A GUERRILHA DO REMEXIDO - HERÓIS OU VILÕES
Introdução
Antes de assumirmos a nossa atitude como
investigadores, não quisemos esconder a paixão que criou a leitura das obras e
documentos sobre esta história de «bons e maus». Não esqueçamos que, se a
História é feita pelos homens, também é escrita por eles. Porque o historiador
tem sentimentos, não se pode querer, que apesar do rigor, cultivando a isenção,
num dado momento sejamos alheios e frios ao que aconteceu. Como se não fossem
humanos os sacrifícios, as tragédias, os crimes, as dores, e os heroísmos ?
O responsável desse nosso comportamento foi
José Joaquim de Sousa Reis, o Remexido,
herói romântico, que tudo sacrificou em nome de D. Miguel. No seu
julgamento final, teve a condená-lo, o facto de haver defendido uma causa que
tinha saído derrotada.
Através das leituras que fizemos, percorremos
com ele e seus guerrilheiros a serra, desde o sul do Alentejo, passando pelo
barrocal [1] até
ao litoral algarvio. Fomos políticos, soldados, idealistas, guerrilheiros,
bandoleiros, e «montanheiros», cometendo os mesmos excessos. Mas também fomos
militares em nome da Rainha, procurando a pacificação das populações a extinção
da guerrilha e sobretudo a captura do seu caudilho.
Mas esta história de guerra e paixões entre o
herói dos «montanheiros» e os «senhores de Lisboa», trouxeram-nos o imaginário
de figuras como exemplo de lenitivo de injustiças sociais, por roubarem aos
ricos para distribuírem aos pobres, que numa luta desigual lutaram por um
propósito que consideravam de grande nobreza.
Esta história é no fundo o relato de uma
guerra civil que se estendeu em Portugal, no Séc. XIX, por mais de uma década,
que moveu paixões em todas as regiões, e em que todo o sistema e malha social
se viu afectado e alterado.
Procuramos fazer deste ensaio, uma leitura das causas que levou ao aparecimento do movimento guerrilheiro do sul, na figura do seu comandante, figura tão carismática na sua época, que preocupou a Rainha, o Governo e teve de enfrentar, com um punhado de homens, grande parte do Exército Português.
Origem do Remexido
José Joaquim de Sousa Reis nasceu em Estômbar
no ano de 1796. Filho de um lavrador honrado, aos sete anos perdeu o pai, sendo
educado por seu tio, o prior de Alcantarilha. Aos catorze anos entrou para o
Seminário de Faro, onde estudou e recebeu ordens menores. Após seis anos, foi
excepcionalmente autorizado a pregar. Contudo, a sua carreira eclesiástica
terminou no seu casamento com a sobrinha de um capitão de ordenanças,
proprietário e gente de família distinta.
Fixando casa em S. Bartolomeu de Messines,
José Reis, passou a tomar parte nos negócios da mulher e do seu tio, sendo
arrendatário de dízimos. A sua formação religiosa e a ligação às instituições
económicas do antigo regime muito terão contribuído para sua a tomada de
decisão em favor do absolutismo [2].
Deslocava-se pessoalmente com os criados para efectuar as cobranças. Estas
caminhadas, permitiram-lhe obter um grande conhecimento da região que mais
tarde lhe viria a ser de grande utilidade, para escapar às perseguições que o
exército lhe iria mover [3].
Em S. Bartolomeu, José Reis, preocupou-se em
efectuar melhorias para o beneficio das populações locais. As diligências que
efetuou para a construção de uma escola de primeiras letras, um forno público
e a autorização para a realização de uma
feira, fê-lo ganhar «a estima e veneração daqueles povos» [4]. A sua situação social, de abastado lavrador,
e o interesse pelos problemas da terra, proporcionou-lhe a eleição a juiz de
vintena, após a revolução de 1820.
Em 1823 a influência do movimento encetado
por aqueles que se recusavam a aceitar o liberalismo, chegou também ao Algarve.
José Reis, como toda a gente nesta época, viu-se envolvido por esta questão
política. Contudo, talvez motivado pelos princípios religiosos da sua
adolescência e de um sentimento conservador resultante da sua união
matrimonial, tenha pendido para o lado do príncipe D. Miguel.
