28/09/23

A Central Tejo

 A Central Tejo

O Museu

  As recuperações dos desativados espaços industriais e a sua transformação em museus tem como exemplo o Museu da EDP na Central Tejo de Lisboa.

  Este museu de ciência abriu as suas portas ao público em Maio de 2006, apresentando um conceito mais atual de exibição museológica. O núcleo principal da exposição é a própria Central, constituída pelo conjunto de equipamentos que faziam parte da antiga unidade de produção. A exposição procura transmitir aos visitantes a forma de funcionamento desta antiga central termoeléctrica de Lisboa. 

A História

  A Central Tejo, construída entre 1908 e 1919, e a primeira da cidade de Lisboa, insere-se nos modelos técnicos das centrais termoeléctricas. Tinha como missão fornecer energia eléctrica e gás de iluminação pública à cidade.  Desempenhou um papel fundamental na produção eléctrica e sua divulgação, até ao surgimento das centrais hidroelétricas.

 Este espaço assume as características de unidade de produção de energia eléctrica (1916-1975). Através da sua visita percebemos a importância que os combustíveis tiveram nesse processo de produção tendo destaque central o circuito do carvão que é descrito desde a sua descarga até à reciclagem. O carvão (hulha) era transportado por barcos até ao cais. Depois em cestos, à cabeça de homens e mulheres, era levado para as noras elevatórias que o introduziam nos fornos. O carvão era queimado a altas temperaturas. As cinzas saiam no piso térreo e eram recolhidas por homens e transportadas em vagonetes para o exterior. A temperatura média do ambiente rondava sempre os 40º. Este ambiente devia ser um inferno!

 Conjuntamente é-nos descrito o ciclo da água vapor até à entrada na área dos turbo grupos e a respectiva transferência de energia térmica para ser transformada em energia mecânica no eixo da turbina.

  Desta forma, voltou a dar-se vida a alguns dos equipamentos da antiga central de forma a tornar mais impressionante a reconstituição do que foi o seu circuito de produção da eletricidade.

A exposição

  Quanto à forma de exibição dos diversos objetos poderemos identificar a utilização do conceito de “in situ” (Kirshenblatt-Gimblett, 1998). São utilizadas a simulação e a reconstrução para proporcionar uma realidade absorvente e vasta que envolva o objeto. Procura-se ainda colocar o visitante em contacto com determinadas situações de carácter humano de forma a obter o significado dos objetos. Recorre-se ainda às técnicas de reconstruções em miniatura e dioramas cénicos ao longo das galerias. Porém, também temos uma parte de exibição disposta “in context” (Kirshenblatt-Gimblett, 1998), estando os objetos colocados em vitrinas de acordo com as suas classificações, cronologias e sequencias próprias. Isto não significa que objetos expostos em vitrinas não sejam combinados com novas tecnologias que permitam alguma interatividade.  Procura-se proporcionar objetos com histórias de vida real, permitindo que sejam acedidos através da tecnologia de multimídia (Dicks, 2003). In context e in situ permite-nos observar a diferença entre mostrar uma peça numa vitrina e contextualizar a sua importância.

  Temos assim um espaço que recorre a diversas formas de interpretação, permitindo atribuir significados culturais ao local. Fazer com que um espaço comunique com o publico não é algo novo. Porém, a criação de ambientes que estabeleçam a comunicação para e com o publico ajuda-os a manter a atenção no tema do espaço. Este por seu lado proporciona-nos, em tempo presente, a distância a outros tempos, lugares e pessoas. 

  Contudo, a diferença não está propriamente na forma da exibição, mas na possibilidade do visitante poder experimentar diretamente a realidade de outro tempo ou lugar, através das estratégias interativas de participação.

 A produção física ou virtual dos diversos espaços tem como objetivo anunciar e convidar a atenção dos seus visitantes. Em certos lugares dentro do espaço o ambiente não só comunica com o visitante como apresenta uma face humana. Esta forma de exposição vai de encontro à necessidade do visitante em encontrar algo diferente, algo que pertencendo  à vidas de outros mas que tenha um retorno em si. À medida que percorremos o espaço encontramos um conjunto coerente de símbolos legíveis como que fazendo o ambiente falar conosco. 

  Mesmo sem a utilização de guia, as várias formas interativas permitem que o visitante não seja deixado ao abandono. Barulhos, movimentos, jogos e opções de carregar no botão desafiam-no incessantemente. Esta forma de interatividade permite que o publico se sinta incluído, capaz e habilitado. Ou seja, a interatividade estabelece-se como uma ponte entre visitante e a cultura em exibição e “ao assegurar a sua acessibilidade, encoraja à atividade e à aprendizagem informal com base na curiosidade [1]” (Dicks, 2003: 9).

  Este modelo de exibição cultural adoptou formas híbridas para trazer ao mesmo tempo diversos públicos (Dicks, 2003). Completam a exibição cultural, espaços como um bar/café, galeria de arte e uma área para a projeção cinematográfica. 

  O processo interativo permite que os visitantes obtenham respostas e retroação da exibição. Assim, evitamos o confronto de um implacável silencio com os objetos. Ou seja, os museus não podem ser apenas um repositório de objetos.

