reconciliação, ao bem estar do povo e à confiança do governo [29]. Esta violência tinha antecedentes nas perseguições sofridas pelos liberais, quando do governo de D. Miguel, tanto por parte do estado como dos seus partidários, particularmente a partir da aclamação de D. Miguel, em 1828.  A província do Algarve foi palco de inúmeros confrontos. Em pleno regime absolutista, diversas povoações do litoral, na tentativa de revolta pelo regime constitucional,  sofreram violentos actos de retaliação. Sucederam-se os processos políticos, as capturas e confiscações aos liberais [30]

  Após a Convenção de Évora Monte, muitos dos antigos oficiais e soldados do exercito miguelistas, persistiram em conservar as suas armas, como forma de se precaverem contra a prática frequente do assassínio dos vencidos [31]. Segundo o general Zagalo, governador do Algarve até finais de 1836, «a causa originária das guerrilhas do Algarve» era as perseguições feitas aos muitos antigos oficiais e soldados do exército miguelista que, «vendo-se assassinados, nas suas camas, nas estradas, e nas praças públicas, julgaram que era melhor defender-se com armas na mão, que morrer inermes [32]».

  A maior parte das vitimas foram mortas pelas escoltas que acompanhavam os presos no trânsito para as cadeias. Sob o pretexto de quererem fugir eram assassinados . Estes factos foram reconhecidos mais tarde pelo Governo [33]. Para escaparem a esta sorte, muitos miguelistas tiveram que andar a monte. Procuravam sobreviver juntando-se em pequenos grupos, praticando pequenos roubos junto às povoações.

  Em 1835, numa altura em que o numero de fugitivos parecia reduzido e insignificante,  o brigadeiro Bernardo António Zagalo,  considerou que estes homens não eram movidos por «princípios políticos mas unicamente pelo desejo de escapar às perseguições que [tinham] sido conduzidas contra eles» [34].

  O apelo lançado por D. Miguel, em 21 de Março de 1836, levou a que Remexido e outros guerrilheiros passassem à ofensiva [35]. Essa proclamação denunciava a tirania e ferocidade do governo liberal [36]. O principal apoio que a guerrilha teve foi o das populações serranas expresso em diversos testemunhos: «estes homens [os habitantes da serra] acham-se tão ligados com eles que não é possível saber a verdade» [37]; «não é o prestigio nem a inteligência do Remexido, do Rachado, do Cabrita e outros chefes, que sustenta esta ruinosa guerra, mas sim oito mil habitantes da Serra, e outros tantos ou mais da antiga comarca de Ourique!» [38]; «não é possível acabar a guerrilha porque os moradores da serra são guerrilhas» [39]. Era assim, uma «guerra de vingança, cobiça e de extermínio» [40].

  O fervor religioso dos «montanheiros», justifica-se pelo facto do movimento rebelde se ter inicialmente apresentado, pelos seus chefes, como defensor da Religião Católica e contra um governo que o acusavam de a não respeitar. Nas suas declarações publicas «a razão religiosa» surgia habitualmente em primeiro lugar, como forma de legitimar o movimento e as suas acções. O apelo do Remexido para o apoio ao movimento era justificado perante as populações pela necessidade de «abater o colosso de impiedade que oprimia a Pátria e que estava na origem de todos os seus males» [41]. Contudo, esta articulação entre as guerrilhas e os camponeses radicava no caracter antiliberal desse movimentos e numa atitude particularista, em  relação às profundas transformações das relações sociais motivadas pelas alterações da estrutura da propriedade fundiária [42]. Este «miguelismos popular»  constituiu a luta da resistência campesina contra o processo de desagregação das comunidades rurais, levado a cabo pelos liberais, pondo em causa a sua própria composição social [43]

  A ferocidade do conflito entre liberais e absolutistas, ganhou contornos de «guerra total», porque foi colocada ao nível de luta entre o bem e o mal [44], em que a única solução possível era o extermínio completo dos inimigos.

  A pregação da «teologia da guerra», teve duas intenções: estimular as paixões políticas em volta do conflito, e a perseguição dos inimigos internos, cujo objectivo final era a sua neutralização, a qualquer custo, em nome da união de todos os portugueses e da salvação nacional. A «teologia da Guerra» encontrou nas populações dos meios rurais um terreno extremamente permeável.

  «Guerra religiosa «imaginária», a rebelião da serra foi-o sobretudo e antes de mais devido à força dos imaginários sociais que despertou» [45].

