Introdução
"Lá vai Lisboa com a saia cor de mar. Cada bairro é um noivo que com ela vai casar! Lá vai Lisboa com seu arquinho e balão, com cantiguinhas na boca e amor no coração!" Esta célebre estrofe da música "Lá vai Lisboa", interpretada por Amália Rodrigues, encapsula a essência vibrante das Marchas Populares de Lisboa. Esta festividade, que ocorre anualmente em junho, reúne os diversos bairros da cidade num espetáculo de cor, música e dança, refletindo a rica tapeçaria cultural de Lisboa.
No presente estudo, foi realizada uma investigação etnográfica focada no bairro da Graça, com o objetivo de explorar o complexo processo de construção cultural do popular urbano através da organização, preparação e apresentação da "marcha" deste bairro. A escolha do tema e da área de estudo justifica-se pelo fascínio pelo estudo das cidades e, especialmente, das festas populares. Esta pesquisa em contexto urbano permite focar nos diversos universos citadinos e urbanos através de um ângulo de observação e análise da realidade social na proximidade aos atores, práticas, quotidianos e atividades.
A Festa Popular na cidade de Lisboa
A morfologia urbana de Lisboa foi-se alterando ao longo dos séculos, refletindo as várias vagas migratórias que a cidade absorveu. Cada nova área urbana ou renovação é fruto de uma reorganização socioespacial, onde os novos grupos estabelecem um conjunto de relações, dando origem a características próprias.
A festa na cidade, especialmente as Marchas Populares, constitui-se como objeto de estudo privilegiado, pois oferece uma oportunidade única de observar como os indivíduos se relacionam com o seu meio através das suas práticas socioespaciais. As festas populares, ao mesmo tempo que reúnem pessoas, intensificam o atrito entre os diversos bairros envolvidos, mas é na energia residual desse atrito que reside o verdadeiro significado da festa.
História e evolução das Marchas Populares
As Marchas Populares de Lisboa têm uma história rica e complexa. Graça Cordeiro divide a evolução das marchas em quatro períodos: a "fase espontânea" (finais do século XIX ao início do século XX); a "fase de transição" (1910-1920); a "folclorização e institucionalização de um modelo" (1930-1970); e a "revitalização do ritual" (década de 1980). Cada período reflete mudanças significativas na cidade e na forma como as marchas foram organizadas e percebidas.
Durante a fase espontânea, a cidade de Lisboa sofreu grandes alterações demográficas, com um aumento populacional significativo. Este influxo de imigrantes trouxe uma nova efervescência coletiva para as festas populares. A fase de transição foi marcada pela instabilidade política após a implantação da república, o que levou a uma diminuição nas manifestações festivas. Contudo, as marchas nunca foram totalmente interrompidas e renasceram com força nos anos 1930.
A folclorização e institucionalização das marchas, iniciada por Leitão de Barros em 1932, trouxe uma nova estrutura para as festividades, incorporando elementos do espetáculo. Este modelo tem sido mantido até os dias de hoje, embora tenha passado por várias adaptações e renovações. A partir da década de 1980, houve uma revitalização do ritual, com as marchas ganhando nova popularidade e um renovado sentido de identidade coletiva.
Preparativos para a Marcha da Graça
Os preparativos para a Marcha da Graça começam cedo, geralmente em março, com a comissão organizadora iniciando os contatos com os marchantes do ano anterior. Esta primeira fase é crucial para garantir a participação dos marchantes mais veteranos e com maior ligação ao clube e ao bairro.
No entanto, a facilidade de recrutamento varia de ano para ano. Em 2009, por exemplo, houve um excedente de marchantes, facilitando a organização. Contudo, em outros anos, a escassez de marchantes, especialmente homens, tornou-se um desafio. Muitas vezes, a organização teve que recorrer a familiares e amigos para preencher os lugares vacantes.
A base social dos marchantes da Graça inclui tanto os membros do clube local quanto os moradores de áreas próximas, como os "prédios amarelos". A ligação emocional ao bairro e ao grupo de amigos é um fator determinante para a participação nas marchas, mais do que a mera residência.