  O museu não obriga a percorrer as galerias através de uma linha em sequência que conte a historia do local. O espaço é aberto às diversas áreas temáticas. Porém, para a sua boa compreensão sugerimos na primeira visita que essa sequência seja efetuada por parte do visitante. Existe uma necessidade de compreender o espaço através de um gradiente de conhecimento que progrida de área para área. Ou seja, sem se perceber uma área anterior, não se percebe a seguinte.

A experiência

  O património industrial para além de dar-se a conhecer ao “outro” é um mobilizador de identidades próprias sublinhando a memória local.

  A forma como “a interpretação está assegurada permite que objetos e lugares com referências reconheçam formas e estilos de vida, dando-lhes um contexto humano que os situa nos lugares, nas narrativas e no tema (Dicks, 2003: 11). Este remete-nos para pessoas comuns que trabalharam e tiveram vidas com alguns pontos em comum às nossas.

  A desativação de centros industriais criam um profundo sentido de perda, tanto desse tipo de tecnologia utilizada (caldeiras, turbinas, etc.), como das experiências sociais desenvolvidas em seu torno (Urry, 2008). E são essas experiências de pessoas comuns que a exposição enaltece.

  Na sala das caldeiras e na sala das cinzas podemos perceber o interesse do visitante  na aparente qualidade heroica do trabalho ali desenvolvida. Este fascínio pelo trabalho dos outros está ligado a essa rotura de fronteiras pós-moderna, particularmente entre o palco e os bastidores da vida dos outros” (Urry, 2008: 97).

  Ao olharmos para a estátua de um guerreiro medieval, temos dificuldade em nos ligar-mos à sua experiência na arte de bem manejar a espada e na performance de luta. È uma realidade distante da nossa e para a qual não há experiência associada. Ao observarmos o modelo do operário industrial que trabalhou na central está mais perto da nossa realidade de trabalho, apesar do anacronismo que a sua definição possa ocultar.

  Temos assim, um espaço em que a atracção confina-se à representação do ordinário e às formas mundanas do trabalho (Urry, 2008). Como nos refere MacCannell “onde a sociedade industrial deu lugar à sociedade moderna, o trabalho é simultaneamente transformado em objeto da curiosidade turística” (1999: 6).

  Somente fazendo do trabalho dos outros um fetiche, transformando-o em diversão, num espetáculo ou atracção é que os trabalhadores da sociedade moderna, em férias ou em visitas pontuais, podem apreender o trabalho como parte de um significado dessa totalidade  (MacCannell, 1999).

  A destruição da cultura da sociedade industrial esta ocorrendo por fora e por dentro tornando-se na própria negação do local de trabalho (MacCannell, 1999). A história afirma que o homem evoluiu de acordo com o seu trabalho. Aquele através da sua criatividade procura as soluções para os seus problemas, mas é com a prática do trabalho que ele desenvolve os seus raciocínios, apreendendo sempre uma nova lição. “A afirmação dos valores sociais básicos estão de partida do mundo do trabalho e procurando refugio no imaginário do lazer” (MacCannell, 1999: 6).

  Referindo ainda MacCannell, “enquanto trabalhador, a relação do individuo com a sociedade à parcial e limitada, segura pela fragilidade da ética do trabalho, e restrita a uma posição singular entre milhões na divisão do trabalho. Como turista, o individuo pode tentar compreender a divisão do trabalho como um fenómeno sui generis e tornar-se numa testemunha moral das suas obras-primas de virtude e vícios” (1999: 7).

Conclusão

  Ao visitarmos o espaço percebemos que a cultura em exibição é vista como algo para o visitante partilhar e não algo à parte dele. Percebemos que a ideia foi de produzir uma cultura mais fluida e manobrável e que ao mesmo tempo permitisse a representação da identidade do local.

  O Museu da Eletricidade ao transformar-se num museu de Ciência proporciona como centro cultural a diversificação das suas atividades na relação com a comunidade.  Este espaço museológico assenta essencialmente numa componente experimental e interativa, quer no percurso expositivo, quer na formação dada pelo serviço educativo do museu. È muito importante ter uma exibição que seja em simultâneo uma forma de preservar a cultura e como espetáculo e conhecimento, alimentando tanto o olho como o cérebro.

  Referindo  Dicks, fazer com que algo seja visitável e observável prolonga a sua vida, tanto como exibição para os “outros, como recurso cultural/educacional para o próprio“ (2003: 11).

  Em suma, um espaço onde o passado sente-se mais seguro de um futuro.

Bibliografia

·       DICKS, Bella, 2003, Culture on Display. The Production of Contemporary Visibility. London: Open University Press.

·       KIRSHENBLATT-GIMBLETT, Barbara, 1998, Destination Culture: Tourism, Museums, and Heritage, University of California Press.

·       MACCANNELL, Dean 1976, The Tourist: A New Theory of the Leisure Class, New York, Shocken Books.

·       URRY, John, The tourist gaze, 2008, 2nd ed. (1991), Sage.



[1] Nas citações, todos os textos em língua estrangeira foram traduzidos para português.

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