Em 1824 foi nomeado alferes de ordenanças e
em 1831 capitão de milícias. Porém, em 1832, quando o Visconde de Molellos foi
nomeado general comandante das forças miguelistas no Algarve, procurou
reorganizar os efetivos da província, sendo convidado para o comando dos
terços de ordenanças do termo de Silves. Assim, deu início à sua verdadeira
carreira militar e à luta civil que durante cerca de sete anos, assolou a
região algarvia, distinguindo-se como comandante de guerrilhas.
Não se apresentando para gozar da amnistia
concedida pela Convenção de Évora-Monte em 1834, perseguido pelos miguelistas,
levou uma vida errante pela serra até Agosto de 1836. Então, juntamente com um
pequeno grupo de miguelistas perseguidos, decidiu reactivar as guerrilhas dando
lugar a uma luta sem precedentes na história da região e que incomodou «os políticos de Lisboa».
Feito prisioneiro em 28 de Julho de 1838, na Portela da Corte das Velhas, foi levado a conselho de guerra, em Faro, tendo sido condenado e passado pelas armas. «A sua tenacidade, astúcia e valor militar não sofreram contestação mesmo dos mais acérrimos inimigos» [5]. A sua acção valeu-lhe um reconhecimento publico, que se observam nas palavras proferidas no seu julgamento por Fontoura: «Um homem [...] que se constitue chefe de uma facção, e que chega a tomar um nome na história portugueza, ...» [6]. A grande popularidade que ele atingiu, deveu-se à excepcional atenção que o poder atribui ao movimento dos guerrilheiros do Sul [7]. O julgamento publico acabou por o singularizar e distinguir do conjunto dos outros chefes guerrilheiros do pós-guerra [8].
Uma Guerrilha ao lado do poder
O Algarve foi palco de duas sublevações de
sentimentos contrários: o levantamento absolutista de 1826 e a revolta liberal
de 1828. Em 1826-1827, o partido miguelista dispunha de importantes apoios, que
se traduziram na participação de numerosas guerrilhas. Para além deste apoio,
contava com uma forte adesão das autoridades civis e militares, importantes na
contenção às punições ordenadas pelo governo liberal [9].
Os manejos políticos, através de uma campanha
dos partidários miguelistas, empreendida nos jornais e proclamações
«incendiárias», levaram ao regresso de D. Miguel e à modificação da conjuntura
política, conduzindo à restauração do absolutismo [10].
Como forma de contrariar esta situação
desfavorável os liberais, tentaram inverter esta tendência, em 1828, através de
um movimento insurrecional, com centro na cidade do Porto. O eco desta revolta estendeu-se também ao
Algarve, onde em 24 de Maio de 1828, encorajou um grupo de oficiais a
desencadear um movimento «a favor da Carta e
da Legitimidade», apoiados ainda pelos
«negociantes e proprietários, uma boa parte do clero e dos empregados
públicos» [11].
Estes liberais abastados, sem uma adesão unanime por parte dos militares e de
costas voltadas para as camadas populares, foram incapazes de criar adeptos que
aderissem à sua causa. Sempre se abstiveram de fazer qualquer proclamação «que
excitasse os espíritos e dirigisse a opinião pública» [12].
O isolamento dessa classe de abastados, em
relação às camadas populares foi aproveitado pelos partidários do absolutismo.
O contraste entre a miséria de uma plebe rural e urbana, foi sublinhado pelos
miguelistas, sabendo colocar ao rubro o ódio dos pobres contra os ricos
burgueses, acusados de serem os inimigos do trono e do altar e do estado de
miséria que o pais vivia [13]. Os miguelistas procuraram conquistar a adesão
dos soldados e mobilizar os camponeses, levando-os a descer às cidades. Para
tal se encarregaram os frades do Convento dos Carmelitas Descalços de Faro,
incitando os camponeses a «correrem imediatamente à cidade ao sinal do toque de
rebate no sino do relógio da igreja [...], a fim de destruir os inimigos do
throno, e do altar» [14].
Esse levantamento popular, acabou por encorajar muitos soldados a combater a
revolta liberal.
Em 18 de Julho de 1833, os miguelistas
apoiados pelo campesinato passaram ao ataque. Comandados por um quadro de
oficiais do exercito e de ordenanças, organizaram-se em duas «guerrilhas
realistas», uma chefiada pelo capitão de ordenanças Remexido, actuando na zona
ocidental do Algarve e a outra, sob o comando do Major André Camacho, que tinha
a seu cargo a parte oriental [15].
