Património sem Pátria? A ausência de relação com os lugares que habitamos
O caso do Largo de Dona Estefânia e a urgência de reaproximar cidadania e memória
Introdução
Num quotidiano cada vez mais acelerado e
fragmentado, tornámo-nos utilizadores funcionais dos espaços urbanos, cruzamos
ruas, atravessamos praças, passamos por monumentos e fontes, mas raramente nos
detemos a interrogar o que ali está e porquê. A cidade tornou-se um cenário de
passagem, onde a relação com o património se dilui entre rotinas e indiferença.
Muitos desses lugares, ainda que carregados de memória, tornaram-se invisíveis
aos olhos de quem os habita. Este fenómeno, embora subtil, revela uma profunda falta
de ligação entre os cidadãos e o seu território, entre o património e a sua
função simbólica, a construção da identidade coletiva.
Neste contexto, importa perguntar, pode
haver património sem pátria? Isto é, pode um espaço ou um objeto ser
considerado património se não existe relação viva, simbólica e afetiva com os
que o rodeiam? A questão não é meramente teórica ou filosófica, tem implicações
reais na forma como se constrói a cidadania, se valoriza a história e se cuida
do bem comum.
O presente artigo parte de um exemplo
concreto, o Largo de Dona Estefânia, em Lisboa, para refletir sobre esta
ausência de relação entre os habitantes e os espaços patrimoniais do
quotidiano. No centro do largo, uma imponente estátua de Neptuno, criada por
Joaquim Machado de Castro em 1771, ergue-se sobre uma fonte. Milhares de
pessoas passam por ela todos os dias. Poucas sabem quem ali está representado,
de onde veio a escultura ou quem foi Dona Estefânia. E ainda menos reconhecem o
valor cultural e histórico deste espaço aparentemente banal.
Ao longo deste artigo, procuraremos
compreender como se constrói (ou se perde) o significado dos lugares, qual o
papel do património urbano na formação da memória coletiva, e que estratégias
podem ser adotadas para reaproximar os cidadãos do espaço que habitam. Porque
só há verdadeiro património quando há relação. E só há relação quando há
conhecimento, reconhecimento e partilha.
O conceito de património e a sua
despolitização contemporânea
A palavra “património” remete, na sua
origem etimológica, para aquilo que se herda do pai, patrimonium. No
entanto, o conceito, tal como o entendemos hoje, vai muito além da herança
material ou do legado familiar. O património cultural é uma construção social e
simbólica, resultado de processos de seleção, atribuição de valor e
representação coletiva. Não é apenas aquilo que foi deixado pelos antepassados,
mas também aquilo que escolhemos preservar, interpretar e transmitir às
gerações futuras.
Ao longo do século XX, especialmente após
a Segunda Guerra Mundial, assistiu-se a uma crescente institucionalização do
património, com organismos internacionais como a UNESCO a promoverem a sua
salvaguarda através de convenções e listas de classificação. Este movimento
trouxe avanços significativos no reconhecimento e proteção de bens culturais,
mas também gerou um certo distanciamento entre o património e os cidadãos. A
patrimonialização tornou-se, muitas vezes, um processo técnico e burocrático,
desligado da experiência vivida dos espaços e da memória quotidiana das
populações.
A crítica à despolitização do património
é, por isso, fundamental. Quando os bens patrimoniais são tratados apenas como
objetos de conservação ou como atrativos turísticos, corre-se o risco de apagar
a sua carga simbólica e o seu potencial crítico. Como defende Pierre Nora, os
chamados lugares de memória (lieux de mémoire) existem precisamente
quando a memória viva se apaga e se tenta fixar algo que se perdeu, é um
esforço para “salvar vestígios” num tempo de aceleração e esquecimento.
No contexto urbano, este fenómeno é
particularmente evidente. A cidade contemporânea está repleta de marcas
históricas que coexistem com a vida moderna, fachadas de antigos palácios,
chafarizes, esculturas, placas toponímicas, mas que são muitas vezes ignoradas,
apagadas pela rotina. O património urbano transforma-se assim numa espécie de paisagem
inerte, onde os sinais do passado permanecem visíveis, mas desprovidos de
significado para os seus utilizadores.
