05/09/23

HOBSBAWM, Eric, A Era das Revoluções: 1789-1848

 HOBSBAWM, Eric, A Era das Revoluções: 1789-1848, col. Biblioteca do Século, n.º 15, Lisboa, Editorial Presença, 2001, 335 pp.

«O objetivo desta obra não é a narrativa pormenorizada, mas sim uma interpretação e aquilo a que os franceses chamam Haute vulgarisation»(p.9). Este é o enunciado que encontramos na introdução da obra A Era das Revoluções, de Eric Hobsbawm, autor inglês que é um dos mais conceituados historiadores da atualidade. A sua vida confunde-se em grande parte com as vicissitudes da história europeia do último século. Tendo nascido em 1917, no seio de uma família de origem judia, viveu num dos períodos mais conturbados da Europa. Sendo um velho militante da esquerda, aplica o método marxista à análise da história, tendo sempre por base a luta de classes. A Era das Revoluções é um exemplo significativo da sua tendência para produzir obras abrangentes, que retratam os grandes períodos. Assim, encontramos um amplo retrato da história dos séculos XIX e XX nos livros que escreveu sobre esse período, nomeadamente na trilogia constituída pela Era do Capital, onde prossegue a análise já iniciada na Era das Revoluções sobre o processo de ascensão do capitalismo industrial e a consolidação da cultura burguesa; pela Era do Império. 1875-1914 e pela obra Indústria e Império, vol. II, em que descreva a ascensão da Inglaterra como primeira potência industrial. O seu mais recente trabalho, A Era dos Extremos, segue também a mesma configuração abrangente, sendo considerado como o mais autobiográfico, original e político dos seus livros.

          A Era das Revoluções é o estudo das transformações produzidas por aquilo que o autor designou por «dupla revolução», isto é, a revolução francesa de 1789 e a revolução industrial britânica.  Para o estudo do longo período (os anos de 1789 a 1848), Hobsbawm dividiu a obra em duas partes, subdivididas em capítulos. Na primeira parte, intitulada «Os Acontecimentos» (p.15-149), encontramos os seguintes capítulos: «O Mundo da década de 1780», «a Revolução Industrial», «A Revolução Francesa», «A Guerra», «A Paz», «As Revoluções», e «O nacionalismo». Na outra parte, denominado «Os Resultados» (p.150-307), encontramos o tipo de sociedade produzida pela dupla revolução estudada nos capítulos «A Terra», «Rumo a um mundo industrial», «Carreira aberta ao talento», «Os trabalhadores pobres», «Ideologia: religiosa», «Ideologia: secular», «As artes», e «A ciência». A obra é ainda complementada com a Introdução, a conclusão, intitulada «rumo a 1848», bem como pelo Índice, pelo prefácio, por mapas, notas e bibliografia.

          Neste livro deparamo-nos com um mundo mais pequeno quando comparado com o atual devido ao menor número de homens, e simultaneamente mais vasto devido às incertezas das comunicações e à existência de  amplos espaços completamente desconhecido ou dos quais só existiam informações parcelares (p.19). Um mundo predominantemente rural, pelo que a questão fundamental da época era o problema agrário, embora o comércio tivesse experimentado um grande desenvolvimento, principalmente devido à sua ligação com a exploração colonial. Um mundo onde, à excepção da Grã-Bretanha, onde existia o sistema parlamentar, dominava a monarquia absoluta ou a desordem. Um mundo onde a rápida expansão do comércio europeu e da iniciativa capitalista minava a igualdade entre potências, conduzindo a breve trecho à dominação política e militar dos outros continentes pela Europa (p.35).

Foi também um mundo que assistiu à revolução industrial, que não foi um «episódio com princípio e fim» (p.38). O autor justifica o estudo desse acontecimento com o facto de ter ocorrido antes da revolução francesa e de sem ele ser impossível abarcar o contexto em que os acontecimentos desse período se desenrolaram, na medida em que foi a primeira vez que se romperam as grilhetas das sociedades pré-industriais (p.36). As consequências da revolução industrial só começaram a se fazer sentir fora da Inglaterra na década de 1830, pois teve um impacto relativamente tardio no resto da Europa. Foi o acontecimento mais importante da história mundial e só tinha condições para se desenvolver na Grã-Bretanha, não devido à sua superioridade científica e tecnológica, mas sim à preparação da sua agricultura para desempenhar as funções necessárias numa era de industrialização (p.40), à existência no país de investidores e empresários privados imbuídos de uma mentalidade que procurava o lucro (p.41), à forte economia, ao Estado agressivo que captava os mercados das outras nações concorrentes, à sua indústria nitidamente capitalista e à existência de um conjuntura económica favorável (p.42).