A solidariedade e a capacidade de mobilização
por parte dos miguelistas foi de tal ordem que, logo as guerrilhas desceram da
montanha, «os povos em massa se reuniram armados de espingardas e piques» e
atacaram as cidades e povoações do litoral algarvio. Estes ataques eram
dirigidos a uma classe média prospera e politicamente militante, organizada
entorno da loja maçónica Filantropia a Oriente de Lagos [16].
Somente Faro, Olhão e Lagos resistiram.
A derrota da sublevação liberal, levou à
ocorrência de uma onda de violentos tumultos.
Os povos das cidades e dos campos, «homens da mais vil condição», «rotos
esfaimados, só amigos do sangue e da pilhagem», em perseguição dos liberais,
acometeram-se de uma violenta ferocidade [17]. Ao
mesmo tempo dos desacatos e pilhagens da plebe, ocorreu uma vaga de detenções
sobre oficiais e civis implicados na sublevação liberal.
A indisciplina e a incapacidade de controlar os guerrilheiros por parte das chefias, levou ao descambo do movimento numa violência atroz. Desencadeava-se a matança, com o pretexto político e religioso da «defesa do trono e altar». Esta era a forma de acender os ódios contra os mais abastados. A indisciplina, pusilanimidade e o caracter espontâneo dos guerrilheiros, evidenciava a sua falta de convicções políticas [18]. A falta de enquadramento militar levou a que em 1833-34, aqueles se lançassem desordenadamente no saque dos ricos [19]. «As guerrilhas eram fortes pelo seu número, fanatismo, expectativa de pilhagem e, sobretudo, pelas montanhas, que lhes ofereciam retiradas seguras e inacessíveis em caso de necessidade. Pilhavam, destruíam e incendiavam as propriedades dos inimigos suspeitos de liberalismo, e se esses infelizes não conseguiam salvar-se a tempo, eram massacrados sem piedade. Era a guerra dos camponeses contra as cidades [...] [20]».
Uma Guerrilha contra o poder
Em Conselho de Guerra, Remexido respondeu
pela sua conduta. Nas suas primeiras declarações apresenta-nos a «obediência»
como um dos princípios que justificaram a sua acção [21]. Na
sua exposição começou por referir as diversas facetas dessa obediência desde o
levantamento de 1820, sendo seu desejo mostrar que não tinha levantado
guerrilha, e que tinha cumprido ordens [22]. Mas
se até à Convenção de Évora Monte tudo estava perdoado, e provada a sua
obediência ao governo de então, faltava agora explicar os anos seguintes.
Quando Fontoura lhe perguntou o motivo da sua
desobediência ao governo de D. Maria II, respondeu-lhe que não lhe ter sido
permitido cumprir tal obediência [23].
Os processos de rendição efetuados por
companheiros seus após a Convenção de Évora-Monte, em que muitos foram mortos,
levou-o a esconder-se para sua proteção. O próprio assassinato do seu filho
mais velho, que se tinha entrega ás novas autoridades, e que Remexido tinha
incentivado [24],
levou-o ao descredito total dessa atitude governamental. Desta forma, durante
dois anos errou pela serra, saltando «de aldeia em aldeia e de casa em casa, à
mercê da caridade dos camponeses» [25]. O
guerrilheiro explicou que a sua tomada de atitude foi tardia e contra vontade,
pois, «ninguém gosta de estar longe da sua casa, as guerras cansam e inquietam
(...) [26]», e
ainda as ferozes perseguições que as autoridades liberais lhe lançaram ao longo
desses dois anos.
Foi no Alentejo e sobretudo no Algarve que a
amnistia da Convenção de Évora Monte, aos combatentes miguelistas, foi mais
desrespeitada. Muito mais do que em qualquer outra zona do pais, foi nestas
duas províncias que os ajustes de contas e a violência sobre os servidores do
regime miguelista, incluindo os oficiais da primeira linha se fez sentir [27]. O
terror que se instalou foi facto reconhecido pelas autoridades liberais. O
próprio governador militar do Algarve salientou esta situação num relatório
confidencial, enviado ao ministro da Guerra, onde referia que muitos dos
oficiais amnistiados da província a tinham deixado «por medo de serem
assassinados como já sucedeu a alguns deles» [28].
A primeira linha de ação no que diz respeito
ás retaliações pós convenção, foram os membros dos batalhões de voluntários
liberais. Estes representavam assim, numa primeira linha, um obstáculo à
desejada reconciliação, ao bem estar do povo e à confiança do governo [29].