Conclusão

  Ao longo deste ensaio vimos, que tanto liberais como absolutistas cometeram os mesmos crimes em tempos diferentes. Ambos se perseguiram mutuamente e ambos opuseram  ódios, nesse desgaste que foi a passagem do Antigo Regime para o Liberalismo. Aqui denotamos a nomenclatura dos movimentos europeus que ocorreram desde os finais do séc.  XVIII, com os seus pronunciamentos, a ajuda de seitas secretas, ou melhor, organizações minoritárias de vanguarda, aproveitamento de crises (políticas, económicas e sociais) exploradas junto da plebe, tanto pela imprensa, como por sectores da sociedade (os grupos sociais dominantes), com proclamações de governos ou juntas provisionais, e claro tendo por base o absolutismo ou uma constituição. Estas levantamentos, revolucionários ou contra-revolucionários tiveram ainda a marca do internacionalismo, através das ajudas externas em termos financeiros e militares, obtidas por cada parte. 

  No entanto, a revolução liberal portuguesa, não assistiu a grandes levantamentos de camponeses, mas sim  a pequenos motins localizados, bem como a actividade de grupos de guerrilheiros.  

  Como ultimo bastião de resistência ao liberalismo surge-nos Remexido, um guerrilheiro que se apresentava nas suas acções, a partir de 1836, como «comandante em chefe do exercito em operações no Sul», nomeado por  D. Miguel. Os seus objectivos gerais, o significado das suas acções, tinham a finalidade de «mostrar aos portugueses» que chegara o tempo de «sacudir o azorrague que com tanta crueldade e despotismo» tinha «reduzido a Nação à maior das desgraças» [46]. Apresentou-se ainda como um apoiante da hostilidade do campesinato à penetração das práticas capitalistas no campo.

  Em tribunal acabou por pedir perdão para os seus «crimes», na sua última tentativa de se conciliar com a nova ordem, porém a lei não lhe permitiu recurso. Numa luta desigual Remexido não podia ter outro fim, senão sucumbir à justiça das armas do poder constituído, contrário aos seus ideais.   Do ideário político, com que iniciou a luta, passou à defesa e sobrevivência da própria vida, enfrentando até à morte, a arrogância dos vencedores, que ele desafiou.

  Morrer de armas na mão ou render-se sujeitando-se ao matadouro, eis a questão ?

  Será que perante uma contenda onde o crepitar das armas era a voz da razão, a guerra não endurece o sentido prático da vida?

  Que respeito merece o ser humano quando confrontado com a sobrevivência física que procura a cada passo ?

  Em suma, Remexido, foi uma daquelas personagens, hoje românticas, que ficou conhecida por ter estado do lado errado da Historia e ter defendido uma causa perdida. Acabou fuzilado...

  Remexido herói ou vilão ?


Bibliografia Consultada:

·      Ferreira, Maria de Fátima Sá e Melo - Formas de mobilização popular no liberalismo - o «cisma dos mónacos» e a questão dos enterros nas igrejas, in O Liberalismo na Península Ibérica na primeira metade do século XIX,  Vol. II, Lisboa, Sá da Costa Editora, 1982. Pp. 161-168.

·      Ferreira, Maria de Fátima Sá e Melo - Rebeldes e Insubmissos, resistências Populares ao Liberalismo (1834-1844), Porto, Edições Afrontamento, Biblioteca das Ciências do Homem, n.º 20, 2002, 590 pp.

·      Machado, António do Canto; Cardoso, António Monteiro - A Guerrilha do Remexido, Mem Martins, Publicações Europa-América, Estudos e Documentos n.º 175, s.d., 218 pp.

Bibliografia auxiliar:

·        Hobsbawm, Eric - A Era das Revoluções, 5ª edição., Lisboa, Editorial Presença, 2001, 336 p.

Pesquisa Bibliográfica:

·        A partir dos termos de pesquisa, «revolução» e «revoltas», trabalhamos nas bases de dados Biblos e PorBase, tendo obtido os seguintes resultados:

Biblos

[Palavras no assunto] [E] [Palavras no assunto]

AA.VV. - Revoltas e Revoluções in Revista de História das Ideias, Coimbra, VII, 2, 1985

Cascão, Rui - A Revolta de Maio de 1828 na Comarca de Coimbra. Contribuição para uma Sociologia da Revolução Liberal in Revista de História das Ideias, Coimbra, VII, 2, 1985, pp. 111-153

Feijó, Rui - A Revolta dos Pinotes. Mobilização Rural e Urbana em Viana no Tempo da Patuleia in Ler História, 2, 1983, pp. 61-82.

