15/06/24

Marchas Populares no "Bairro" da Graça


Introdução

"Lá vai Lisboa com a saia cor de mar. Cada bairro é um noivo que com ela vai casar! Lá vai Lisboa com seu arquinho e balão, com cantiguinhas na boca e amor no coração!" Esta célebre estrofe da música "Lá vai Lisboa", interpretada por Amália Rodrigues, encapsula a essência vibrante das Marchas Populares de Lisboa. Esta festividade, que ocorre anualmente em junho, reúne os diversos bairros da cidade num espetáculo de cor, música e dança, refletindo a rica tapeçaria cultural de Lisboa.

No presente estudo, foi realizada uma investigação etnográfica focada no bairro da Graça, com o objetivo de explorar o complexo processo de construção cultural do popular urbano através da organização, preparação e apresentação da "marcha" deste bairro. A escolha do tema e da área de estudo justifica-se pelo fascínio pelo estudo das cidades e, especialmente, das festas populares. Esta pesquisa em contexto urbano permite focar nos diversos universos citadinos e urbanos através de um ângulo de observação e análise da realidade social na proximidade aos atores, práticas, quotidianos e atividades.

A Festa Popular na cidade de Lisboa

A morfologia urbana de Lisboa foi-se alterando ao longo dos séculos, refletindo as várias vagas migratórias que a cidade absorveu. Cada nova área urbana ou renovação é fruto de uma reorganização socioespacial, onde os novos grupos estabelecem um conjunto de relações, dando origem a características próprias.

A festa na cidade, especialmente as Marchas Populares, constitui-se como objeto de estudo privilegiado, pois oferece uma oportunidade única de observar como os indivíduos se relacionam com o seu meio através das suas práticas socioespaciais. As festas populares, ao mesmo tempo que reúnem pessoas, intensificam o atrito entre os diversos bairros envolvidos, mas é na energia residual desse atrito que reside o verdadeiro significado da festa.

História e evolução das Marchas Populares

As Marchas Populares de Lisboa têm uma história rica e complexa. Graça Cordeiro divide a evolução das marchas em quatro períodos: a "fase espontânea" (finais do século XIX ao início do século XX); a "fase de transição" (1910-1920); a "folclorização e institucionalização de um modelo" (1930-1970); e a "revitalização do ritual" (década de 1980). Cada período reflete mudanças significativas na cidade e na forma como as marchas foram organizadas e percebidas.

Durante a fase espontânea, a cidade de Lisboa sofreu grandes alterações demográficas, com um aumento populacional significativo. Este influxo de imigrantes trouxe uma nova efervescência coletiva para as festas populares. A fase de transição foi marcada pela instabilidade política após a implantação da república, o que levou a uma diminuição nas manifestações festivas. Contudo, as marchas nunca foram totalmente interrompidas e renasceram com força nos anos 1930.

A folclorização e institucionalização das marchas, iniciada por Leitão de Barros em 1932, trouxe uma nova estrutura para as festividades, incorporando elementos do espetáculo. Este modelo tem sido mantido até os dias de hoje, embora tenha passado por várias adaptações e renovações. A partir da década de 1980, houve uma revitalização do ritual, com as marchas ganhando nova popularidade e um renovado sentido de identidade coletiva.

Preparativos para a Marcha da Graça

Os preparativos para a Marcha da Graça começam cedo, geralmente em março, com a comissão organizadora iniciando os contatos com os marchantes do ano anterior. Esta primeira fase é crucial para garantir a participação dos marchantes mais veteranos e com maior ligação ao clube e ao bairro.

No entanto, a facilidade de recrutamento varia de ano para ano. Em 2009, por exemplo, houve um excedente de marchantes, facilitando a organização. Contudo, em outros anos, a escassez de marchantes, especialmente homens, tornou-se um desafio. Muitas vezes, a organização teve que recorrer a familiares e amigos para preencher os lugares vacantes.

A base social dos marchantes da Graça inclui tanto os membros do clube local quanto os moradores de áreas próximas, como os "prédios amarelos". A ligação emocional ao bairro e ao grupo de amigos é um fator determinante para a participação nas marchas, mais do que a mera residência.