Esta violência tinha antecedentes nas perseguições sofridas pelos liberais,
quando do governo de D. Miguel, tanto por parte do estado como dos seus
partidários, particularmente a partir da aclamação de D. Miguel, em 1828. A província do Algarve foi palco de inúmeros
confrontos. Em pleno regime absolutista, diversas povoações do litoral, na
tentativa de revolta pelo regime constitucional, sofreram violentos actos de retaliação.
Sucederam-se os processos políticos, as capturas e confiscações aos liberais [30].
Após a Convenção de Évora Monte, muitos dos
antigos oficiais e soldados do exercito miguelistas, persistiram em conservar
as suas armas, como forma de se precaverem contra a prática frequente do
assassínio dos vencidos [31].
Segundo o general Zagalo, governador do Algarve até finais de 1836, «a causa
originária das guerrilhas do Algarve» era as perseguições feitas aos muitos
antigos oficiais e soldados do exército miguelista que, «vendo-se assassinados,
nas suas camas, nas estradas, e nas praças públicas, julgaram que era melhor
defender-se com armas na mão, que morrer inermes [32]».
A maior parte das vitimas foram mortas pelas
escoltas que acompanhavam os presos no trânsito para as cadeias. Sob o pretexto
de quererem fugir eram assassinados . Estes factos foram reconhecidos mais
tarde pelo Governo [33].
Para escaparem a esta sorte, muitos miguelistas tiveram que andar a monte.
Procuravam sobreviver juntando-se em pequenos grupos, praticando pequenos
roubos junto às povoações.
Em 1835, numa altura em que o numero de
fugitivos parecia reduzido e insignificante,
o brigadeiro Bernardo António Zagalo,
considerou que estes homens não eram movidos por «princípios políticos
mas unicamente pelo desejo de escapar às perseguições que [tinham] sido
conduzidas contra eles» [34].
O apelo lançado por D. Miguel, em 21 de Março
de 1836, levou a que Remexido e outros guerrilheiros passassem à ofensiva [35].
Essa proclamação denunciava a tirania e ferocidade do governo liberal [36]. O
principal apoio que a guerrilha teve foi o das populações serranas expresso em
diversos testemunhos: «estes homens [os habitantes da serra] acham-se tão
ligados com eles que não é possível saber a verdade» [37];
«não é o prestigio nem a inteligência do Remexido, do Rachado, do Cabrita e
outros chefes, que sustenta esta ruinosa guerra, mas sim oito mil habitantes da
Serra, e outros tantos ou mais da antiga comarca de Ourique!» [38];
«não é possível acabar a guerrilha porque os moradores da serra são guerrilhas»
[39]. Era
assim, uma «guerra de vingança, cobiça e de extermínio» [40].
O fervor religioso dos «montanheiros»,
justifica-se pelo facto do movimento rebelde se ter inicialmente apresentado,
pelos seus chefes, como defensor da Religião Católica e contra um governo que o
acusavam de a não respeitar. Nas suas declarações publicas «a razão religiosa»
surgia habitualmente em primeiro lugar, como forma de legitimar o movimento e
as suas acções. O apelo do Remexido para o apoio ao movimento era justificado
perante as populações pela necessidade de «abater o colosso de impiedade que oprimia
a Pátria e que estava na origem de todos os seus males» [41].
Contudo, esta articulação entre as guerrilhas e os camponeses radicava no
caracter antiliberal desse movimentos e numa atitude particularista, em relação às profundas transformações das
relações sociais motivadas pelas alterações da estrutura da propriedade
fundiária [42].
Este «miguelismos popular» constituiu a
luta da resistência campesina contra o processo de desagregação das comunidades
rurais, levado a cabo pelos liberais, pondo em causa a sua própria composição
social [43].
A ferocidade do conflito entre liberais e
absolutistas, ganhou contornos de «guerra total», porque foi colocada ao nível
de luta entre o bem e o mal [44], em
que a única solução possível era o extermínio completo dos inimigos.
A pregação da «teologia da guerra», teve duas
intenções: estimular as paixões políticas em volta do conflito, e a perseguição
dos inimigos internos, cujo objectivo final era a sua neutralização, a qualquer
custo, em nome da união de todos os portugueses e da salvação nacional. A
«teologia da Guerra» encontrou nas populações dos meios rurais um terreno
extremamente permeável.
