HOBSBAWM, Eric, A Era das Revoluções: 1789-1848, col. Biblioteca do Século, n.º 15, Lisboa, Editorial Presença, 2001, 335 pp.
«O objetivo desta obra não
é a narrativa pormenorizada, mas sim uma interpretação e aquilo a que os
franceses chamam Haute vulgarisation»(p.9).
Este é o enunciado que encontramos na introdução da obra A Era das Revoluções, de Eric Hobsbawm, autor inglês que é um dos
mais conceituados historiadores da atualidade. A sua vida confunde-se em
grande parte com as vicissitudes da história europeia do último século. Tendo
nascido em 1917, no seio de uma família de origem judia, viveu num dos períodos
mais conturbados da Europa. Sendo um velho militante da esquerda, aplica o
método marxista à análise da história, tendo sempre por base a luta de classes.
A Era das Revoluções é um exemplo
significativo da sua tendência para produzir obras abrangentes, que retratam os
grandes períodos. Assim, encontramos um amplo retrato da história dos séculos
XIX e XX nos livros que escreveu sobre esse período, nomeadamente na trilogia
constituída pela Era do Capital, onde
prossegue a análise já iniciada na Era
das Revoluções sobre o processo de ascensão do capitalismo industrial e a
consolidação da cultura burguesa; pela Era
do Império. 1875-1914 e pela obra Indústria
e Império, vol. II, em que descreva a ascensão da Inglaterra como primeira
potência industrial. O seu mais recente trabalho, A Era dos Extremos, segue também a mesma configuração abrangente,
sendo considerado como o mais autobiográfico, original e político dos seus
livros.
A Era das Revoluções é o estudo das
transformações produzidas por aquilo que o autor designou por «dupla
revolução», isto é, a revolução francesa de 1789 e a revolução industrial
britânica. Para o estudo do longo
período (os anos de 1789 a 1848), Hobsbawm dividiu a obra em duas partes,
subdivididas em capítulos. Na primeira parte, intitulada «Os Acontecimentos»
(p.15-149), encontramos os seguintes capítulos: «O Mundo da década de 1780», «a
Revolução Industrial», «A Revolução Francesa», «A Guerra», «A Paz», «As
Revoluções», e «O nacionalismo». Na outra parte, denominado «Os Resultados»
(p.150-307), encontramos o tipo de sociedade produzida pela dupla revolução
estudada nos capítulos «A Terra», «Rumo a um mundo industrial», «Carreira
aberta ao talento», «Os trabalhadores pobres», «Ideologia: religiosa»,
«Ideologia: secular», «As artes», e «A ciência». A obra é ainda complementada
com a Introdução, a conclusão, intitulada «rumo a 1848», bem como pelo Índice,
pelo prefácio, por mapas, notas e bibliografia.
Neste
livro deparamo-nos com um mundo mais pequeno quando comparado com o atual devido ao menor número de homens, e simultaneamente mais vasto devido às
incertezas das comunicações e à existência de
amplos espaços completamente desconhecido ou dos quais só existiam
informações parcelares (p.19). Um mundo predominantemente rural, pelo que a
questão fundamental da época era o problema agrário, embora o comércio tivesse
experimentado um grande desenvolvimento, principalmente devido à sua ligação
com a exploração colonial. Um mundo onde, à excepção da Grã-Bretanha, onde
existia o sistema parlamentar, dominava a monarquia absoluta ou a desordem. Um
mundo onde a rápida expansão do comércio europeu e da iniciativa capitalista
minava a igualdade entre potências, conduzindo a breve trecho à dominação
política e militar dos outros continentes pela Europa (p.35).
Foi também um mundo que
assistiu à revolução industrial, que não foi um «episódio com princípio e fim»
(p.38). O autor justifica o estudo desse acontecimento com o facto de ter
ocorrido antes da revolução francesa e de sem ele ser impossível abarcar o contexto
em que os acontecimentos desse período se desenrolaram, na medida em que foi a
primeira vez que se romperam as grilhetas das sociedades pré-industriais
(p.36). As consequências da revolução industrial só começaram a se fazer sentir
fora da Inglaterra na década de 1830, pois teve um impacto relativamente tardio
no resto da Europa. Foi o acontecimento mais importante da história mundial e
só tinha condições para se desenvolver na Grã-Bretanha, não devido à sua
superioridade científica e tecnológica, mas sim à preparação da sua agricultura
para desempenhar as funções necessárias numa era de industrialização (p.40), à
existência no país de investidores e empresários privados imbuídos de uma
mentalidade que procurava o lucro (p.41), à forte economia, ao Estado agressivo
que captava os mercados das outras nações concorrentes, à sua indústria
nitidamente capitalista e à existência de um conjuntura económica favorável
(p.42).
