06/06/24

The Turist Gaze


Recensão crítica:  "The Tourist Gaze"

O conceito de "tourist gaze" (olhar turístico), desenvolvido pelo sociólogo britânico John Urry no seu trabalho "The Tourist Gaze" (1990), oferece uma lente crítica através da qual podemos entender as complexas dinâmicas do turismo moderno. Urry argumenta que o olhar do turista é uma construção social influenciada por uma série de fatores culturais, económicos e mediáticos. Este ensaio explora detalhadamente o conceito de "tourist gaze", as suas implicações teóricas, críticas e expansões, proporcionando uma análise abrangente da sua relevância contemporânea.
John Urry propõe que o olhar do turista não é meramente uma visão passiva, mas um ato de consumo que está profundamente enraizado numa rede de significados culturais e sociais. Ele sugere que o turismo é uma prática que envolve a procura por experiências diferentes da vida cotidiana, onde os turistas desejam ver e vivenciar algo "extraordinário". Esse desejo é, muitas vezes, moldado por representações mediáticas que promovem certos lugares como dignos de serem vistos.
Urry distingue entre os diferentes tipos de olhares turísticos, tais como o "romântico" e o "colecionador", cada um deles refletindo diferentes motivações e expectativas dos turistas. Ele também discute a maneira como os destinos são "preparados" para atender a essas expectativas, muitas vezes resultando na criação de atrações turísticas que são menos autênticas e mais encenadas.
O conceito de "turist gaze" tem sido amplamente aceite e aplicado em estudos de turismo, mas não sem críticas. Uma das críticas mais comuns é que o conceito pode ser excessivamente determinista. Alguns críticos argumentam que Urry subestima os turistas e as comunidades locais, sugerindo que ambos são meramente passivos diante das forças culturais e económicas maiores. Na realidade, turistas e locais muitas vezes cocriam experiências turísticas de forma que desafiam estereótipos e expectativas pré-estabelecidas.
Além disso, o "tourist gaze" de Urry tende a homogeneizar os turistas, não levando suficientemente em conta a diversidade de olhares dentro do próprio grupo de turistas. Diferentes turistas podem ter motivações, expectativas e experiências muito variadas, influenciadas por fatores como classe social, etnia, género e idade. Essa diversidade interna pode resultar em múltiplos "gazes" coexistindo e interagindo de maneiras complexas.
Desde a publicação do trabalho de Urry, o conceito de "tourist gaze" foi expandido e adaptado para incorporar novas dimensões do turismo contemporâneo. Uma dessas expansões é a “gaze digital", que examina como a tecnologia digital, especialmente smartphones e redes sociais, transformam a experiência turística. Agora, os turistas não consomem apenas paisagens e culturas, mas também produzem e compartilham imagens e narrativas em tempo real, influenciando as percepções de outros potenciais turistas.
Pesquisas recentes também exploraram o impacto do "tourist gaze" sobre as comunidades locais. Em alguns casos, a procura por autenticidade pode levar à exotificação e à comercialização excessiva de culturas e tradições locais. Em outros casos, as comunidades locais podem resistir e reapropriar-se dessas representações, criando formas de turismo que desafiam e subvertem as expectativas dos turistas.
O conceito de "tourist gaze" de John Urry continua a ser uma ferramenta valiosa para a análise do turismo. Ele oferece insights profundos sobre como as práticas turísticas são moldadas por forças culturais e económicas e como, por sua vez, moldam os destinos turísticos. No entanto, é crucial continuar a questionar e refinar o conceito para refletir melhor as complexidades e diversidades das experiências turísticas modernas. A incorporação de novas tecnologias e a consideração das variadas perspectivas dos turistas e das comunidades locais são passos importantes para um entendimento mais aprofundado do turismo contemporâneo.

Referências bibliográficas:

Larsen, J. (2008). Deexoticizing tourist travel: Everyday life and sociality on the move. Leisure Studies, 27(1), 21-34.

Scarles, C. (2009). Becoming tourist: Renegotiating the visual in the tourist experience. Environment and Planning D: Society and Space, 27(3), 465-488.

Urry, J. (1990). The Tourist Gaze. Sage Publications.

Urry, J., & Larsen, J. (2011). The Tourist Gaze 3.0. Sage Publications.

 

 

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