«Guerra religiosa «imaginária», a rebelião da serra foi-o sobretudo e antes de mais devido à força dos imaginários sociais que despertou» [45].
Conclusão
Ao longo deste ensaio vimos, que tanto
liberais como absolutistas cometeram os mesmos crimes em tempos diferentes.
Ambos se perseguiram mutuamente e ambos opuseram ódios, nesse desgaste que foi a passagem do
Antigo Regime para o Liberalismo. Aqui denotamos a nomenclatura dos movimentos
europeus que ocorreram desde os finais do séc.
XVIII, com os seus pronunciamentos, a ajuda de seitas secretas, ou
melhor, organizações minoritárias de vanguarda, aproveitamento de crises
(políticas, económicas e sociais) exploradas junto da plebe, tanto pela
imprensa, como por sectores da sociedade (os grupos sociais dominantes), com
proclamações de governos ou juntas provisionais, e claro tendo por base o
absolutismo ou uma constituição. Estas levantamentos, revolucionários ou
contra-revolucionários tiveram ainda a marca do internacionalismo, através das
ajudas externas em termos financeiros e militares, obtidas por cada parte.
No entanto, a revolução liberal portuguesa,
não assistiu a grandes levantamentos de camponeses, mas sim a pequenos motins localizados, bem como a
actividade de grupos de guerrilheiros.
Como ultimo bastião de resistência ao
liberalismo surge-nos Remexido, um guerrilheiro que se apresentava nas suas
acções, a partir de 1836, como «comandante em chefe do exercito em operações no
Sul», nomeado por D. Miguel. Os seus
objectivos gerais, o significado das suas acções, tinham a finalidade de
«mostrar aos portugueses» que chegara o tempo de «sacudir o azorrague que com
tanta crueldade e despotismo» tinha «reduzido a Nação à maior das desgraças» [46].
Apresentou-se ainda como um apoiante da hostilidade do campesinato à penetração
das práticas capitalistas no campo.
Em tribunal acabou por pedir perdão para os
seus «crimes», na sua última tentativa de se conciliar com a nova ordem, porém
a lei não lhe permitiu recurso. Numa luta desigual Remexido não podia ter outro
fim, senão sucumbir à justiça das armas do poder constituído, contrário aos
seus ideais. Do ideário político, com
que iniciou a luta, passou à defesa e sobrevivência da própria vida,
enfrentando até à morte, a arrogância dos vencedores, que ele desafiou.
Morrer de armas na mão ou render-se
sujeitando-se ao matadouro, eis a questão ?
Será que perante uma contenda onde o crepitar
das armas era a voz da razão, a guerra não endurece o sentido prático da vida?
Que respeito merece o ser humano quando
confrontado com a sobrevivência física que procura a cada passo ?
Em suma, Remexido, foi uma daquelas
personagens, hoje românticas, que ficou conhecida por ter estado do lado errado
da Historia e ter defendido uma causa perdida. Acabou fuzilado...
Remexido herói ou vilão ?
Bibliografia Consultada:
· Ferreira, Maria de Fátima Sá e Melo - Formas de mobilização popular no liberalismo - o «cisma dos mónacos» e a questão dos enterros nas igrejas, in O Liberalismo na Península Ibérica na primeira metade do século XIX, Vol. II, Lisboa, Sá da Costa Editora, 1982. Pp. 161-168.
· Ferreira, Maria de Fátima Sá e Melo - Rebeldes e Insubmissos, resistências Populares ao Liberalismo (1834-1844), Porto, Edições Afrontamento, Biblioteca das Ciências do Homem, n.º 20, 2002, 590 pp.
· Machado, António do Canto; Cardoso, António Monteiro - A Guerrilha do Remexido, Mem Martins, Publicações Europa-América, Estudos e Documentos n.º 175, s.d., 218 pp.
Bibliografia auxiliar:
· Hobsbawm, Eric - A Era das Revoluções, 5ª edição., Lisboa, Editorial Presença, 2001, 336 p.
Pesquisa Bibliográfica:
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Biblos
[Palavras no assunto] [E] [Palavras no assunto]
AA.VV. - Revoltas e Revoluções in Revista de História das Ideias, Coimbra, VII, 2, 1985
Cascão, Rui - A Revolta de Maio de 1828 na Comarca de Coimbra. Contribuição para uma Sociologia da Revolução Liberal in Revista de História das Ideias, Coimbra, VII, 2, 1985, pp. 111-153
Feijó, Rui - A Revolta dos Pinotes. Mobilização Rural e Urbana em Viana no Tempo da Patuleia in Ler História, 2, 1983, pp. 61-82.