Ensaios e desafios
Os ensaios da Marcha da Graça começam em abril e são diários até junho. Estes ensaios são essenciais para a preparação da performance, garantindo a coordenação e a qualidade dos movimentos. O ensaiador, geralmente um profissional ligado ao mundo do espetáculo, coordena os trabalhos com a ajuda de assistentes, muitas vezes bailarinas profissionais.
A gestão do grupo de marchantes, composto por amadores, apresenta desafios. A falta de preparação e a necessidade de coordenação entre os marchantes exigem paciência e dedicação. No entanto, o sentido de responsabilidade e a motivação para participar na noite do desfile são elementos que impulsionam os marchantes a se empenharem nos ensaios.
A noite do desfile
A noite do desfile na Avenida da Liberdade é o culminar de meses de preparação e esforço. Para os marchantes, este é o momento de protagonismo, onde sentem a adrenalina e a responsabilidade de representar o seu bairro e a sua coletividade. A performance na avenida é um momento de grande emoção, onde os marchantes são observados por milhares de pessoas e transmitidos na televisão para todo o mundo.
Observação participante na Marcha da Graça
Como parte deste estudo, foi realizada uma observação participante na Marcha da Graça, envolvendo a participação direta nos ensaios e no desfile. Esta abordagem permitiu uma compreensão mais profunda dos processos e dinâmicas envolvidas na organização e na performance da marcha.
Preparativos e ensaio
A preparação para a observação participante começou com a integração na comissão organizadora da marcha. Participar das reuniões e dos ensaios permitiu observar de perto o trabalho árduo e a dedicação necessários para preparar a marcha. A comissão é composta por membros da comunidade, muitos dos quais têm anos de experiência na organização das marchas.
Os ensaios, realizados todas as noites, foram momentos de intensa atividade e camaradagem. A coordenação entre os marchantes e o ensaiador é crucial para garantir a fluidez e a precisão dos movimentos. O ensaiador, com a ajuda das assistentes, orienta os marchantes, corrigindo passos e ajustando a coreografia conforme necessário.
Dinâmicas de grupo e desafios
A observação participante também permitiu identificar as dinâmicas de grupo e os desafios enfrentados pelos marchantes. A coesão do grupo é essencial para o sucesso da marcha, mas nem sempre é fácil de alcançar. Diferenças de opinião, níveis variados de habilidade e a pressão dos ensaios podem gerar tensões. No entanto, o espírito de colaboração e o objetivo comum de criar uma performance memorável ajudam a superar essas dificuldades.
A noite do desfile
Participar do desfile na Avenida da Liberdade foi uma experiência inesquecível. A emoção de desfilar diante de uma grande audiência, a sensação de representar o bairro e a alegria de participar na festa são momentos que ficam gravados na memória. A adrenalina e a energia coletiva durante o desfile são palpáveis, criando um sentido de unidade e orgulho comunitário.
Conclusão
As Marchas Populares de Lisboa, e em particular a Marcha da Graça, são um testemunho vibrante da cultura popular urbana. Através da observação participante, foi possível entender melhor os processos de organização, preparação e performance que tornam esta festividade tão especial. As marchas são mais do que um simples evento; são uma expressão de identidade coletiva, uma celebração da comunidade e uma janela para a rica tapeçaria cultural de Lisboa.
A festa popular urbana, com o seu sentido conservador e transformador, continua a ser um elemento central na vida da cidade, promovendo a renovação anual e a renegociação das tradições. A Marcha da Graça, com as suas particularidades e desafios, exemplifica a complexidade e a beleza deste fenómeno cultural, reafirmando a importância das festas populares na construção da identidade urbana.
Referências
- Cordeiro, Graça. A Cidade e a Festa: A Construção da Identidade Popular em Lisboa. Lisboa: Livros Horizonte, 1997.
- Barros, Leitão de. Marchas Populares de Lisboa: História e Tradição. Lisboa: Câmara Municipal de Lisboa, 1982.
- Rodrigues, Amália. Lá vai Lisboa. Lisboa: Valentim de Carvalho, 1958.