22/06/23

A Guerrilha do Remexido, António do Canto Machado e António Monteiro Cardoso,

 António do Canto Machado e  António Monteiro Cardoso, A Guerrilha do Remexido, Mem Martins, Publicações Europa América, Colecção Estudos e Documentos, n.º 175, s.d.



Ficha de leitura:

     O Algarve foi palco de duas sublevações de sentimentos contrários antes do desembarque em 1833, do corpo expedicionário liberal: o levantamento absolutista de 1826 e a revolta liberal de 1828. P. 17.~

Em 1826-1827, o partido miguelista dispunha de importantes apoios, que se traduziram na participação de numerosas guerrilhas. Para além deste apoio, contava o partido miguelista, de uma forte adesão das autoridades civis e militares, importantes na contenção às punições ordenadas pelo governo liberal. P. 19.

Os manejos políticos, através de uma campanha dos partidários miguelistas, empreendida nos jornais e proclamações «incendiárias», conduziram ao regresso de D. Miguel e à modificação da conjuntura política, que conduziu à restauração do absolutismo. P. 19.

Como forma de contrariar esta situação desfavorável os liberais, tentaram inverter esta tendência, em 1828, através de um movimento insurrecional, com centro na cidade do Porto.  P. 19.

O eco da revolta liberal estendeu-se também ao Algarve, onde em 24 de Maio de 1828, encorajou um grupo de oficiais a desencadear um movimento «a favor da Carta e  da Legitimidade», apoiados ainda pelos  «negociantes e proprietários, uma boa parte do clero e dos empregados públicos».  P. 20.

Um dos erros que neste período é apontado aos liberais foi a sua incapacidade de criar adeptos junto das camadas populares. Ao invés, de costas voltados e sem uma adesão unanime por parte dos militares, sempre se abstiveram de fazer qualquer proclamação «que excitasse os espíritos e dirigisse a opinião pública». Para além disto, também não permitiu o armamento solicitado por muitos liberais.  P. 21.

O erro dos liberais, não foi cometido pelos miguelistas, que nesse período, procuraram conquistar a adesão dos soldados e mobilizar os camponeses, levando-os a descer às cidades. P. 21.

Para a mobilização se encarregaram os frades do Convento dos Carmelitas Descalços de Faro. Incitavam os camponeses a «correrem imediatamente à cidade ao sinal do toque de rebate no sino do relógio da igreja [...], a fim de destruir os inimigos do throno, e do altar». Este levantamento popular, acabou por encorajar muitos soldados a combater a revolta liberal. P. 21.

Contudo, a derrota da revolta liberal, levou à ocorrência de uma onda de violentos tumultos.  O povos das cidades e dos campos, «homens da mais vil condição», «rotos esfaimados, só amigos do sangue e da pilhagem», em perseguição dos liberais, acometeram-se de uma violenta ferocidade. P. 22.

Ao mesmo tempo que se sucedeu os desacatos e as pilhagens da plebe, ocorreu uma vaga de detenções sobre oficiais e civis implicados na sublevação liberal. P. 23.

Os ataques da plebe e dos miguelistas era contra uma burguesia prospera e politicamente militante, organizada entorno da loja maçónica Filantropia a Oriente de Lagos. P. 25.

O isolamento da burguesia em relação às camadas populares foi aproveitado pelos partidários do absolutismo. De facto o contraste entre a miséria de uma plebe rural e urbana, foi sublinhado pelos miguelistas. Estes, colocaram ao rubro o ódio dos pobres contra os ricos burgueses, acusados de serem os inimigos do trono e do altar, e do estado de miséria que o pais vivia. P. 27.

Após a partida do Algarve do duque de Terceira, em 18 de Julho de 1833, os miguelistas apoiados pelo campesinato passaram ao ataque. Para tal, comandados por um quadro de oficiais do exercito e de ordenanças, organizaram-se em duas «guerrilhas realistas», uma chefiada pelo capitão de ordenanças Remexido, actuando na zona ocidental do Algarve e a outra, sob o comando do Major André Camacho, que tinha a seu cargo a parte oriental. P. 28.

A solidariedade e a capacidade de mobilização por parte dos miguelistas foi de tal ordem que, logo que as guerrilhas desceram da montanha, «os povos em massa se reuniram armados de espingardas e piques» atacando as cidades e povoações do litoral algarvio. Somente Faro, Olhão  e Lagos resistiram. P. 28.

