05/08/25

Património sem Pátria? A ausência de relação com os lugares que habitamos

Património sem Pátria? A ausência de relação com os lugares que habitamos

O caso do Largo de Dona Estefânia e a urgência de reaproximar cidadania e memória


  

Introdução

Num quotidiano cada vez mais acelerado e fragmentado, tornámo-nos utilizadores funcionais dos espaços urbanos, cruzamos ruas, atravessamos praças, passamos por monumentos e fontes, mas raramente nos detemos a interrogar o que ali está e porquê. A cidade tornou-se um cenário de passagem, onde a relação com o património se dilui entre rotinas e indiferença. Muitos desses lugares, ainda que carregados de memória, tornaram-se invisíveis aos olhos de quem os habita. Este fenómeno, embora subtil, revela uma profunda falta de ligação entre os cidadãos e o seu território, entre o património e a sua função simbólica, a construção da identidade coletiva.

Neste contexto, importa perguntar, pode haver património sem pátria? Isto é, pode um espaço ou um objeto ser considerado património se não existe relação viva, simbólica e afetiva com os que o rodeiam? A questão não é meramente teórica ou filosófica, tem implicações reais na forma como se constrói a cidadania, se valoriza a história e se cuida do bem comum.

O presente artigo parte de um exemplo concreto, o Largo de Dona Estefânia, em Lisboa, para refletir sobre esta ausência de relação entre os habitantes e os espaços patrimoniais do quotidiano. No centro do largo, uma imponente estátua de Neptuno, criada por Joaquim Machado de Castro em 1771, ergue-se sobre uma fonte. Milhares de pessoas passam por ela todos os dias. Poucas sabem quem ali está representado, de onde veio a escultura ou quem foi Dona Estefânia. E ainda menos reconhecem o valor cultural e histórico deste espaço aparentemente banal.

Ao longo deste artigo, procuraremos compreender como se constrói (ou se perde) o significado dos lugares, qual o papel do património urbano na formação da memória coletiva, e que estratégias podem ser adotadas para reaproximar os cidadãos do espaço que habitam. Porque só há verdadeiro património quando há relação. E só há relação quando há conhecimento, reconhecimento e partilha.

 

O conceito de património e a sua despolitização contemporânea

A palavra “património” remete, na sua origem etimológica, para aquilo que se herda do pai, patrimonium. No entanto, o conceito, tal como o entendemos hoje, vai muito além da herança material ou do legado familiar. O património cultural é uma construção social e simbólica, resultado de processos de seleção, atribuição de valor e representação coletiva. Não é apenas aquilo que foi deixado pelos antepassados, mas também aquilo que escolhemos preservar, interpretar e transmitir às gerações futuras.

Ao longo do século XX, especialmente após a Segunda Guerra Mundial, assistiu-se a uma crescente institucionalização do património, com organismos internacionais como a UNESCO a promoverem a sua salvaguarda através de convenções e listas de classificação. Este movimento trouxe avanços significativos no reconhecimento e proteção de bens culturais, mas também gerou um certo distanciamento entre o património e os cidadãos. A patrimonialização tornou-se, muitas vezes, um processo técnico e burocrático, desligado da experiência vivida dos espaços e da memória quotidiana das populações.

A crítica à despolitização do património é, por isso, fundamental. Quando os bens patrimoniais são tratados apenas como objetos de conservação ou como atrativos turísticos, corre-se o risco de apagar a sua carga simbólica e o seu potencial crítico. Como defende Pierre Nora, os chamados lugares de memória (lieux de mémoire) existem precisamente quando a memória viva se apaga e se tenta fixar algo que se perdeu, é um esforço para “salvar vestígios” num tempo de aceleração e esquecimento.

No contexto urbano, este fenómeno é particularmente evidente. A cidade contemporânea está repleta de marcas históricas que coexistem com a vida moderna, fachadas de antigos palácios, chafarizes, esculturas, placas toponímicas, mas que são muitas vezes ignoradas, apagadas pela rotina. O património urbano transforma-se assim numa espécie de paisagem inerte, onde os sinais do passado permanecem visíveis, mas desprovidos de significado para os seus utilizadores.