Se a economia foi
influenciada pela revolução industrial, a política e a ideologia do mundo no
século XIX foi condicionada diretamente pela revolução francesa a tal ponto
que Hobsbawm afirma que «A França deu a todo o mundo o vocabulário e as
questões da política liberal e radical democrática» (p.62). O produto da
revolução francesa foi levar a ideologia do mundo moderno a penetrar nas
antigas sociedades que até então tinham resistido à penetração das ideias
francesas. As suas consequências foram profundas, pois ocorreu no mais poderoso
país europeu. Foi a única revolução social de massas e de entre as revoluções
contemporâneas foi a única ecuménica (p. 64). Tais considerações permitem ao
autor concluir que «A Revolução Francesa permanece assim a revolução do seu tempo e a mais destacada do seu tipo»(p.64).
Mas, este tema não se esgota unicamente nestas considerações, pois o autor
menciona ainda as origens da revolução (p.64) e os seus sucessos, nomeadamente
a guerra (p.75), o terror (p.76), o período do Termidor que pôs fim à fase do
«sans-culottismo» (p.81), entre outros.
Na sequência da revolução
francesa, na Europa a partir de 1792 e 1815 houve um período de guerra quase
ininterrupta, que combinaram ou coincidiram com guerras esporádicas fora do
continente (p.85). Isto foi possível porque «A França como Estado, com os seus
interesses e aspirações, fez face (ou aliou-se) a outros Estados do mesmo tipo,
mas, por outro lado, a França como Revolução, atraiu e interessou os povos do
mundo para derrubar a tirania e abraçar a liberdade, enquanto as forças do
conservadorismo e da reação se lhe opunham» (p.86). Socialmente, a guerra opôs
a França e os seus territórios fronteiriços contra os restantes estados,
nomeadamente contra a Grã-Bretanha, que tencionava eliminar o seu principal
concorrente, por forma a alcançar o predomínio total nos mercados coloniais e
estrangeiros, o que gerou descontentamentos e permitiu aos franceses angariar
possíveis aliados (p.91). Apesar da coligação antifrancesa ser em teoria mais
forte, a história militar desta época é uma história de triunfos contínuos e
empolgantes para os franceses.
Face aos resultados das
guerras deparamo-nos com a tomada de consciência por parte dos estadistas de
que nenhuma guerra de vulto seria a partir de então tolerável, pois isto
implicaria quase certamente uma nova revolução e a destruição dos antigos
regimes. Apesar de na cena internacional proliferarem as oportunidades de
conflito, verifica-se que entre 1815 e 1914 não houve nenhum conflito que
envolvesse mais do que duas grandes nações (p.107). Assim, o concerto europeu
após as guerras napoleónicas «em face do objetivo absolutamente antiliberal e
antinacional (isto é, antirrevolucionário) dos seus autores foi realista e
sensato» (p.107). A vitória total sobre os franceses não foi explorada, no
sentido de se evitar provocar novos ímpetos jacobinos. Houve também uma
preocupação em estabelecer o equilíbrio entre as cinco grandes potências saídas
da guerra: Rússia, Grã-Bretanha, França, Áustria e Prússia. Estas potências
encetaram uma tentativa de manutenção da paz por meio de congressos regulares,
que resolvessem os problemas à medida que surgiam, o que, contudo, não foi
possível devido ao fracasso desse sistema na sequência das revoluções de 1830
(p.111).