Neste quadro, é necessário repensar a
relação entre património e cidadania. O património não pode ser apenas um bem a
proteger ou a exibir, deve ser, acima de tudo, um instrumento de consciência
histórica e pertença coletiva. Isso implica uma reapropriação crítica dos
espaços patrimoniais, não basta conservar, é preciso compreender. E para
compreender, é preciso educar, interpretar, envolver. Só assim se transforma o
património em lugar vivo de memória e identidade e não apenas em objeto de
decoração ou vestígio morto.
O Largo de Dona Estefânia, espaço de
circulação ou lugar de memória?
Situado numa zona central de Lisboa, o
Largo de Dona Estefânia é, à primeira vista, um típico espaço urbano de
passagem. Rodeado por edifícios residenciais, instituições de saúde, comércio e
serviços, o largo serve de nó viário e ponto de referência para milhares de
pessoas que por ali transitam diariamente. No seu centro, encontra-se uma fonte
com uma escultura de grandes dimensões. Contudo, para muitos, essa presença
monumental é pouco mais do que um adorno paisagístico ou um elemento decorativo
da cidade. Raramente se lhe reconhece a história, o valor simbólico ou a
narrativa que ali se inscreve.
A figura representada na fonte é Neptuno,
o deus romano dos mares, esculpido com tridente em punho, sobre uma concha e
rodeado por golfinhos. A obra, em mármore de Carrara, foi criada em 1771 por
Joaquim Machado de Castro, um dos maiores escultores portugueses do século
XVIII e autor, entre outras, da célebre estátua equestre de D. José I na Praça
do Comércio. Esta escultura de Neptuno integrou originalmente o Chafariz do
Loreto, no Largo do Chiado, onde esteve até 1853. Desde então, teve um percurso
errante por diversos locais da cidade, passou pela Mãe d’Água das Amoreiras,
pelo Museu Arqueológico do Carmo, pela Estação Elevatória dos Barbadinhos e
pela Praça do Chile. Só em 1950-51 foi instalada na atual fonte do Largo de
Dona Estefânia, onde permanece até hoje.
Este trajeto revela não só o valor
artístico da peça, mas também as múltiplas camadas de significação urbana que
se acumulam num só objeto. No entanto, paradoxalmente, o seu significado é hoje
amplamente desconhecido da população. A escultura, criada num contexto
artístico barroco e inicialmente integrada num espaço de forte carga simbólica,
encontra-se agora descontextualizada, colocada num local onde o seu
enquadramento histórico e a sua leitura são praticamente inexistentes.
O mesmo se aplica ao nome do largo. Dona
Estefânia de Hohenzollern-Sigmaringen (1837–1859) foi rainha consorte de
Portugal, casada com D. Pedro V, e ficou na memória coletiva pela sua bondade,
simplicidade e empenho nas causas sociais, sobretudo na assistência hospitalar.
Morreu de forma precoce, vítima de difteria, apenas um ano após o casamento. Em
sua homenagem, foi fundado o Hospital Dona Estefânia, o primeiro hospital
pediátrico moderno do país. O largo e o bairro que o rodeia receberam o seu
nome como forma de perpetuar a memória de uma figura admirada, ainda que
efémera, no imaginário nacional.
Contudo, tanto a figura mitológica de
Neptuno como a memória real de D. Estefânia parecem hoje dissolvidas no tecido
urbano. O largo é atravessado, mas não habitado simbolicamente. A fonte é
vista, mas não é lida. O nome é repetido, mas não é compreendido. Este caso
revela uma realidade mais vasta, a perda de relação entre os cidadãos e os
lugares que herdaram, entre o espaço físico e a sua dimensão histórica e
afetiva.