Se a economia foi influenciada pela revolução industrial, a política e a ideologia do mundo no século XIX foi condicionada diretamente pela revolução francesa a tal ponto que Hobsbawm afirma que «A França deu a todo o mundo o vocabulário e as questões da política liberal e radical democrática» (p.62). O produto da revolução francesa foi levar a ideologia do mundo moderno a penetrar nas antigas sociedades que até então tinham resistido à penetração das ideias francesas. As suas consequências foram profundas, pois ocorreu no mais poderoso país europeu. Foi a única revolução social de massas e de entre as revoluções contemporâneas foi a única ecuménica (p. 64). Tais considerações permitem ao autor concluir que «A Revolução Francesa permanece assim a revolução do seu tempo e a mais destacada do seu tipo»(p.64). Mas, este tema não se esgota unicamente nestas considerações, pois o autor menciona ainda as origens da revolução (p.64) e os seus sucessos, nomeadamente a guerra (p.75), o terror (p.76), o período do Termidor que pôs fim à fase do «sans-culottismo» (p.81), entre outros.

Na sequência da revolução francesa, na Europa a partir de 1792 e 1815 houve um período de guerra quase ininterrupta, que combinaram ou coincidiram com guerras esporádicas fora do continente (p.85). Isto foi possível porque «A França como Estado, com os seus interesses e aspirações, fez face (ou aliou-se) a outros Estados do mesmo tipo, mas, por outro lado, a França como Revolução, atraiu e interessou os povos do mundo para derrubar a tirania e abraçar a liberdade, enquanto as forças do conservadorismo e da reação se lhe opunham» (p.86). Socialmente, a guerra opôs a França e os seus territórios fronteiriços contra os restantes estados, nomeadamente contra a Grã-Bretanha, que tencionava eliminar o seu principal concorrente, por forma a alcançar o predomínio total nos mercados coloniais e estrangeiros, o que gerou descontentamentos e permitiu aos franceses angariar possíveis aliados (p.91). Apesar da coligação antifrancesa ser em teoria mais forte, a história militar desta época é uma história de triunfos contínuos e empolgantes para os franceses.

Face aos resultados das guerras deparamo-nos com a tomada de consciência por parte dos estadistas de que nenhuma guerra de vulto seria a partir de então tolerável, pois isto implicaria quase certamente uma nova revolução e a destruição dos antigos regimes. Apesar de na cena internacional proliferarem as oportunidades de conflito, verifica-se que entre 1815 e 1914 não houve nenhum conflito que envolvesse mais do que duas grandes nações (p.107). Assim, o concerto europeu após as guerras napoleónicas «em face do objetivo absolutamente antiliberal e antinacional (isto é, antirrevolucionário) dos seus autores foi realista e sensato» (p.107). A vitória total sobre os franceses não foi explorada, no sentido de se evitar provocar novos ímpetos jacobinos. Houve também uma preocupação em estabelecer o equilíbrio entre as cinco grandes potências saídas da guerra: Rússia, Grã-Bretanha, França, Áustria e Prússia. Estas potências encetaram uma tentativa de manutenção da paz por meio de congressos regulares, que resolvessem os problemas à medida que surgiam, o que, contudo, não foi possível devido ao fracasso desse sistema na sequência das revoluções de 1830 (p.111).