Após a geração de 1815, o objetivo supremo de todas as potências era impedir uma nova revolução europeia. Contudo,
estes esforços foram infrutíferos, pois a Europa assistiu ao deflagrar de uma
série de revoltas que, ao contrário das que antecederam o período napoleónico,
foram planeadas. Ocorreram, entre 1815 e 1848, três correntes de revoluções: a
primeira, de 1820-1824, limitou-se ao Mediterrâneo, nomeadamente Espanha,
Nápoles e Grécia; a segunda ocorreu em 1829-1834 e atingiu toda a Europa a
ocidente da Rússia; a terceira, a de 1848, foi a maior das correntes
revolucionárias, tendo sido o resultado da crise de desenvolvimento da nova
sociedade (pp.116-119). Todos estes movimentos visavam subverter a ordem e
estavam unidos apenas pelo ódio comum aos regimes de 1815 e à tradicional
frente comum que unia a monarquia absoluta, a Igreja e a aristocracia. Do ponto
de vista internacional estas revoluções dividiram a Europa em duas grandes
regiões: a ocidente do Reno, onde puseram cobro definitivamente à hegemonia das
potências reacionárias unidas; e a leste do Reno, onde não triunfaram devido
às repressões da Áustria e da Rússia (p.124).
Nesta
obra também somos confrontados com a questão do nacionalismo, que foi um dos
resultados do movimento geral pós-1830 a favor da revolução. O nacionalismo refletia forças muito poderosas, que em resultado da dupla revolução, iam
ganhando, nos anos de 1830, consciência política. O que melhor o simboliza são
os chamados movimentos da «juventude», fundados ou inspirados por Guiseppe
Mazzini pouco depois da revolução de 1830 (p.137). Um momento essencial na
evolução nacional foi a imposição da língua nacional, o que ocorreu nos anos
1830 em vastos espaços da Europa. Antes de 1848, no Ocidente podemos falar de
um só movimento nacional organizado de forma coerente, baseado autenticamente
nas massas e que gozava de uma enorme vantagem de se identificar com a Igreja,
que era um forte portador da tradição (p.143). No resto do mundo, o autor
afirma cabalmente que «Fora da Europa, é difícil falar de nacionalismo»
(p.147).
No
que respeita aos resultados da dupla revolução, verifica-se que a estrutura
fundiária determinou, entre 1789 e 1848, o destino de quase todos os homens.
Nem a revolução económica nem a revolução política podiam permitir-se ignorar
aquilo que os fisiocratas consideravam como a única fonte de riqueza (p.153). A
dupla revolução tinha em comum o desígnio de transformar os sistemas
tradicionais de produção, por forma a transformar a terra numa mercadoria e a abolir o conjunto de acordos tradicionais
de carácter legal e político (feudalismo) que incidiam sobre a mesma (p.157).
Segundo Hobsbawm «Isto foi conseguido, de um modo geral, no período que decorre
entre 1789 e 1848- na maioria dos casos por influência direta ou indireta da
Revolução Francesa- de Gibraltar à Prússia Oriental, do Báltico à Sicília» (p.
157). Mas isto gerou reações contrárias por parte do campesinato, que
repudiava a forma burguesa de tratar a terra, pelo que não surpreende que o
camponês pobre ou toda a sociedade rural tentasse resistir a esse processo (p.
163).
Por
alturas de 1840 uma parte apreciável da Europa Ocidental e Central já tinha
franqueado ou estava no limiar da Revolução Industrial, não obstante, o mundo
social e económico dos anos de 1840 não era muito diferente do de 1788 (p.172). A industrialização nestes países se processou
em moldes diferentes, nomeadamente devido ao papel activo desempenhado pelos
governos (p.180). No seio desse desenvolvimento económico, a França afirmava-se
como um paradoxo, pois em teoria nenhum outro país tinha condições para
progredir tanto quanto ela, uma vez que dispunha de condições ideais para o
desenvolvimento do capitalismo. Mas esse paradoxo é desmistificado, tendo-se em
atenção os sucessos da revolução, pois esta «Pela mão de Robespierre (...)
levou muito de que dera pela mão da Assembleia Constituinte» (p.182). Por volta
de 1840, apesar de superar os restantes países europeus em termo de produção de
energia industrial, a França tinha perdido terreno em relação à Inglaterra.
Para isso certamente muito terá contribuído a revolução francesa, que se por um
lado contribuiu para a libertação de muitos constrangimentos que pesavam sobre
a terra, por outro, o longo período de agitação terá tido certamente
consequências nefastas sobre a economia. A revolução serviu assim simultaneamente
como motor e freio da industrialização, num país onde a indústria estava mais
virada para a produção de produtos de luxo, em detrimento de artigos para o
consumo de massa.