O Largo de Dona Estefânia, ao mesmo tempo
banal e excecional, é um espelho da forma como o património pode permanecer presente,
mas ausente, visível, mas esquecido. Um espaço que tem todas as condições para
ser lugar de memória, mas que funciona apenas como espaço de circulação.
Patriotismo e património, o paradoxo do
quotidiano
Vivemos num tempo em que o discurso sobre
a identidade nacional e o patriotismo está presente em diversos espaços, na
educação, na política, nos media. No entanto, esse patriotismo tende a ser
promovido de forma abstrata, desligado do território real e das suas marcas
históricas. Fala-se em “amar o país”, mas pouco se conhece dos lugares
concretos que o compõem. Valoriza-se a bandeira, o hino, as datas oficiais, mas
ignora-se a fonte ao fundo da rua, a estátua da praça, o nome da escola ou do
bairro. Esse é o paradoxo, o patriotismo é muitas vezes invocado como valor
simbólico, mas não é vivido como relação prática com o espaço e com a história
local.
O caso do Largo de Dona Estefânia
exemplifica esse afastamento. Nele coexistem uma escultura clássica, com origem
no século XVIII, e a memória de uma rainha do século XIX associada à saúde
pública, duas referências com potencial para provocar reflexão, identificação e
sentimento de pertença. No entanto, para a maioria dos transeuntes, esses
elementos não têm qualquer ressonância. São parte do cenário urbano, mas não da
experiência simbólica. Estão lá, mas não contam.
Esta dissonância é reveladora de uma
condição contemporânea, o património deixou de ser uma linguagem comum. Antes,
os monumentos, os nomes e os espaços carregavam significados partilhados, mesmo
que não totalmente compreendidos. Hoje, o excesso de informação, a fragmentação
da vida urbana e a ausência de mediação interpretativa contribuíram para a
diluição desses significados. O resultado é uma cidadania desligada da
geografia da memória, uma relação funcional com o espaço, mas não simbólica.
É neste ponto que o patriotismo perde
força enquanto experiência vivida. Sem conhecimento dos lugares, sem
consciência da sua história, o sentimento de pertença torna-se abstrato. Um
patriotismo sem território é, no fundo, um patriotismo sem profundidade. A
ligação emocional ao país não se constrói apenas por ideias gerais de “nação”,
mas através da relação quotidiana com o que é concreto e próximo, a rua, o
largo, o edifício, a fonte, o nome.
Por isso, a valorização do património
urbano e local não é um capricho cultural. É uma questão política, cívica e
identitária. Reaproximar as pessoas dos lugares que habitam é um ato de
reconstrução simbólica da cidadania. E isso implica não só reconhecer o valor
dos objetos patrimoniais, mas também criar condições para que a sua história
seja conhecida, partilhada e debatida. Porque o patriotismo verdadeiro não se
faz apenas de palavras, faz-se de lugares.
Propostas para reaproximar cidadania e
memória
Reatar a ligação entre os cidadãos e os lugares patrimoniais exige mais do que a preservação física dos espaços. É necessário construir relações simbólicas vivas, que envolvam a compreensão, a participação e a apropriação crítica do património. O caso do Largo de Dona Estefânia, onde a fonte de Neptuno e o nome da rainha permanecem ignorados pela maioria, demonstra que a presença não basta, é preciso mediação, narrativa e envolvimento.
Desta forma, são necessárias algumas estratégias concretas para reaproximar a cidadania da memória, tanto no caso específico do Largo como em outros contextos urbanos:
· Sinalética interpretativa acessível
Instalar junto à
fonte e noutros pontos relevantes do largo, placas informativas bilingues
(PT/EN), com um breve texto histórico, imagem da escultura, explicação sobre o
autor (Machado de Castro) e um QR code que remeta para conteúdos
digitais complementares. Este tipo de sinalética discreta pode ser fundamental
para despertar curiosidade e criar conhecimento de forma informal.