          Após a geração de 1815, o objetivo supremo de todas as potências era impedir uma nova revolução europeia. Contudo, estes esforços foram infrutíferos, pois a Europa assistiu ao deflagrar de uma série de revoltas que, ao contrário das que antecederam o período napoleónico, foram planeadas. Ocorreram, entre 1815 e 1848, três correntes de revoluções: a primeira, de 1820-1824, limitou-se ao Mediterrâneo, nomeadamente Espanha, Nápoles e Grécia; a segunda ocorreu em 1829-1834 e atingiu toda a Europa a ocidente da Rússia; a terceira, a de 1848, foi a maior das correntes revolucionárias, tendo sido o resultado da crise de desenvolvimento da nova sociedade (pp.116-119). Todos estes movimentos visavam subverter a ordem e estavam unidos apenas pelo ódio comum aos regimes de 1815 e à tradicional frente comum que unia a monarquia absoluta, a Igreja e a aristocracia. Do ponto de vista internacional estas revoluções dividiram a Europa em duas grandes regiões: a ocidente do Reno, onde puseram cobro definitivamente à hegemonia das potências reacionárias unidas; e a leste do Reno, onde não triunfaram devido às repressões da Áustria e da Rússia (p.124).

          Nesta obra também somos confrontados com a questão do nacionalismo, que foi um dos resultados do movimento geral pós-1830 a favor da revolução. O nacionalismo refletia forças muito poderosas, que em resultado da dupla revolução, iam ganhando, nos anos de 1830, consciência política. O que melhor o simboliza são os chamados movimentos da «juventude», fundados ou inspirados por Guiseppe Mazzini pouco depois da revolução de 1830 (p.137). Um momento essencial na evolução nacional foi a imposição da língua nacional, o que ocorreu nos anos 1830 em vastos espaços da Europa. Antes de 1848, no Ocidente podemos falar de um só movimento nacional organizado de forma coerente, baseado autenticamente nas massas e que gozava de uma enorme vantagem de se identificar com a Igreja, que era um forte portador da tradição (p.143). No resto do mundo, o autor afirma cabalmente que «Fora da Europa, é difícil falar de nacionalismo» (p.147).

          No que respeita aos resultados da dupla revolução, verifica-se que a estrutura fundiária determinou, entre 1789 e 1848, o destino de quase todos os homens. Nem a revolução económica nem a revolução política podiam permitir-se ignorar aquilo que os fisiocratas consideravam como a única fonte de riqueza (p.153). A dupla revolução tinha em comum o desígnio de transformar os sistemas tradicionais de produção, por forma a transformar a terra numa mercadoria  e a abolir o conjunto de acordos tradicionais de carácter legal e político (feudalismo) que incidiam sobre a mesma (p.157). Segundo Hobsbawm «Isto foi conseguido, de um modo geral, no período que decorre entre 1789 e 1848- na maioria dos casos por influência direta ou indireta da Revolução Francesa- de Gibraltar à Prússia Oriental, do Báltico à Sicília» (p. 157). Mas isto gerou reações contrárias por parte do campesinato, que repudiava a forma burguesa de tratar a terra, pelo que não surpreende que o camponês pobre ou toda a sociedade rural tentasse resistir a esse processo (p. 163).

          Por alturas de 1840 uma parte apreciável da Europa Ocidental e Central já tinha franqueado ou estava no limiar da Revolução Industrial, não obstante, o mundo social e económico dos anos de 1840 não era muito diferente do de 1788 (p.172).  A industrialização nestes países se processou em moldes diferentes, nomeadamente devido ao papel activo desempenhado pelos governos (p.180). No seio desse desenvolvimento económico, a França afirmava-se como um paradoxo, pois em teoria nenhum outro país tinha condições para progredir tanto quanto ela, uma vez que dispunha de condições ideais para o desenvolvimento do capitalismo. Mas esse paradoxo é desmistificado, tendo-se em atenção os sucessos da revolução, pois esta «Pela mão de Robespierre (...) levou muito de que dera pela mão da Assembleia Constituinte» (p.182). Por volta de 1840, apesar de superar os restantes países europeus em termo de produção de energia industrial, a França tinha perdido terreno em relação à Inglaterra. Para isso certamente muito terá contribuído a revolução francesa, que se por um lado contribuiu para a libertação de muitos constrangimentos que pesavam sobre a terra, por outro, o longo período de agitação terá tido certamente consequências nefastas sobre a economia. A revolução serviu assim simultaneamente como motor e freio da industrialização, num país onde a indústria estava mais virada para a produção de produtos de luxo, em detrimento de artigos para o consumo de massa.