O
autor defende ainda que a sociedade francesa pós revolucionária era burguesa
tanto nas suas estruturas como nos seus valores. Era a sociedade em que se
afirmava o self-made man, em que as
carreiras estavam abertas ao talento, à energia, à astúcia, ao trabalho árduo e
à ganância. Ao homem desse período abria-se quatro tipo de opções: o negócio, a
educação, as artes e a guerra (p.193). Esta abertura constitui uma oportunidade
que foi aproveitada de forma apaixonada pelas minorias, como os protestantes e
os judeus, às quais estavam vedadas a projeção social devido à discriminação
oficial e coletiva (p.200).
Aos
pobres, face à sociedade burguesa, apresentavam-se três opções: esforçar-se por
torna-se burguês, abandonar-se à opressão ou revoltar-se. Devido à associação
da burguesia com a desumanidade, os pobres recusavam até as propostas mais
racionais da sociedade burguesa. Esta oposição era reforçada pelas reticências
que alguns burgueses manifestavam contra os aspectos da livre concorrência que
não os favoreciam (p.205). Da parte dos mais desfavorecidos encontramos algumas
manifestações de descontentamento que se traduziram na destruição ou abandono
das máquinas. Eles foram secundados nesta tarefa pelos pequenos comerciantes e
lavradores, que solidários, consideravam as máquinas como destruidoras da
existência dos homens (p.205). Não obstante o que mais contribuiu para a
desmoralização dos pobres foi o rápido crescimento dos centros urbanos e
industrializados, onde grassava o álcool, o infanticídio, a prostituição, o
suicídio e as doenças mentais (p.207). A alternativa era a rebelião, pelo que
surgiram movimentos trabalhistas e socialistas, bem como a agitação
revolucionária de massas (p.208).
Outra
das ideias principais deste livro esta relacionada com a secularização das
massas ocorrida na Europa antes de 1848. Entre os indivíduos do sexo masculino
das classes cultas e educadas a descristianização remontava aos fins do século
XVII, princípios do século XVIII. Entre
as massas da primeira metade do século XIX a indiferença perante a religião foi
um fenómeno sem precedentes (p.223). Parte desse distanciamento foi o resultado
do fracasso das igrejas estabelecidas em fazer face aos problemas dos aglomerados
e das classes sociais, nomeadamente ao problema do proletariado, aos quais eram
alheios. Mas, esse foi também um período de proliferação de seitas, que eram
tendencialmente apolíticas e se afastavam do mundo exterior para se devotarem á
salvação pessoal (P. 230). Foi também um período de regresso à religião
militante, liberal e antiquada, que se entrechocou com surtos de religiosidade
nas suas formas mais inflexíveis, irracionais e emocionalmente compulsivas
(p.232).
O
autor traça igualmente os principais aspectos que revestiram a ideologia
secular neste período, que se dividia entre o partido dos que acreditavam no
progresso e o partido dos que não acreditavam. No primeiro partido, encontramos
a formulação mais lúcida e minuciosa da ideologia do progresso, que encontrou
os seus expoentes máximos na Grã-Bretanha, remontando aos séculos XVII e XVIII.
Era uma ideologia rigorosamente racionalista e secular, que acreditava na
capacidade do homem de resolver todas as questões mediante o uso da razão
(p.237). Consideravam que o progresso era tão natural como o capitalismo. Mas
como este último não conseguiu satisfazer as expectativas surgiram críticas,
que demonstravam não apenas que o sistema era injusto, funcionava mal, mas que
tinha também produzido resultados contrários aos enunciados pelos seus
defensores (p.245). Estas críticas foram protagonizadas pelos socialistas, que
defendiam a tese segundo a qual os homens eram naturalmente seres comunais e,
portanto, viviam naturalmente juntos (p.246). No outro campo, encontramos as
ideologias de resistência ao progresso, que careciam de um método intelectual
comum e que acusavam o liberalismo de ter destruído a ordem social (p.247).