Machado, António do Canto ; Cardoso, António Monteiro - A Guerrilha do Remexido , Mem Martins, Europa-América, s.d.

Monteiro, Nuno Gonçalo - Forais e Regime Senhorial. Os Contrastes Regionais segundo o Inquérito de 1824 , Lisboa, 1986.

Roque, João Lourenço - Subsídios para o Estudo da «Revolta» em Portugal no Século XIX. Alguns Exemplos de Motins (e Outras Acções de Grupo) na Região de Coimbra (1840-1860) in Revista de História das Ideias, Coimbra, VII, 2, 1985, pp. 243-280.

Valente, Vasco Pulido - Os Levantamentos `Miguelistas` contra a Carta Constitucional (1826-1827) in Análise Social, Lisboa, 133, 1995, pp. 631-651.

Valente, Vasco Pulido - Os Militares e a Política (1820-1856) , Lisboa, Imprensa Nacional, 1997.

Vargues, Isabel Nobre - Insurreições e Revoltas em Portugal (1801-1851). Subsídios para uma Cronologia e Bibliografia in Revista História das Ideias, Coimbra, VII, 2, 1985, pp. 501-572.

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Machado, António do Canto ; Cardoso, António Monteiro - A Guerrilha do Remexido , Mem Martins, Europa-América, s.d.

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Machado, António do Canto ; Cardoso, António Monteiro - A Guerrilha do Remexido , Mem Martins, Europa-América, s.d.

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CHAGAS, Ofir - Remexido: guerrilheiro realista do Algarve,  [S.l.] : O. Chagas, 1997 (Torres Novas : Gráf. Almondina).

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AA.VV. - Revoltas e Revoluções in Revista de História das Ideias, Coimbra, VII, 2, 1985

Vargues, Isabel Nobre - Insurreições e Revoltas em Portugal (1801-1851). Subsídios para uma Cronologia e Bibliografia in Revista História das Ideias, Coimbra, VII, 2, 1985, pp. 501-572.

[Palavras no Assunto] [E] [Palavras no Assunto]

AA.VV. - Revoltas e Revoluções in Revista de História das Ideias, Coimbra, VII, 2, 1985

Cascão, Rui - A Revolta de Maio de 1828 na Comarca de Coimbra. Contribuição para uma Sociologia da Revolução Liberal in Revista de História das Ideias, Coimbra, VII, 2, 1985, pp. 111-153.

Feijó, Rui - A Revolta dos Pinotes. Mobilização Rural e Urbana em Viana no Tempo da Patuleia in Ler História, 2, 1983, pp. 61-82

Machado, António do Canto ; Cardoso, António Monteiro - A Guerrilha do Remexido , Mem Martins, Europa-América, s.d.

Monteiro, Nuno Gonçalo - Forais e Regime Senhorial. Os Contrastes Regionais segundo o Inquérito de 1824 , Lisboa, 1986.

Valente, Vasco Pulido - Os Levantamentos `Miguelistas` contra a Carta Constitucional (1826-1827) in Análise Social, Lisboa, 133, 1995, pp. 631-651.

Valente, Vasco Pulido - Os Militares e a Política (1820-1856) , Lisboa, Imprensa Nacional, 1997

Vargues, Isabel Nobre - Insurreições e Revoltas em Portugal (1801-1851). Subsídios para uma Cronologia e Bibliografia in Revista História das Ideias, Coimbra, VII, 2, 1985, pp. 501-572.

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AA.VV. - Revoltas e Revoluções in Revista de História das Ideias, Coimbra, VII, 2, 1985

Machado, António do Canto ; Cardoso, António Monteiro - A Guerrilha do Remexido , Mem Martins, Europa-América, s.d.

Vargues, Isabel Nobre - Insurreições e Revoltas em Portugal (1801-1851). Subsídios para uma Cronologia e Bibliografia in Revista História das Ideias, Coimbra, VII, 2, 1985, pp. 501-572.

 

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Nota:

Foi ainda produzida uma cronologia dos principais acontecimentos, elaborada em tabela, apresentando data, local e descrição do acontecimentos. Diz respeito ao período de 1820 a 1838 e teve como base a leitura os seguintes ensaios:

CHAGAS, Ofir - Remexido: guerrilheiro realista do Algarve,  [S.l.] : O. Chagas, 1997 (Torres Novas : Gráf. Almondina) 127 pp.