          O autor defende ainda que a sociedade francesa pós revolucionária era burguesa tanto nas suas estruturas como nos seus valores. Era a sociedade em que se afirmava o self-made man, em que as carreiras estavam abertas ao talento, à energia, à astúcia, ao trabalho árduo e à ganância. Ao homem desse período abria-se quatro tipo de opções: o negócio, a educação, as artes e a guerra (p.193). Esta abertura constitui uma oportunidade que foi aproveitada de forma apaixonada pelas minorias, como os protestantes e os judeus, às quais estavam vedadas a projeção social devido à discriminação oficial e coletiva (p.200).

          Aos pobres, face à sociedade burguesa, apresentavam-se três opções: esforçar-se por torna-se burguês, abandonar-se à opressão ou revoltar-se. Devido à associação da burguesia com a desumanidade, os pobres recusavam até as propostas mais racionais da sociedade burguesa. Esta oposição era reforçada pelas reticências que alguns burgueses manifestavam contra os aspectos da livre concorrência que não os favoreciam (p.205). Da parte dos mais desfavorecidos encontramos algumas manifestações de descontentamento que se traduziram na destruição ou abandono das máquinas. Eles foram secundados nesta tarefa pelos pequenos comerciantes e lavradores, que solidários, consideravam as máquinas como destruidoras da existência dos homens (p.205). Não obstante o que mais contribuiu para a desmoralização dos pobres foi o rápido crescimento dos centros urbanos e industrializados, onde grassava o álcool, o infanticídio, a prostituição, o suicídio e as doenças mentais (p.207). A alternativa era a rebelião, pelo que surgiram movimentos trabalhistas e socialistas, bem como a agitação revolucionária de massas (p.208).

          Outra das ideias principais deste livro esta relacionada com a secularização das massas ocorrida na Europa antes de 1848. Entre os indivíduos do sexo masculino das classes cultas e educadas a descristianização remontava aos fins do século XVII, princípios  do século XVIII. Entre as massas da primeira metade do século XIX a indiferença perante a religião foi um fenómeno sem precedentes (p.223). Parte desse distanciamento foi o resultado do fracasso das igrejas estabelecidas em fazer face aos problemas dos aglomerados e das classes sociais, nomeadamente ao problema do proletariado, aos quais eram alheios. Mas, esse foi também um período de proliferação de seitas, que eram tendencialmente apolíticas e se afastavam do mundo exterior para se devotarem á salvação pessoal (P. 230). Foi também um período de regresso à religião militante, liberal e antiquada, que se entrechocou com surtos de religiosidade nas suas formas mais inflexíveis, irracionais e emocionalmente compulsivas (p.232).

          O autor traça igualmente os principais aspectos que revestiram a ideologia secular neste período, que se dividia entre o partido dos que acreditavam no progresso e o partido dos que não acreditavam. No primeiro partido, encontramos a formulação mais lúcida e minuciosa da ideologia do progresso, que encontrou os seus expoentes máximos na Grã-Bretanha, remontando aos séculos XVII e XVIII. Era uma ideologia rigorosamente racionalista e secular, que acreditava na capacidade do homem de resolver todas as questões mediante o uso da razão (p.237). Consideravam que o progresso era tão natural como o capitalismo. Mas como este último não conseguiu satisfazer as expectativas surgiram críticas, que demonstravam não apenas que o sistema era injusto, funcionava mal, mas que tinha também produzido resultados contrários aos enunciados pelos seus defensores (p.245). Estas críticas foram protagonizadas pelos socialistas, que defendiam a tese segundo a qual os homens eram naturalmente seres comunais e, portanto, viviam naturalmente juntos (p.246). No outro campo, encontramos as ideologias de resistência ao progresso, que careciam de um método intelectual comum e que acusavam o liberalismo de ter destruído a ordem social (p.247).