A indisciplina e a incapacidade de controlar os guerrilheiros por parte das chefias, levou ao descambo do movimento numa violência atroz. Nos incidentes de Albufeira o próprio Remexido viu-se confrontado com ameaças de substituição de comandante e mesmo de ser morto com os malhados, caso se opusesse ao seu assassínio. P. 29.

Desencadeava-se a matança, com o pretexto político e religioso da «defesa do trono e altar. Esta era a forma de acender os ódios contra os mais abastados de um lugar. p.  30.

A indisciplina, pusilanimidade e o caracter espontâneo dos guerrilheiros, evidencia a sua falta de convicções políticas.  Assim, a falta de enquadramento militar levou a que em 1833-34, aqueles se lançassem desordenadamente no saque dos ricos. P. 35.

«As guerrilhas eram fortes pelo seu número, fanatismo, expectativa de pilhagem e, sobretudo, pelas montanhas, que lhes ofereciam retiradas seguras e inacessíveis em caso de necessidade. Pilhavam, destruíam e incendiavam as propriedades dos inimigos suspeitos de liberalismo, e se esses infelizes não conseguiam salvar-se a tempo, eram massacrados sem piedade. Era a guerra dos camponeses contra as cidades [...]». pp. 36-37.

Remexido adquiriu durante a guerra civil de 1833-34 a notoriedade e experiência combativa para poder vir mais tarde a reativar a luta ao serviço da causa de D. Miguel. P. 41.

Após a Convenção de Évora Monte, muitos dos antigos oficiais e soldados do exercito miguelistas, persistiram em conservar as suas armas, como forma de se precaverem contra a prática frequente do assassínio dos vencidos. Esta prática teve por vezes a conivência das autoridades. P. 59.

 Segundo o general Zagalo, governador do Algarve até finais de 1836, «a causa originária das guerrilhas do Algarve» era as perseguições feitas aos muitos antigos oficiais e soldados do exército miguelista que, «vendo-se assassinados, nas suas camas, nas estradas, e nas praças públicas, julgaram que era melhor defender-se com armas na mão, que morrer inermes». P. 59.

A maior parte das vitimas foram mortas pelas escoltas que acompanhavam os presos no trânsito para as cadeias. Sob o pretexto de querem fugir eram assassinados. O Governo acabou por reconhecer este facto. P. 59.

Mas houve situações em que nem se quer as autoridades invocaram a fuga, abatendo os miguelistas dentro das cadeias. Exemplo disso temos o ex-governador de Armas do Algarve, Tomás António da Guarda Cabreira, assassinado na cadeia de Faro «em presença da escolta, que estava de guarda à cadeia à cadeia e no mesmo dia em que o governo remetia a ordem para ele ser posto em liberdade». P. 59.

Para escaparem a esta sorte, muitos miguelistas tiveram que andar a monte. Procuravam sobreviver juntando-se em pequenos grupos, praticando pequenos roubos junto às povoações dos lugares onde se escondiam. P. 60.

O apelo lançado por D. Miguel, em 21 de Março de 1836, levou a que Remexido e outros guerrilheiros passassem à ofensiva. Essa proclamação denunciava a tirania e ferocidade do governo liberal. P. 62.

O principal apoio que a guerrilha teve foi o das populações serranas expresso em diversos testemunhos: «estes homens [os habitantes da serra] acham-se tão ligados com eles que não é possível saber a verdade»; «não é o prestigio nem a inteligência do Remexido, do Rachado, do Cabrita e outros chefes, que sustenta esta ruinosa guerra, mas sim oito mil habitantes da Serra, e outros tantos ou mais da antiga comarca de Ourique!»; «não é possível acabar a guerrilha porque os moradores da serra são guerrilhas». P. 87.

O reconhecimento da violência por parte dos liberais: «em nenhuma província foi tão crua a perseguição como no Algarve; eram muitos os perseguidos - reunidos por igual sorte e auxiliados pela natureza do terreno». P. 90.

Estas perseguições são ainda consideradas como causa da sublevação: «as guerrilhas, que por espaço de tantos anos têm assolado as províncias do sul, tiveram origem nas perseguições que se desenvolveram em seguida à Convenção de Évora Monte». P. 90.

Era assim, uma «guerra de vingança, cobiça e de extermínio». P.90.

«A violência das perseguições no Algarve está diretamente relacionada com a crueza da guerra civil nessa região, bem patente nas chacinas e roubos perpetrados pelos realistas, organizados em guerrilhas». Este foi o grande motivo que levou a que muitos realistas comprometidos com o Antigo Regime, tivessem que andar a monte, recusando apresentar-se ao abrigo da amnistia, garantida pela Convenção de Évora Monte. P. 91

Os quadros da guerrilha eram no seu inicio, constituídos na sua maioria, por oficiais miguelistas de baixa patente, perseguidos pelos liberais. p. 91.