Ferreira, Maria de Fátima Sá e Melo - Rebeldes e Insubmissos, resistências Populares ao Liberalismo (1834-1844), Porto, Edições Afrontamento, Biblioteca das Ciências do Homem, n.º 20, 2002, 590 pp.

Machado, António do Canto; Cardoso, António Monteiro - A Guerrilha do Remexido, Mem Martins, Publicações Europa-América, Estudos e Documentos n.º 175, s.d., 218 pp.


[1] O barrocal era a área do interior algarvio com uma economia agrícola, onde se tornava muito rentável a arbicultura, onde se destacavam as figueiras, alfarrobeiras, amendoeiras e oliveiras. Cf. Ferreira, Maria de Fátima Sá e Melo, A «guerra» das duas províncias do Sul, In Rebeldes e Insubmissos, resistências Populares ao Liberalismo (1834-1844), Porto, Edições Afrontamento, Biblioteca das Ciências do Homem, n.º 20, 2002, p. 267.

[2] Cf. Machado, António do Canto; Cardoso, António Monteiro - A Guerrilha do Remexido, Mem Martins, Publicações Europa-América, Estudos e Documentos n.º 175, s.d., p. 13.

[3] Passim.

[4] Anónimo, Biografia do Remexido, Lisboa, 1838, p.7, cit. Machado, António do Canto; Cardoso, António Monteiro - op. cit., p. 13.

[5] Passim.

[6] «Sessão do conselho de guerra feito ao chefe de guerrilhas José Joaquim de Sousa Reis, Remexido, no n.º 1 de Agosto de 1838, no edifício da Misericórdia da Cidade de Faro no reino do Algarve», extraído do «Periódico dos Pobres», n.º 187, de Coimbra, de 1838, cit. Machado, António do Canto; Cardoso, António Monteiro - op. cit., p. 183 (Documento n.º 54).

[7] Cf. Ferreira, Maria de Fátima Sá e Melo, op. cit, p. 264.

[8] Cf. id., ib.,, p. 263.

[9] Cf. Machado, António do Canto; Cardoso António Monteiro, op. cit., p. 19.

[10] Passim.

[11] Cf. id., Ib., p. 20.

[12] Cf. id., ib., p. 21.

[13]Cf. id., ib., p. 27.

[14] Anónimo - Memórias de Um Preso Emigrado pela Usurpação de D. Miguel, Lisboa, 1845, p. 233, cit. Machado, por António do Canto; Cardoso António Monteiro, op. cit.,  p. 21.

[15] Cf. id. Ib., p. 28.

[16] Cf. id. Ib., p. 25.

[17] Cf. id. Ib., p. 22.

[18] Cf. id. Ib., p. 35.

[19] Cf. id. Ib., p. 35.

[20] Anónimo, Journal du Corps de Tirailleurs Belges, commandé par le lieutenant Lecharlier, au service du Portugal, Bruxelas, pp. 3-4, id. Ib., pp. 36-37.

[21] «Senhores, sempre pensei que a principal obrigação do homem é a obediência, e sempre pensei, consistir a obediência, em obedecer ás authoridades, por aquelle governo, que de facto, ou de direito tivesse em seu poder o destino da nação», «Sessão do conselho de guerra», Machado, António do Canto; Cardoso António Monteiro, op. cit., p. 185 (Documento n.º 54).

[22] «Sessão do conselho de guerra», id., Ib., pp. 183-187 (Documento n.º 54).

[23] «eu obedeci, e principiei a querer obedecer ao actual governo da Senhora D. Maria II, porque recebendo a declaração da cessação das hostilidades, eu dissolvi a força que comandava; e querendo eu obedecer, nem de facto nem de direito me deixarão obedecer, de direito porque consistia em assinar um auto, que não assignei; de facto, porque logo que a força se dissolveo, me perseguirão; [...] não me deixaram obedecer nunca» . «Sessão do conselho de guerra», id., ib., p. 185.

[24] «para prova de que eu quiz obedecer, é que no dia 30 de Maio de 1834, fiz marchar meu filho, dizendo-lhe tu és uma criança, ninguém te poderá criminar de crime algum, [...] se tu fores bem tratado, eu então também vou», «Sessão do conselho de guerra», passim.

[25] Ferreira, Maria de Fátima Sá e Melo, op. cit., p. 269.