          Os acontecimentos da dupla revolução também tiveram influências na arte, influências essas que Hobsbawm expõe do seguinte modo: «Se uma só frase enganadora resumisse as relações do artista e da sociedade neste período, poderíamos dizer que a Revolução Francesa inspirou o artista pelo seu exemplo, a Revolução Industrial pelo seu horror e a sociedade burguesa, que emergiu de ambos, transformou a sua própria existência e modos de criação» (p.258). Nesses anos, as artes floresceram extraordinariamente, em grande parte devido ao seu ressurgimento junto de um público culto, em praticamente todos os países. Assistiu-se ao fenómeno novo que consistiu na propagação de acontecimentos artísticos entre as diferentes nações (p.257). Certas artes e géneros, como a literatura e o romance, desenvolveram-se de uma forma excepcional. Os artistas eram diretamente influenciados por questões públicas, influência esta que era tanto mais forte nos países em que se desenvolveu uma consciência nacional ou em que surgiram movimentos de libertação ou de unificação nacional (p.258). O autor ainda aborda o romantismo que, embora não fosse a única corrente artística, considera como o movimento mais característico da período da dupla revolução (p.272). O romantismo foi um movimento extremista, que procurava a harmonia perdida pelo homem. Saciava esta procura por intermédio de três fontes: «a Idade Média, o homem primitivo (ou, o que podia vir a dar no mesmo, o exotismo e o folk) e a Revolução Francesa» (p.266). Fora do mundo da cultura das letras encontramos a cultura da gente comum, com as suas canções, festejos, trajes e hábitos que começaram a ser destruídos pela indústria e o crescimento urbano (p.275).

          Também as ciências refletem as vicissitudes da dupla revolução porque esta lhes colocou questões específicas e porque abriu-lhes novas possibilidades, pelo que «O entusiasmo dos radicais burgueses e dos aristocratas liberais britânicos não somente pela pesquisa aplicada, mas por ousados progressos no conhecimento, do qual a própria ciência estabelecida, se retirou, é prova suficiente de que o progresso científico do nosso século não pode ser separado do estímulo da Revolução Industrial» (p.292). A ciência beneficiou do espantoso incentivo à educação cientifica e técnica e do apoio à pesquisa, o que levou a novos e radicais avanços em alguns campos de estudo como na matemática, ao acordar de ciências até então adormecidas e a introdução de ideias revolucionárias no campo das ciências sociais e biológicas (p.279). O universo da ciência alargou-se atingindo países e povos que até aí apenas lhe tinham dado contribuições insignificantes. Este era o caso de húngaros e noruegueses, pelo que a ciência parece refletir o despertar das culturas nacionais para além da Europa Ocidental (p.281). Se existiu um conjunto de áreas, como as clássicas ciências físicas, que permaneceram substancialmente dentro dos parâmetros estabelecidos, outras houve, como a matemática, a física e as ciências sociais, que sofreram uma verdadeira revolução.

          Assim, o meio século abordado por Hobsbawm foi um período de superlativos, de grandes triunfos a todos os níveis. Mas esses triunfos tinham o seu lado negativo. Por exemplo, na Inglaterra, nomeadamente em Manchester, a Revolução Industrial criou um mundo hediondo até então nunca conhecido. Contribuiu para a infelicidade do homem ao arrancá-lo às suas raízes, privando-o de tudo o que tinha conseguido ao longo de séculos (p.299). Por alturas de 1840 também a estrutura social do mundo estava transformada, embora essa transformação fosse menor do que se tinha previsto em 1800. Com a excepção do continente americano a monarquia continuava a ser o sistema mais corrente dos Estados (p.301). Porém, grandes mudanças tinham ocorrido, mudanças essas cujo ritmo cresceu visivelmente depois da revolução de 1830, que introduziu constituições liberais moderadas de classe média nos principais estados da Europa Ocidental. Até a democracia radical, advogada principalmente por revolucionários de esquerda, conseguiu notáveis avanços (p.302). Apenas na política internacional se operou uma revolução aparentemente total, na medida em que o mundo de 1840 era, política e economicamente, dominado pelas potências europeias, mais os Estados Unidos (p.302).

Ao entrar em contacto com este livro o leitor é impressionado pela sua vastidão. Com efeito, o autor condensou as suas ideias ao longo de 307 exaustivas páginas. A obra é também exaustiva em termos cronológicos, abarcando o meio século entre a revolução de 1789 e as revoluções de 1848. Esta obra foi escrita a algumas dezenas de anos, pelo que foge à atual tendência da historiografia que se centra no estudo de temas específicos, circunscritos. Hobsbawm, pelo contrário, opta pelas grandes visões da história, tentando abarcar amplos espaços temporais e geográficos, o que em grande parte dificulta o trabalho de condensar em poucas páginas as ideias principais da obra.