Ensaios e desafios

Os ensaios da Marcha da Graça começam em abril e são diários até junho. Estes ensaios são essenciais para a preparação da performance, garantindo a coordenação e a qualidade dos movimentos. O ensaiador, geralmente um profissional ligado ao mundo do espetáculo, coordena os trabalhos com a ajuda de assistentes, muitas vezes bailarinas profissionais.

A gestão do grupo de marchantes, composto por amadores, apresenta desafios. A falta de preparação e a necessidade de coordenação entre os marchantes exigem paciência e dedicação. No entanto, o sentido de responsabilidade e a motivação para participar na noite do desfile são elementos que impulsionam os marchantes a se empenharem nos ensaios.

A noite do desfile

A noite do desfile na Avenida da Liberdade é o culminar de meses de preparação e esforço. Para os marchantes, este é o momento de protagonismo, onde sentem a adrenalina e a responsabilidade de representar o seu bairro e a sua coletividade. A performance na avenida é um momento de grande emoção, onde os marchantes são observados por milhares de pessoas e transmitidos na televisão para todo o mundo.

Observação participante na Marcha da Graça

Como parte deste estudo, foi realizada uma observação participante na Marcha da Graça, envolvendo a participação direta nos ensaios e no desfile. Esta abordagem permitiu uma compreensão mais profunda dos processos e dinâmicas envolvidas na organização e na performance da marcha.

Preparativos e ensaio

A preparação para a observação participante começou com a integração na comissão organizadora da marcha. Participar das reuniões e dos ensaios permitiu observar de perto o trabalho árduo e a dedicação necessários para preparar a marcha. A comissão é composta por membros da comunidade, muitos dos quais têm anos de experiência na organização das marchas.

Os ensaios, realizados todas as noites, foram momentos de intensa atividade e camaradagem. A coordenação entre os marchantes e o ensaiador é crucial para garantir a fluidez e a precisão dos movimentos. O ensaiador, com a ajuda das assistentes, orienta os marchantes, corrigindo passos e ajustando a coreografia conforme necessário.

Dinâmicas de grupo e desafios

A observação participante também permitiu identificar as dinâmicas de grupo e os desafios enfrentados pelos marchantes. A coesão do grupo é essencial para o sucesso da marcha, mas nem sempre é fácil de alcançar. Diferenças de opinião, níveis variados de habilidade e a pressão dos ensaios podem gerar tensões. No entanto, o espírito de colaboração e o objetivo comum de criar uma performance memorável ajudam a superar essas dificuldades.

A noite do desfile

Participar do desfile na Avenida da Liberdade foi uma experiência inesquecível. A emoção de desfilar diante de uma grande audiência, a sensação de representar o bairro e a alegria de participar na festa são momentos que ficam gravados na memória. A adrenalina e a energia coletiva durante o desfile são palpáveis, criando um sentido de unidade e orgulho comunitário.

Conclusão

As Marchas Populares de Lisboa, e em particular a Marcha da Graça, são um testemunho vibrante da cultura popular urbana. Através da observação participante, foi possível entender melhor os processos de organização, preparação e performance que tornam esta festividade tão especial. As marchas são mais do que um simples evento; são uma expressão de identidade coletiva, uma celebração da comunidade e uma janela para a rica tapeçaria cultural de Lisboa.

A festa popular urbana, com o seu sentido conservador e transformador, continua a ser um elemento central na vida da cidade, promovendo a renovação anual e a renegociação das tradições. A Marcha da Graça, com as suas particularidades e desafios, exemplifica a complexidade e a beleza deste fenómeno cultural, reafirmando a importância das festas populares na construção da identidade urbana.

Referências

  • Cordeiro, Graça. A Cidade e a Festa: A Construção da Identidade Popular em Lisboa. Lisboa: Livros Horizonte, 1997.
  • Barros, Leitão de. Marchas Populares de Lisboa: História e Tradição. Lisboa: Câmara Municipal de Lisboa, 1982.
  • Rodrigues, Amália. Lá vai Lisboa. Lisboa: Valentim de Carvalho, 1958.

A Cultura como mercadoria: do ritual ao espetáculo de consumo

 A Cultura como mercadoria: do ritual ao espetáculo de consumo

Introdução

A transformação da cultura em mercadoria é um fenómeno complexo e multifacetado que tem implicações profundas para a forma como a sociedade contemporânea percebe, valoriza e consome manifestações culturais. Este fenómeno, frequentemente referido como a mercantilização da cultura, é caracterizado pela transformação de práticas culturais, tradições e rituais em produtos de consumo. Neste contexto, a cultura deixa de ser apenas uma expressão de identidade coletiva e passa a ser também um bem económico, moldado pelas forças do mercado.