Neste quadro, é necessário repensar a relação entre património e cidadania. O património não pode ser apenas um bem a proteger ou a exibir, deve ser, acima de tudo, um instrumento de consciência histórica e pertença coletiva. Isso implica uma reapropriação crítica dos espaços patrimoniais, não basta conservar, é preciso compreender. E para compreender, é preciso educar, interpretar, envolver. Só assim se transforma o património em lugar vivo de memória e identidade e não apenas em objeto de decoração ou vestígio morto.

 

O Largo de Dona Estefânia, espaço de circulação ou lugar de memória?

Situado numa zona central de Lisboa, o Largo de Dona Estefânia é, à primeira vista, um típico espaço urbano de passagem. Rodeado por edifícios residenciais, instituições de saúde, comércio e serviços, o largo serve de nó viário e ponto de referência para milhares de pessoas que por ali transitam diariamente. No seu centro, encontra-se uma fonte com uma escultura de grandes dimensões. Contudo, para muitos, essa presença monumental é pouco mais do que um adorno paisagístico ou um elemento decorativo da cidade. Raramente se lhe reconhece a história, o valor simbólico ou a narrativa que ali se inscreve.

A figura representada na fonte é Neptuno, o deus romano dos mares, esculpido com tridente em punho, sobre uma concha e rodeado por golfinhos. A obra, em mármore de Carrara, foi criada em 1771 por Joaquim Machado de Castro, um dos maiores escultores portugueses do século XVIII e autor, entre outras, da célebre estátua equestre de D. José I na Praça do Comércio. Esta escultura de Neptuno integrou originalmente o Chafariz do Loreto, no Largo do Chiado, onde esteve até 1853. Desde então, teve um percurso errante por diversos locais da cidade, passou pela Mãe d’Água das Amoreiras, pelo Museu Arqueológico do Carmo, pela Estação Elevatória dos Barbadinhos e pela Praça do Chile. Só em 1950-51 foi instalada na atual fonte do Largo de Dona Estefânia, onde permanece até hoje.

Este trajeto revela não só o valor artístico da peça, mas também as múltiplas camadas de significação urbana que se acumulam num só objeto. No entanto, paradoxalmente, o seu significado é hoje amplamente desconhecido da população. A escultura, criada num contexto artístico barroco e inicialmente integrada num espaço de forte carga simbólica, encontra-se agora descontextualizada, colocada num local onde o seu enquadramento histórico e a sua leitura são praticamente inexistentes.

O mesmo se aplica ao nome do largo. Dona Estefânia de Hohenzollern-Sigmaringen (1837–1859) foi rainha consorte de Portugal, casada com D. Pedro V, e ficou na memória coletiva pela sua bondade, simplicidade e empenho nas causas sociais, sobretudo na assistência hospitalar. Morreu de forma precoce, vítima de difteria, apenas um ano após o casamento. Em sua homenagem, foi fundado o Hospital Dona Estefânia, o primeiro hospital pediátrico moderno do país. O largo e o bairro que o rodeia receberam o seu nome como forma de perpetuar a memória de uma figura admirada, ainda que efémera, no imaginário nacional.

Contudo, tanto a figura mitológica de Neptuno como a memória real de D. Estefânia parecem hoje dissolvidas no tecido urbano. O largo é atravessado, mas não habitado simbolicamente. A fonte é vista, mas não é lida. O nome é repetido, mas não é compreendido. Este caso revela uma realidade mais vasta, a perda de relação entre os cidadãos e os lugares que herdaram, entre o espaço físico e a sua dimensão histórica e afetiva.

O Largo de Dona Estefânia, ao mesmo tempo banal e excecional, é um espelho da forma como o património pode permanecer presente, mas ausente, visível, mas esquecido. Um espaço que tem todas as condições para ser lugar de memória, mas que funciona apenas como espaço de circulação.