Machado, António do Canto ; Cardoso, António Monteiro - A Guerrilha do Remexido , Mem Martins, Europa-América, s.d.
Monteiro, Nuno Gonçalo - Forais e Regime Senhorial. Os Contrastes Regionais segundo o Inquérito de 1824 , Lisboa, 1986.
Roque, João Lourenço - Subsídios para o Estudo da «Revolta» em Portugal no Século XIX. Alguns Exemplos de Motins (e Outras Acções de Grupo) na Região de Coimbra (1840-1860) in Revista de História das Ideias, Coimbra, VII, 2, 1985, pp. 243-280.
Valente, Vasco Pulido - Os Levantamentos `Miguelistas` contra a Carta Constitucional (1826-1827) in Análise Social, Lisboa, 133, 1995, pp. 631-651.
Valente, Vasco Pulido - Os Militares e a Política (1820-1856) , Lisboa, Imprensa Nacional, 1997.
Vargues, Isabel Nobre - Insurreições e Revoltas em Portugal (1801-1851). Subsídios para uma Cronologia e Bibliografia in Revista História das Ideias, Coimbra, VII, 2, 1985, pp. 501-572.
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CHAGAS, Ofir - Remexido: guerrilheiro realista do Algarve, [S.l.] : O. Chagas, 1997 (Torres Novas : Gráf. Almondina).
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AA.VV. - Revoltas e Revoluções in Revista de História das Ideias, Coimbra, VII, 2, 1985
Vargues, Isabel Nobre - Insurreições e Revoltas em Portugal (1801-1851). Subsídios para uma Cronologia e Bibliografia in Revista História das Ideias, Coimbra, VII, 2, 1985, pp. 501-572.
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AA.VV. - Revoltas e Revoluções in Revista de História das Ideias, Coimbra, VII, 2, 1985
Cascão, Rui - A Revolta de Maio de 1828 na Comarca de Coimbra. Contribuição para uma Sociologia da Revolução Liberal in Revista de História das Ideias, Coimbra, VII, 2, 1985, pp. 111-153.
Feijó, Rui - A Revolta dos Pinotes. Mobilização Rural e Urbana em Viana no Tempo da Patuleia in Ler História, 2, 1983, pp. 61-82
Machado, António do Canto ; Cardoso, António Monteiro - A Guerrilha do Remexido , Mem Martins, Europa-América, s.d.
Monteiro, Nuno Gonçalo - Forais e Regime Senhorial. Os Contrastes Regionais segundo o Inquérito de 1824 , Lisboa, 1986.
Valente, Vasco Pulido - Os Levantamentos `Miguelistas` contra a Carta Constitucional (1826-1827) in Análise Social, Lisboa, 133, 1995, pp. 631-651.
Valente, Vasco Pulido - Os Militares e a Política (1820-1856) , Lisboa, Imprensa Nacional, 1997
Vargues, Isabel Nobre - Insurreições e Revoltas em Portugal (1801-1851). Subsídios para uma Cronologia e Bibliografia in Revista História das Ideias, Coimbra, VII, 2, 1985, pp. 501-572.
[Palavras no Titulo] [E] [Palavras no Titulo]
AA.VV. - Revoltas e Revoluções in Revista de História das Ideias, Coimbra, VII, 2, 1985
Machado, António do Canto ; Cardoso, António Monteiro - A Guerrilha do Remexido , Mem Martins, Europa-América, s.d.
Vargues, Isabel
Nobre -
Insurreições e Revoltas em Portugal (1801-1851). Subsídios para uma Cronologia
e Bibliografia in Revista História das
Ideias, Coimbra, VII, 2, 1985, pp. 501-572.
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Nota:
Foi ainda produzida uma cronologia dos principais acontecimentos, elaborada em tabela, apresentando data, local e descrição do acontecimentos. Diz respeito ao período de 1820 a 1838 e teve como base a leitura os seguintes ensaios:
CHAGAS, Ofir - Remexido: guerrilheiro realista do Algarve, [S.l.] : O. Chagas, 1997 (Torres Novas : Gráf. Almondina) 127 pp.
Ferreira, Maria de Fátima Sá e Melo - Rebeldes e Insubmissos, resistências Populares ao Liberalismo (1834-1844), Porto, Edições Afrontamento, Biblioteca das Ciências do Homem, n.º 20, 2002, 590 pp.