Os
acontecimentos da dupla revolução também tiveram influências na arte,
influências essas que Hobsbawm expõe do seguinte modo: «Se uma só frase
enganadora resumisse as relações do artista e da sociedade neste período,
poderíamos dizer que a Revolução Francesa inspirou o artista pelo seu exemplo,
a Revolução Industrial pelo seu horror e a sociedade burguesa, que emergiu de
ambos, transformou a sua própria existência e modos de criação» (p.258). Nesses
anos, as artes floresceram extraordinariamente, em grande parte devido ao seu
ressurgimento junto de um público culto, em praticamente todos os países.
Assistiu-se ao fenómeno novo que consistiu na propagação de acontecimentos
artísticos entre as diferentes nações (p.257). Certas artes e géneros, como a
literatura e o romance, desenvolveram-se de uma forma excepcional. Os artistas
eram diretamente influenciados por questões públicas, influência esta que era
tanto mais forte nos países em que se desenvolveu uma consciência nacional ou
em que surgiram movimentos de libertação ou de unificação nacional (p.258). O
autor ainda aborda o romantismo que, embora não fosse a única corrente
artística, considera como o movimento mais característico da período da dupla
revolução (p.272). O romantismo foi um movimento extremista, que procurava a
harmonia perdida pelo homem. Saciava esta procura por intermédio de três
fontes: «a Idade Média, o homem primitivo (ou, o que podia vir a dar no mesmo,
o exotismo e o folk) e a Revolução Francesa» (p.266). Fora do mundo da cultura
das letras encontramos a cultura da gente comum, com as suas canções, festejos,
trajes e hábitos que começaram a ser destruídos pela indústria e o crescimento
urbano (p.275).
Também
as ciências refletem as vicissitudes da dupla revolução porque esta lhes
colocou questões específicas e porque abriu-lhes novas possibilidades, pelo que
«O entusiasmo dos radicais burgueses e dos aristocratas liberais britânicos não
somente pela pesquisa aplicada, mas por ousados progressos no conhecimento, do
qual a própria ciência estabelecida, se retirou, é prova suficiente de que o
progresso científico do nosso século não pode ser separado do estímulo da
Revolução Industrial» (p.292). A ciência beneficiou do espantoso incentivo à
educação cientifica e técnica e do apoio à pesquisa, o que levou a novos e
radicais avanços em alguns campos de estudo como na matemática, ao acordar de
ciências até então adormecidas e a introdução de ideias revolucionárias no
campo das ciências sociais e biológicas (p.279). O universo da ciência
alargou-se atingindo países e povos que até aí apenas lhe tinham dado
contribuições insignificantes. Este era o caso de húngaros e noruegueses, pelo
que a ciência parece refletir o despertar das culturas nacionais para além da
Europa Ocidental (p.281). Se existiu um conjunto de áreas, como as clássicas
ciências físicas, que permaneceram substancialmente dentro dos parâmetros
estabelecidos, outras houve, como a matemática, a física e as ciências sociais,
que sofreram uma verdadeira revolução.
Assim,
o meio século abordado por Hobsbawm foi um período de superlativos, de grandes
triunfos a todos os níveis. Mas esses triunfos tinham o seu lado negativo. Por
exemplo, na Inglaterra, nomeadamente em Manchester, a Revolução Industrial
criou um mundo hediondo até então nunca conhecido. Contribuiu para a
infelicidade do homem ao arrancá-lo às suas raízes, privando-o de tudo o que
tinha conseguido ao longo de séculos (p.299). Por alturas de 1840 também a
estrutura social do mundo estava transformada, embora essa transformação fosse
menor do que se tinha previsto em 1800. Com a excepção do continente americano
a monarquia continuava a ser o sistema mais corrente dos Estados (p.301).
Porém, grandes mudanças tinham ocorrido, mudanças essas cujo ritmo cresceu
visivelmente depois da revolução de 1830, que introduziu constituições liberais
moderadas de classe média nos principais estados da Europa Ocidental. Até a
democracia radical, advogada principalmente por revolucionários de esquerda,
conseguiu notáveis avanços (p.302). Apenas na política internacional se operou
uma revolução aparentemente total, na medida em que o mundo de 1840 era,
política e economicamente, dominado pelas potências europeias, mais os Estados
Unidos (p.302).