 

Patriotismo e património, o paradoxo do quotidiano

Vivemos num tempo em que o discurso sobre a identidade nacional e o patriotismo está presente em diversos espaços, na educação, na política, nos media. No entanto, esse patriotismo tende a ser promovido de forma abstrata, desligado do território real e das suas marcas históricas. Fala-se em “amar o país”, mas pouco se conhece dos lugares concretos que o compõem. Valoriza-se a bandeira, o hino, as datas oficiais, mas ignora-se a fonte ao fundo da rua, a estátua da praça, o nome da escola ou do bairro. Esse é o paradoxo, o patriotismo é muitas vezes invocado como valor simbólico, mas não é vivido como relação prática com o espaço e com a história local.

O caso do Largo de Dona Estefânia exemplifica esse afastamento. Nele coexistem uma escultura clássica, com origem no século XVIII, e a memória de uma rainha do século XIX associada à saúde pública, duas referências com potencial para provocar reflexão, identificação e sentimento de pertença. No entanto, para a maioria dos transeuntes, esses elementos não têm qualquer ressonância. São parte do cenário urbano, mas não da experiência simbólica. Estão lá, mas não contam.

Esta dissonância é reveladora de uma condição contemporânea, o património deixou de ser uma linguagem comum. Antes, os monumentos, os nomes e os espaços carregavam significados partilhados, mesmo que não totalmente compreendidos. Hoje, o excesso de informação, a fragmentação da vida urbana e a ausência de mediação interpretativa contribuíram para a diluição desses significados. O resultado é uma cidadania desligada da geografia da memória, uma relação funcional com o espaço, mas não simbólica.

É neste ponto que o patriotismo perde força enquanto experiência vivida. Sem conhecimento dos lugares, sem consciência da sua história, o sentimento de pertença torna-se abstrato. Um patriotismo sem território é, no fundo, um patriotismo sem profundidade. A ligação emocional ao país não se constrói apenas por ideias gerais de “nação”, mas através da relação quotidiana com o que é concreto e próximo, a rua, o largo, o edifício, a fonte, o nome.

Por isso, a valorização do património urbano e local não é um capricho cultural. É uma questão política, cívica e identitária. Reaproximar as pessoas dos lugares que habitam é um ato de reconstrução simbólica da cidadania. E isso implica não só reconhecer o valor dos objetos patrimoniais, mas também criar condições para que a sua história seja conhecida, partilhada e debatida. Porque o patriotismo verdadeiro não se faz apenas de palavras, faz-se de lugares.

 

Propostas para reaproximar cidadania e memória

Reatar a ligação entre os cidadãos e os lugares patrimoniais exige mais do que a preservação física dos espaços. É necessário construir relações simbólicas vivas, que envolvam a compreensão, a participação e a apropriação crítica do património. O caso do Largo de Dona Estefânia, onde a fonte de Neptuno e o nome da rainha permanecem ignorados pela maioria, demonstra que a presença não basta, é preciso mediação, narrativa e envolvimento.

Desta forma, são necessárias algumas estratégias concretas para reaproximar a cidadania da memória, tanto no caso específico do Largo como em outros contextos urbanos:

·  Sinalética interpretativa acessível

Instalar junto à fonte e noutros pontos relevantes do largo, placas informativas bilingues (PT/EN), com um breve texto histórico, imagem da escultura, explicação sobre o autor (Machado de Castro) e um QR code que remeta para conteúdos digitais complementares. Este tipo de sinalética discreta pode ser fundamental para despertar curiosidade e criar conhecimento de forma informal.

·  Educação patrimonial de proximidade

Integrar os lugares da freguesia e da cidade no currículo escolar, desde o ensino básico ao secundário, como laboratórios vivos de história, arte e cidadania. Visitas de estudo, roteiros pedonais e projetos de investigação local podem ser usados para transformar a cidade num campo de aprendizagem crítica e afetiva.

·  Roteiros de memória urbana participativa

Criar roteiros comunitários que envolvam escolas, associações locais e moradores na identificação e narração de lugares com valor patrimonial e afetivo. Estes roteiros podem incluir histórias esquecidas, memórias orais e interpretações visuais, e ser apresentados sob a forma de exposições, visitas guiadas ou até publicações digitais.