Estes quadros da guerrilha distinguiam-se pela sua combatividade, firme adesão aos princípios legitimistas, e um profundo conhecimento do terreno. P. 91.

Remexido um lavrador associado a interesses feudais, pela colecta de dízimos. P. 92.

À parte dos oficiais, os guerrilheiros subordinados, demonstravam falta de empenho, para o qual contribuía a sua origem social. Eram combatentes inaptos e indisciplinados, mais propensos a cometer delitos e a acções de saque. Esta situação era prejudicial para a imagem da causa miguelista. Desta forma os oficiais tiveram de aplicar rigorosas medidas disciplinares de forma a extirpar o mal das suas fileiras. P. 107.

A guerrilha orientava-se pelos princípios programáticos definidos por  D. Miguel. O partido miguelista na sua análise ao governo liberal repudiava os atentados à religião, a perseguição dos seus apaniguados, a corrupção dos chefes liberais e a desastrosa política de empréstimos externos. P. 112.

Desta forma, D. Miguel apela e legitima um levantamento armado sob o comando de chefes autorizados para tal, com a intenção de acabar com a «horda infame de assassinos e ímpios incorrigíveis».  P. 113.

D. Miguel exorta os seus seguidores a pegarem em armas, de forma a preferir «em campo morte gloriosa», em vez de «sucumbir, cobardes, aos punhais dos ímpios». P. 113.

As proclamações deveriam ter  por temas centrais, o apelo á revolta das vitimas das atrocidades, e a defesa da Santa Religião. P. 113.

Os liberais eram apontados por D. Miguel, como «blasfemos profanadores de templos». P. 113.

Remexido nas suas proclamações revela a formação de ex-seminarista e a vocação para pregar. P. 113.

As atrocidades cometidas pelos liberais, expressa Remexido numa declaração, desta forma: «correndo por toda a parte o sangue dos nossos compatriotas»; «chorai os filhos de Portugal baquearem-se com a carne dos seus mesmos nacionais»; «as vossas mulheres, vossas filhas humilhadas, violentadas e desonradas em público». p. 114.

A sua vocação teológica levou-o a exortar o fanatismo religioso das gentes a quem se dirigia. Dava destaque às «heresias» cometidas pelos liberais, tais como : «desprezar, o Supremo Pastor da Igreja», e de terem levado o pais ao caos,  «sem governo, sem lei e sem ordem», com a intenção de «enforcar o último rei com as tripas do último sacerdote!». P. 114.

Desta forma, os princípios da luta para restaurar em Portugal «a Santa Religião Católica Romana na sua pureza e integridade» e limpar o «reino dos sectários dos pedreiros livres que não abjuraram os seus erros [...] e pugnar pelo restabelecimento no trono de D. Miguel», eram a «obediência e disciplina». P. 114.

"Os conflitos sociais com que se debatia a sociedade portuguesa, agravados pela grande miséria reinante na época, são, assim, reduzidos a uma guerra santa contra o «furor herético» dos liberais, encarando-se o restabelecimento de D. Miguel no trono como um meio para atingir o superior fim de restaurar a «santa Religião», na sua pureza, esplendor e integridade tradicionais". P. 115.

As ações da guerrilha eram assim, norteadas pela defesa do trono e do altar. P. 116.

As entradas repentinas da guerrilha nas povoações, visavam, segundo as palavras do Remexido, «requisitar o que nos é necessário» e «fazer aos portugueses que he tempo de sacudirmos o flagelo que com tanta barbaridade e despotismo tem reduzido esta nação à última desgraça». P. 116.

Um dos alvos da guerrilha foram sobretudo a partir de 1838, os guardas nacionais. Por estes se envolverem nas perseguições aos guerrilheiros e seus simpatizantes, eram habitualmente passados pelas armas. P. 119.

A Guarda Nacional, composta por adeptos liberais minimamente abastados, ao intervir sobre as populações na área de operações da guerrilha, praticou excessos nas suas acções. O governo interveio para punir os responsáveis. P. 119.

Os alvos principais dos guerrilheiros eram: os denunciantes, os liberais seus perseguidores e os guardas nacionais. P. 120.

Os objetivos estratégicos da guerrilha eram: flagelação das forças inimigas, entradas de surpresa nas povoações, captura de correios e execução dos inimigos diretos. P. 120.

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