Machado, António do Canto; Cardoso, António Monteiro - A Guerrilha do Remexido, Mem Martins, Publicações Europa-América, Estudos e Documentos n.º 175, s.d., 218 pp.
[1] O barrocal era a área do interior
algarvio com uma economia agrícola, onde se tornava muito rentável a
arbicultura, onde se destacavam as figueiras, alfarrobeiras, amendoeiras e
oliveiras. Cf. Ferreira, Maria de Fátima Sá e Melo, A «guerra» das duas províncias
do Sul, In Rebeldes e Insubmissos,
resistências Populares ao Liberalismo (1834-1844), Porto, Edições
Afrontamento, Biblioteca das Ciências do Homem, n.º 20, 2002, p. 267.
[2] Cf. Machado, António do Canto;
Cardoso, António Monteiro - A Guerrilha
do Remexido, Mem Martins, Publicações Europa-América, Estudos e Documentos
n.º 175, s.d., p. 13.
[3] Passim.
[4] Anónimo, Biografia do Remexido, Lisboa, 1838, p.7, cit. Machado, António do Canto; Cardoso, António Monteiro - op. cit., p. 13.
[5] Passim.
[6] «Sessão do conselho de guerra feito ao
chefe de guerrilhas José Joaquim de Sousa Reis, Remexido, no n.º 1 de Agosto de
1838, no edifício da Misericórdia da Cidade de Faro no reino do Algarve»,
extraído do «Periódico dos Pobres»,
n.º 187, de Coimbra, de 1838, cit.
Machado, António do Canto; Cardoso, António Monteiro - op. cit., p. 183 (Documento n.º 54).
[7] Cf. Ferreira, Maria de Fátima Sá e
Melo, op. cit, p. 264.
[8] Cf. id., ib.,, p. 263.
[9] Cf. Machado, António do Canto; Cardoso
António Monteiro, op. cit., p. 19.
[10] Passim.
[11] Cf. id., Ib., p. 20.
[12] Cf. id., ib., p. 21.
[13]Cf. id., ib., p. 27.
[14] Anónimo - Memórias de Um Preso Emigrado pela Usurpação de D. Miguel, Lisboa,
1845, p. 233, cit. Machado, por
António do Canto; Cardoso António Monteiro, op.
cit., p. 21.
[15] Cf. id. Ib., p. 28.
[16] Cf. id. Ib., p. 25.
[17] Cf. id. Ib., p. 22.
[18] Cf. id. Ib., p. 35.
[19] Cf. id. Ib., p. 35.
[20] Anónimo, Journal du Corps de Tirailleurs Belges, commandé par le lieutenant
Lecharlier, au service du Portugal, Bruxelas, pp. 3-4, id. Ib., pp. 36-37.
[21] «Senhores, sempre pensei que a
principal obrigação do homem é a obediência, e sempre pensei, consistir a
obediência, em obedecer ás authoridades, por aquelle governo, que de facto, ou
de direito tivesse em seu poder o destino da nação», «Sessão do conselho de
guerra», Machado, António do Canto; Cardoso António Monteiro, op. cit., p. 185 (Documento n.º 54).
[22] «Sessão do conselho de guerra», id., Ib., pp. 183-187 (Documento n.º 54).
[23] «eu obedeci, e principiei a querer
obedecer ao actual governo da Senhora D. Maria II, porque recebendo a
declaração da cessação das hostilidades, eu dissolvi a força que comandava; e
querendo eu obedecer, nem de facto nem de direito me deixarão obedecer, de
direito porque consistia em assinar um auto, que não assignei; de facto, porque
logo que a força se dissolveo, me perseguirão; [...] não me deixaram obedecer
nunca» . «Sessão do conselho de guerra», id., ib., p. 185.
[24] «para prova de que eu quiz obedecer, é
que no dia 30 de Maio de 1834, fiz marchar meu filho, dizendo-lhe tu és uma
criança, ninguém te poderá criminar de crime algum, [...] se tu fores bem
tratado, eu então também vou», «Sessão do conselho de guerra», passim.
[25] Ferreira, Maria de Fátima Sá e Melo, op. cit., p. 269.
[26] «Sessão do conselho de guerra»,
Machado, António do Canto; Cardoso António Monteiro, op. cit., p. 186 (Documento n.º 54).