·  Intervenções artísticas e simbólicas

Através de arte urbana, instalações temporárias, performances ou exposições públicas, pode-se dar nova visibilidade a elementos patrimoniais apagados. A arte tem o poder de interromper a rotina, re-contextualizar objetos esquecidos e convocar o olhar crítico do transeunte.

·  Mediação digital com base na georreferenciação

O uso de aplicações móveis, mapas interativos e realidade aumentada permite criar experiências imersivas que ligam o presente ao passado. Através da geolocalização, é possível construir percursos personalizados que contam a história do bairro, das ruas, das figuras esquecidas, como D. Estefânia e das obras de arte pública.

·   Participação ativa da comunidade

Nenhuma estratégia será eficaz se não houver envolvimento direto da população local. Consultas públicas, oficinas colaborativas, projetos com os moradores e parcerias entre escolas, autarquias e instituições culturais são fundamentais para criar sentimento de pertença. A memória não se impõe, constrói-se em diálogo.

Reaproximar cidadania e memória não é apenas preservar o passado é dar-lhe voz no presente. É reconhecer que a cidade tem uma história viva, que se transforma com os seus habitantes. O Largo de Dona Estefânia pode deixar de ser um ponto anónimo no mapa para se tornar um lugar de memória ativa, onde o património deixa de ser invisível e volta a falar.

 

Conclusão

O património só cumpre verdadeiramente a sua função quando é reconhecido, vivido e partilhado. Monumentos, nomes de ruas, praças e esculturas não são meros elementos decorativos do espaço urbano, são marcadores de memória coletiva, testemunhos de valores, escolhas políticas, histórias de vida e de morte. Quando esses elementos se tornam invisíveis para os que os rodeiam, não é apenas a memória que se perde, perde-se também uma dimensão essencial da cidadania.

O caso do Largo de Dona Estefânia, em Lisboa, é um exemplo paradigmático deste fenómeno. Nele, encontramos condensadas múltiplas camadas de memória, a figura de Neptuno, esculpida por Machado de Castro no século XVIII, a trajetória errante da escultura ao longo da cidade, a memória de uma rainha que marcou a história da saúde pública e foi homenageada com o nome de um bairro, de um hospital e de um largo. No entanto, todas essas referências permanecem, hoje, alheias à maior parte dos cidadãos. A sua presença física não corresponde a uma presença simbólica.

Este desfasamento revela o que aqui se definiu como património sem pátria, lugares que existem, mas não pertencem, histórias que resistem, mas não são conhecidas, símbolos que nos rodeiam, mas que deixámos de compreender. O patriotismo abstrato, tantas vezes promovido como valor nacional, só ganha verdade e profundidade quando se ancora nos territórios reais e nas suas memórias partilhadas.

Reaproximar a cidadania da memória implica transformar o olhar, criar oportunidades de conhecimento, promover a apropriação crítica dos espaços que habitamos. O património precisa de ser traduzido, interpretado e discutido, não apenas conservado. E esse trabalho é, simultaneamente, cultural e político, educativo e afetivo.

Em última instância, trata-se de devolver à cidade a sua espessura histórica, e aos cidadãos o direito de saber onde estão. Porque memória não é apenas o que se conserva, é, sobretudo, o que se compreende, se transmite e se vive.

 

Bibliografia

Choay, Françoise. (1992). L’allégorie du patrimoine. Éditions du Seuil.

Fernandes, J. M. (1989). Lisboa Arquitectura e Património. Livros Horizonte.

Lowenthal, David. (1985). The past is a foreign country. Cambridge University Press.

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Nora, Pierre. (1989). Les lieux de mémoire. Gallimard.

Pinto, Albano da Silva. (2005). D. Pedro V e D. Estefânia — Uma história de amor e esperança. Temas & Debates.

Smith, Laurajanne. (2006). Uses of heritage. Routledge.

UNESCO. (2013). Education and heritage: Teaching for the future https://unesdoc.unesco.org

 

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