A estrutura interna da obra, dividida em acontecimentos e resultados, tem implícita, uma certa ideia de causa/ efeito, isto é, que os acontecimentos descritos na primeira parte são as causas que produziram os resultados mencionados na segunda parte. Em última análise, para o autor, o mundo que existiu entre 1789 e 1848 é o produto da revolução industrial e francesa. Embora, seja sabido que esta dupla revolução afetou a Europa nos mais variados aspectos, cabe questionar se não existiram regiões dentro da própria Europa ou aspectos da vida humana afetados por essas revoluções que não foram abordados pelo autor. Por exemplo, não encontramos referências sobre as consequências da revolução francesa sobre a vida privada, nomeadamente sobre o vestuário, sobre as palavras e as formas de tratamento. Em suma, pode-se afirmar que Hobsbawm direcionou esta obra para o estudo  das inovações introduzidas  pela dupla revolução, mas não deixou de parte as permanências do Antigo Regime, pois se é indiscutível que a Europa se transformou em virtude desses acontecimentos também não é menos verdade que as sociedades nunca se transformam completamente. Existem sempre persistências dos períodos anteriores, pois não se pode falar da sociedade de hoje sem se referir à sociedade que existiu ontem.

Se os acontecimentos do meio século decorrente entre 1789 e 1848 são apresentados pelo autor como o resultado da dupla revolução, por outro lado, é implícito na obra o reconhecimento que estas duas revoluções tiveram áreas especificas de influência e ritmos próprios de expansão. Assim, a revolução francesa teve uma influência primordial sobre a abertura das carreiras ao talento, sobre a ideologia religiosa (nomeadamente através da quebra do poderio económico da Igreja, através da confiscação dos seus bens), enquanto que a revolução industrial teve influências sobre a terra (embora a revolução francesa também tivesse contribuído para uma maior redistribuição da propriedade), a indústria, o comércio, os transportes, etc.

Posto isto, este livro mantém uma grande atualidade, sendo de destacar a atenção do autor em relação ao capítulo dedicado à revolução francesa. Apesar do carácter eurocentrista da obra, Hobsbawm detém-se sobre a extensão da influência europeia, e sobre a importância de outras entidades políticas, como o Império Otomano, para o equilíbrio europeu. Por outro lado, existem momentos em que o autor se detém sobre um assunto mais especifico, nomeadamente a independência grega, ressaltando assim a importância deste acontecimento para a Europa. Encontramos também a referência a duas obras essenciais para a compreensão deste período, como sejam A Riqueza das Nações, de Adam Smith, e Os Princípios da Economia Política, de David Ricardo (p.239). No que toca à revolução industrial o autor ressalta a resolução do problema agrário por parte da Grã-Bretanha o que lhe franqueou as portas para o desenvolvimento da agricultura (p.40). Sintomático é a análise da questão da educação na França, onde o número de alunos nos liceus estatais duplicou entre 1809 e 1842, aumentando com particular rapidez sob a monarquia de Julho (p.204). Relativamente aos outros aspectos da obra nota-se que os dois últimos mapas (um sobre a relação entre a população, a produção de lingotes de ferros e a tonelagem descarregadas nos portos; e o outro sobre a área de influência do Código Civil) não têm título, ao contrário dos anteriores, que por exemplo se referem à Europa em 1789 ou então à população mundial nas grandes cidades (p.309 e pp.312-313, respectivamente). É ainda digno de realce a forma  como a bibliografia é apresentada, pois em simultâneo à enunciação das obras utilizadas o autor tece comentários em relação aos mesmos (pp.331-335).

Em último lugar, merece destaque o facto de a obra ser escrita numa linguagem acessível ao grande público, mesmo aos que não são especialistas na matéria, pois o autor tem uma escrita fluente e a obra é estruturada de forma clara e perceptível. O livro assume uma grande importância para a compreensão deste período, sendo de destacar a sua importância para o âmbito da História Contemporânea do século XIX, nomeadamente para o estudo abrangente dos principais acontecimentos que tiveram lugar na Europa durante a primeira metade do século

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