· Educação patrimonial de proximidade
Integrar os
lugares da freguesia e da cidade no currículo escolar, desde o ensino básico ao
secundário, como laboratórios vivos de história, arte e cidadania. Visitas de
estudo, roteiros pedonais e projetos de investigação local podem ser usados
para transformar a cidade num campo de aprendizagem crítica e afetiva.
· Roteiros de memória urbana participativa
Criar roteiros
comunitários que envolvam escolas, associações locais e moradores na
identificação e narração de lugares com valor patrimonial e afetivo. Estes
roteiros podem incluir histórias esquecidas, memórias orais e interpretações
visuais, e ser apresentados sob a forma de exposições, visitas guiadas ou até
publicações digitais.
· Intervenções artísticas e simbólicas
Através de arte
urbana, instalações temporárias, performances ou exposições públicas, pode-se
dar nova visibilidade a elementos patrimoniais apagados. A arte tem o poder de
interromper a rotina, re-contextualizar objetos esquecidos e convocar o olhar
crítico do transeunte.
· Mediação digital com base na georreferenciação
O uso de
aplicações móveis, mapas interativos e realidade aumentada permite criar
experiências imersivas que ligam o presente ao passado. Através da
geolocalização, é possível construir percursos personalizados que contam a
história do bairro, das ruas, das figuras esquecidas, como D. Estefânia e das
obras de arte pública.
· Participação ativa da comunidade
Nenhuma estratégia será eficaz se não houver envolvimento direto da
população local. Consultas públicas, oficinas colaborativas, projetos com os
moradores e parcerias entre escolas, autarquias e instituições culturais são
fundamentais para criar sentimento de pertença. A memória não se impõe, constrói-se
em diálogo.
Reaproximar cidadania e memória não é
apenas preservar o passado é dar-lhe voz no presente. É reconhecer que a cidade
tem uma história viva, que se transforma com os seus habitantes. O Largo de
Dona Estefânia pode deixar de ser um ponto anónimo no mapa para se tornar um
lugar de memória ativa, onde o património deixa de ser invisível e volta a
falar.
Conclusão
O património só cumpre verdadeiramente a
sua função quando é reconhecido, vivido e partilhado. Monumentos, nomes de
ruas, praças e esculturas não são meros elementos decorativos do espaço urbano,
são marcadores de memória coletiva, testemunhos de valores, escolhas políticas,
histórias de vida e de morte. Quando esses elementos se tornam invisíveis para
os que os rodeiam, não é apenas a memória que se perde, perde-se também uma
dimensão essencial da cidadania.
O caso do Largo de Dona Estefânia, em
Lisboa, é um exemplo paradigmático deste fenómeno. Nele, encontramos
condensadas múltiplas camadas de memória, a figura de Neptuno, esculpida por
Machado de Castro no século XVIII, a trajetória errante da escultura ao longo
da cidade, a memória de uma rainha que marcou a história da saúde pública e foi
homenageada com o nome de um bairro, de um hospital e de um largo. No entanto,
todas essas referências permanecem, hoje, alheias à maior parte dos cidadãos. A
sua presença física não corresponde a uma presença simbólica.
Este desfasamento revela o que aqui se
definiu como património sem pátria, lugares que existem, mas não pertencem,
histórias que resistem, mas não são conhecidas, símbolos que nos rodeiam, mas
que deixámos de compreender. O patriotismo abstrato, tantas vezes promovido
como valor nacional, só ganha verdade e profundidade quando se ancora nos
territórios reais e nas suas memórias partilhadas.
Reaproximar a cidadania da memória implica
transformar o olhar, criar oportunidades de conhecimento, promover a
apropriação crítica dos espaços que habitamos. O património precisa de ser
traduzido, interpretado e discutido, não apenas conservado. E esse trabalho é,
simultaneamente, cultural e político, educativo e afetivo.
Em última instância, trata-se de devolver
à cidade a sua espessura histórica, e aos cidadãos o direito de saber onde
estão. Porque memória não é apenas o que se conserva, é, sobretudo, o que se
compreende, se transmite e se vive.
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