[26] «Sessão do conselho de guerra», Machado, António do Canto; Cardoso António Monteiro, op. cit., p. 186 (Documento n.º 54).

[27] Cf. Ferreira, Maria de Fátima Sá e Melo, op.cit., p. 270.

[28] Passim.

[29] Id., ib., p. 271.

[30] Id., ib., p. 272.

[31] Cf. Machado, António do Canto; Cardoso, António Monteiro, op. cit., p. 59.

[32]  Discurso do General Bernardo António Zagalo na sessão de 27 de Fevereiro de 1839 da Câmara dos Deputados, in O Eco, n.º 355, de 19 de Março de 1839, Cf. id., ib., p. 59.

[33] Passim.

[34] A.H.M., 1ª div., 21ª sec., cx. 13, mç. 1, Ferreira, Maria de Fátima Sá e Melo, op. cit., p. 275.

[35] D. Miguel legitimou um levantamento armado sob o comando de chefes autorizados para tal, com a intenção de acabar com a «horda infame de assassinos e ímpios incorrigíveis». Cf. Machado, António do Canto; Cardoso, António Monteiro, op. cit., p. 113.

[36] O partido miguelista na sua análise ao governo liberal repudiava os atentados à religião, a perseguição dos seus apaniguados, a corrupção dos chefes liberais e a desastrosa política de empréstimos externos. Id., ib., p. 112. Veja-se ainda cópia da proclamação de D. Miguel apreendida em Tavira, Id., ib., pp. 133-134.

[37] Intervenção do deputado Barjona de Freitas na sessão de 27 de Janeiro de 1837, in Diario do Governo, n.º 25, de 30 de Janeiro de 1837, Machado, António do Canto; Cardoso, António Monteiro, op. cit., p. 87.

[38] O tempo, n.º 232, de 8 de Novembro de 1838, id., ib., p. 87.

[39] O tempo, n.º 333, de 14 de Março de 1839. id., ib., p. 87.

[40] Diário do Governo, n.º 287, 4 de Dezembro de 1838, Machado, António do Canto; Cardoso, António Monteiro, op. cit., p. 90.

[41] Proclamação de Remexido em 21 de Novembro de 1837: «O nome de Deus blasfemado nas praças e cidades e povoações de Portugal, seus Templos profanados, seus Altares demolidos e despedaçadas com furor herético as Sagradas Imagens (...) desprezado o Supremo Pastor da Igreja, destruídos os Mandamentos da mesma, as Religiões extintas e atacados os principais dogmas da nossa Fé». Machado, António do Canto; Cardoso, António Monteiro, op. cit., p. 139 (Documento n.º 10).

[42] Cf. Ferreira, Maria de Fátima Sá e Melo - Formas de mobilização popular no liberalismo - o «cisma dos mónacos» e a questão dos enterros nas igrejas, in O Liberalismo na Península Ibérica na primeira metade do século XIX,  Vol. II, Lisboa, Sá da Costa Editora, 1982, p. 161.

[43] Ferreira, Maria de Fátima Sá e Melo, op. cit., p. 161.

[44] Esta luta entre o bem e o mal espelha-se em alguns sermões registados nas memórias de um médico veneziano instalado em Faro. Vejamos essa violência verbal: «12 de Novembro - (...) O cónego Reitor Santos em um sermão que se fez na Igreja do Colégio vociferou muito contra os malhados e entre as coisas relevantes que disse, notou-se o seguinte: "Matar, matar esses hereges, esses pedreiros livres, esses malhados, não tenhais medo. Eu que sou vosso Pastor vos desejo isso da parte do Senhor. Pensai vós que cometeis algum pecado ? Bem longe disso é obra meritória"», Memórias sobre a aclamação do Infante D. Miguel em Faro. O diário de Lázaro Doglioni, V. R. de Santo António, 1991, p. 195.  Ferreira, Maria de Fátima Sá e Melo, Rebeldes e Insubmissos, p . 352.

[45] Id., ib., p. 360

[46] Referia-se assim, aos «assassinatos sem número, na profanação dos templos, no despedaçar das imagens sagradas e mesmo na blasfémia contra a divindade» e «restabelecer a paz e a ordem e restituir a Portugal a Santa Religião Católica Romana no esplendor e integridade em que os nossos pais a adoraram e mantiveram», Ministério do Reino, 4ª Repartição, pasta 67, id., ib., pp. 281 e 282.

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