A cultura como mercadoria

A ideia de cultura como mercadoria refere-se ao processo pelo qual elementos culturais são apropriados e transformados em produtos que podem ser comprados e vendidos. Este processo está intimamente ligado ao desenvolvimento do capitalismo e à globalização, que facilitam a circulação e o consumo de bens culturais em escala global.

Segundo Domingues (2000), a mercantilização da cultura pode ser vista como uma transição da “limitação elitista da cultura” para sua “completa massificação” (p. 347). Este movimento implica que a cultura, que antes poderia ser restrita a círculos específicos, agora está disponível para um público mais amplo, muitas vezes através de meios de comunicação de massa e plataformas digitais.

A mercantilização da cultura tem várias manifestações, incluindo a comercialização de eventos culturais, a criação de souvenirs e produtos culturais, e a transformação de tradições e rituais em atrações turísticas. Esta transformação pode ter tanto efeitos positivos quanto negativos, dependendo de como é gerida e da perspectiva a partir da qual é analisada.

Festas e rituais: do ritual ao espetáculo

Um exemplo claro da transformação da cultura em mercadoria pode ser visto na evolução das festas e rituais. Tradicionalmente, festas e rituais desempenhavam um papel central na vida comunitária, servindo como momentos de celebração, reflexão e reforço de laços sociais. No entanto, à medida que essas práticas se tornam cada vez mais espetáculos de consumo, o seu valor e significado podem ser alterados.

Jacob, citado por Raposo (2004), observa que "hoje nas festas, são cada vez menos rituais de passagem e mais espetáculo de consumo para deleite do visitante informado" (p. 14). Este comentário ressalta a transição de eventos culturais que outrora eram experiências comunitárias íntimas para eventos destinados ao consumo de massas. Este processo envolve a revalorização do valor formal do produto cultural, muitas vezes em detrimento do seu valor substancial.

O impacto desta transformação é duplo. Por um lado, a comercialização das festas pode gerar benefícios económicos significativos para as comunidades locais, atraindo turistas e promovendo o desenvolvimento local. Por outro lado, a comercialização pode levar à perda de significado cultural e à superficialização das práticas culturais, que passam a ser vistas apenas como entretenimento.

A possessão da ancestralidade imaginada

A mercantilização da cultura também está ligada à ideia de posse da ancestralidade imaginada. Jacob, citado novamente por Raposo (2004), argumenta que "a posse do objeto parece dar-nos, aparentemente, a posse da ancestralidade imaginada" (p. 14). Este conceito sugere que, ao adquirir objetos culturais, os consumidores acreditam estarem a ligarem-se com um passado autêntico e significativo, mesmo que essa ligação seja, na verdade, superficial.

Esta dinâmica é particularmente evidente no turismo cultural, onde os turistas muitas vezes compram souvenirs e participam de atividades culturais na crença de que estão a experimentar algo genuíno. No entanto, a autenticidade dessas experiências é frequentemente questionável, pois os produtos culturais são frequentemente adaptados e modificados para atender às expectativas do mercado turístico.

O mercado e a re(tradicionalização) da cultura

O papel do mercado na determinação de quais manifestações culturais devem ser “revitalizadas” ou “retradicionalizadas” é um tema central na discussão sobre a mercantilização da cultura. Angelo Serpa (2007) argumenta que "é o mercado quem vai ditar em última instância quais as manifestações culturais que devem ser 'revitalizadas' ou 'retradicionalizadas', afastando-as gradativamente do seu sentido e valor de culto originais" (p. 93).

Este processo de re(tradicionalização) é impulsionado pelas procuras do mercado turístico e pelas estratégias de marketing empresarial, que muitas vezes priorizam a criação de produtos culturais que sejam atraentes e consumíveis por um público global. Neste contexto, as manifestações culturais podem perder a sua essência lúdica e a capacidade de oferecer alternativas à homogeneização cultural promovida pela globalização.

A transformação de práticas culturais em produtos de consumo pode levar ao desaparecimento de culturas ou à sua subordinação à lógica do consumo de massas. Este fenômeno é particularmente preocupante em um mundo onde a diversidade cultural é constantemente ameaçada pela globalização e pela homogeneização cultural.