Ao entrar em contacto com
este livro o leitor é impressionado pela sua vastidão. Com efeito, o autor
condensou as suas ideias ao longo de 307 exaustivas páginas. A obra é também
exaustiva em termos cronológicos, abarcando o meio século entre a revolução de
1789 e as revoluções de 1848. Esta obra foi escrita a algumas dezenas de anos,
pelo que foge à atual tendência da historiografia que se centra no estudo de
temas específicos, circunscritos. Hobsbawm, pelo contrário, opta pelas grandes
visões da história, tentando abarcar amplos espaços temporais e geográficos, o
que em grande parte dificulta o trabalho de condensar em poucas páginas as
ideias principais da obra.
A estrutura interna da obra,
dividida em acontecimentos e resultados, tem implícita, uma certa ideia de
causa/ efeito, isto é, que os acontecimentos descritos na primeira parte são as
causas que produziram os resultados mencionados na segunda parte. Em última
análise, para o autor, o mundo que existiu entre 1789 e 1848 é o produto da
revolução industrial e francesa. Embora, seja sabido que esta dupla revolução afetou a Europa nos mais variados aspectos, cabe questionar se não existiram
regiões dentro da própria Europa ou aspectos da vida humana afetados por essas
revoluções que não foram abordados pelo autor. Por exemplo, não encontramos
referências sobre as consequências da revolução francesa sobre a vida privada,
nomeadamente sobre o vestuário, sobre as palavras e as formas de tratamento. Em
suma, pode-se afirmar que Hobsbawm direcionou esta obra para o estudo das inovações introduzidas pela dupla revolução, mas não deixou de parte
as permanências do Antigo Regime, pois se é indiscutível que a Europa se
transformou em virtude desses acontecimentos também não é menos verdade que as
sociedades nunca se transformam completamente. Existem sempre persistências dos
períodos anteriores, pois não se pode falar da sociedade de hoje sem se referir
à sociedade que existiu ontem.
Se os acontecimentos do meio
século decorrente entre 1789 e 1848 são apresentados pelo autor como o
resultado da dupla revolução, por outro lado, é implícito na obra o
reconhecimento que estas duas revoluções tiveram áreas especificas de
influência e ritmos próprios de expansão. Assim, a revolução francesa teve uma
influência primordial sobre a abertura das carreiras ao talento, sobre a
ideologia religiosa (nomeadamente através da quebra do poderio económico da
Igreja, através da confiscação dos seus bens), enquanto que a revolução
industrial teve influências sobre a terra (embora a revolução francesa também
tivesse contribuído para uma maior redistribuição da propriedade), a indústria,
o comércio, os transportes, etc.
Posto isto, este livro
mantém uma grande atualidade, sendo de destacar a atenção do autor em relação
ao capítulo dedicado à revolução francesa. Apesar do carácter eurocentrista da
obra, Hobsbawm detém-se sobre a extensão da influência europeia, e sobre a
importância de outras entidades políticas, como o Império Otomano, para o
equilíbrio europeu. Por outro lado, existem momentos em que o autor se detém
sobre um assunto mais especifico, nomeadamente a independência grega,
ressaltando assim a importância deste acontecimento para a Europa. Encontramos
também a referência a duas obras essenciais para a compreensão deste período,
como sejam A Riqueza das Nações, de
Adam Smith, e Os Princípios da Economia
Política, de David Ricardo (p.239). No que toca à revolução industrial o
autor ressalta a resolução do problema agrário por parte da Grã-Bretanha o que
lhe franqueou as portas para o desenvolvimento da agricultura (p.40).
Sintomático é a análise da questão da educação na França, onde o número de
alunos nos liceus estatais duplicou entre 1809 e 1842, aumentando com
particular rapidez sob a monarquia de Julho (p.204). Relativamente aos outros
aspectos da obra nota-se que os dois últimos mapas (um sobre a relação entre a
população, a produção de lingotes de ferros e a tonelagem descarregadas nos
portos; e o outro sobre a área de influência do Código Civil) não têm título,
ao contrário dos anteriores, que por exemplo se referem à Europa em 1789 ou
então à população mundial nas grandes cidades (p.309 e pp.312-313, respectivamente).
É ainda digno de realce a forma como a
bibliografia é apresentada, pois em simultâneo à enunciação das obras
utilizadas o autor tece comentários em relação aos mesmos (pp.331-335).