[27] Cf. Ferreira, Maria de Fátima Sá e
Melo, op.cit., p. 270.
[28] Passim.
[29] Id., ib., p. 271.
[30] Id., ib., p. 272.
[31] Cf. Machado, António do Canto;
Cardoso, António Monteiro, op. cit.,
p. 59.
[32]
Discurso do General Bernardo António Zagalo na sessão de 27 de Fevereiro
de 1839 da Câmara dos Deputados, in O Eco,
n.º 355, de 19 de Março de 1839, Cf. id.,
ib., p. 59.
[33] Passim.
[34] A.H.M., 1ª div., 21ª sec., cx. 13, mç.
1, Ferreira, Maria de Fátima Sá e Melo, op.
cit., p. 275.
[35]
D. Miguel legitimou um levantamento
armado sob o comando de chefes autorizados para tal, com a intenção de acabar
com a «horda infame de assassinos e ímpios incorrigíveis». Cf. Machado, António
do Canto; Cardoso, António Monteiro, op. cit.,
p. 113.
[36] O partido miguelista na sua análise ao
governo liberal repudiava os atentados à religião, a perseguição dos seus
apaniguados, a corrupção dos chefes liberais e a desastrosa política de
empréstimos externos. Id., ib., p.
112. Veja-se ainda cópia da proclamação de D. Miguel apreendida em Tavira, Id.,
ib., pp. 133-134.
[37] Intervenção do deputado Barjona de
Freitas na sessão de 27 de Janeiro de 1837, in Diario do Governo, n.º 25, de 30 de Janeiro de 1837, Machado,
António do Canto; Cardoso, António Monteiro, op. cit., p. 87.
[38] O
tempo, n.º 232, de 8 de Novembro de 1838, id., ib., p. 87.
[39] O
tempo, n.º 333, de 14 de Março de 1839. id., ib., p. 87.
[40] Diário
do Governo, n.º 287, 4 de Dezembro de 1838, Machado, António do Canto;
Cardoso, António Monteiro, op. cit.,
p. 90.
[41] Proclamação de Remexido em 21 de
Novembro de 1837: «O nome de Deus blasfemado nas praças e cidades e povoações
de Portugal, seus Templos profanados, seus Altares demolidos e despedaçadas com
furor herético as Sagradas Imagens (...) desprezado o Supremo Pastor da Igreja,
destruídos os Mandamentos da mesma, as Religiões extintas e atacados os
principais dogmas da nossa Fé». Machado, António do Canto; Cardoso, António
Monteiro, op. cit., p. 139 (Documento
n.º 10).
[42] Cf. Ferreira, Maria de Fátima Sá e Melo
- Formas de mobilização popular no liberalismo - o «cisma dos mónacos» e a
questão dos enterros nas igrejas, in O
Liberalismo na Península Ibérica na primeira metade do século XIX, Vol. II, Lisboa, Sá da Costa Editora, 1982,
p. 161.
[43] Ferreira, Maria de Fátima Sá e Melo, op. cit., p. 161.
[44] Esta luta entre o bem e o mal
espelha-se em alguns sermões registados nas memórias de um médico veneziano
instalado em Faro. Vejamos essa violência verbal: «12 de Novembro - (...) O
cónego Reitor Santos em um sermão que se fez na Igreja do Colégio vociferou
muito contra os malhados e entre as coisas relevantes que disse, notou-se o
seguinte: "Matar, matar esses hereges, esses pedreiros livres, esses
malhados, não tenhais medo. Eu que sou vosso Pastor vos desejo isso da parte do
Senhor. Pensai vós que cometeis algum pecado ? Bem longe disso é obra meritória"», Memórias sobre a aclamação do
Infante D. Miguel em Faro. O diário de Lázaro Doglioni, V. R. de Santo
António, 1991, p. 195. Ferreira, Maria
de Fátima Sá e Melo, Rebeldes e
Insubmissos, p . 352.
[45] Id., ib., p. 360
[46] Referia-se assim, aos «assassinatos
sem número, na profanação dos templos, no despedaçar das imagens sagradas e
mesmo na blasfémia contra a divindade» e «restabelecer a paz e a ordem e
restituir a Portugal a Santa Religião Católica Romana no esplendor e
integridade em que os nossos pais a adoraram e mantiveram», Ministério do
Reino, 4ª Repartição, pasta 67, id., ib.,
pp. 281 e 282.