Cultura de Massa vs. Cultura Popular

A distinção entre cultura de massa e cultura popular é essencial para compreender as implicações da mercantilização da cultura. Cultura de massa refere-se a produtos culturais que são criados e disseminados por grandes empresas para um público amplo, muitas vezes com o objetivo de lucro. Em contraste, a cultura popular emerge das práticas e tradições das comunidades locais e é geralmente mais autêntica e representativa das identidades culturais.

Henriques e Custódio, no seu estudo sobre turismo e dança folclórica em Portugal, destacam que a cultura como mercadoria está associada a um processo de massificação cultural. Eles argumentam que "a cultura como recurso, como mercadoria, associa-se a um processo designado por mercantilização da cultura" (p. 2). Este processo pode levar à superficialização das práticas culturais, transformando-as em meros rituais lúdicos e passivos, desprovidos de seu significado original.

Turismo e mercantilização da cultura

O turismo é um dos principais motores da mercantilização da cultura. A procura por experiências autênticas e exóticas leva os turistas a lugares onde podem consumir produtos culturais, muitas vezes sem uma compreensão profunda do seu significado ou contexto. Esta demanda por autenticidade pode levar à transformação das práticas culturais em espetáculos turísticos.

Em muitas comunidades, o turismo cultural é visto como uma oportunidade de desenvolvimento económico. No entanto, essa oportunidade vem com desafios significativos. A pressão para atender às expectativas dos turistas pode levar à simplificação e à estandardização das práticas culturais, resultando numa perda de autenticidade e significado.

As danças folclóricas, por exemplo, são frequentemente transformadas em espetáculos para turistas, com adaptações que as tornam mais atraentes e compreensíveis para um público global. Embora isso possa aumentar a visibilidade e o apelo dessas tradições, também pode levar à sua distorção e descontextualização.

Conclusão

A mercantilização da cultura é um fenômeno complexo que envolve a transformação de práticas culturais em produtos de consumo. Esta transformação tem implicações profundas para a forma como a cultura é percebida, valorizada e consumida na sociedade contemporânea.

Embora a mercantilização da cultura possa gerar benefícios económicos significativos e promover a visibilidade das tradições culturais, ela também apresenta riscos. A superficialização e a perda de significado das práticas culturais, a homogenização cultural e a subordinação da cultura à lógica do mercado são alguns dos desafios que precisam ser enfrentados.

Para mitigar os efeitos negativos da mercantilização da cultura, é essencial encontrar um equilíbrio entre a preservação da autenticidade cultural e a adaptação às demandas do mercado. Isso requer uma abordagem sensível e crítica que reconheça o valor intrínseco das práticas culturais e procure protegê-las das pressões comerciais.

Em última análise, a cultura como mercadoria é um reflexo das complexas interações entre tradição, modernidade e mercado. Ao explorar essas interações, podemos obter uma compreensão mais profunda das dinâmicas que moldam a cultura contemporânea e das maneiras pelas quais podemos preservar a riqueza e a diversidade das tradições culturais num mundo em constante mudança.

Bibliografia

  1. Domingues, J. (2000). “A Modernidade Global: Novos Caminhos”. São Paulo: Editora 34.
  2. Henriques, Cláudia e Custódio, Maria João. “Turismo e dança folclórica em Portugal: que futuro?” http://cassiopeia.esel.ipleiria.pt/esel_eventos/files/2106_Claudia_Henriques_4757ec21b66c5.pdf.
  3. Raposo, Paulo. (2004). “Do ritual ao espectáculo. ‘Caretos’, intelectuais, turistas e media”. In Maria Cardeira da Silva (org.), Outros Trópicos. Novos Destinos turísticos, Novos terrenos da Antropologia. Lisboa: Livros Horizonte.
  4. Serpa, Angelo. (2007). “Cultura de massa versus cultura popular na cidade do espetáculo e da ‘retradicionalização’”. Espaço e Cultura, UERJ, Nº 22, p. 93.

Recensão crítica: An Introduction to Tourism and Anthropology de Peter M. Burns (Routledge, 1999)

No final do século XX, num momento em que o turismo se afirmava como um dos principais motores da economia global, e a antropologia procurav...